Zema ganha força como vice de Flávio após confronto com STF
Segundo apuração da Folha de S.Paulo divulgada ontem (25 de abril), aliados de Flávio Bolsonaro afirmam que Romeu Zema (Novo) aumentou…
O Fato
Segundo apuração da Folha de S.Paulo divulgada ontem (25 de abril), aliados de Flávio Bolsonaro afirmam que Romeu Zema (Novo) aumentou significativamente seu cacife político para integrar a chapa presidencial como vice-presidente do senador pelo PL. O movimento de Zema em confrontar ministros do Supremo Tribunal Federal, particularmente Gilmar Mendes, teria reforçado a percepção de que o governador de Minas Gerais é um quadro capaz de enfrentar instituições e não se curvar a pressões judiciais — exatamente o tipo de perfil que o entorno de Flávio busca para equilibrar a campanha.
O contexto é decisivo para compreender essa movimentação. Estamos em abril de 2026, momento em que a polarização política brasileira permanece acirrada, com o STF ocupando papel central nos debates sobre poder Executivo e Judiciário. Romeu Zema, que construiu sua carreira como crítico do establishment político tradicional e defensor de uma agenda liberal-conservadora, vem intensificando sua retórica contra decisões judiciais que considera excessivas. Esse posicionamento, antes visto com ressalva por setores moderados, agora é interpretado pelos apoiadores de Flávio como atributo valioso para uma candidatura que precisa consolidar voto conservador e descontente com o poder judiciário.
A estratégia revela cálculo eleitoral claro: se Flávio Bolsonaro herda parte do voto bolsonarista tradicional, mas enfrenta resistências em setores médios e moderados, Zema ofereceria ponte para eleitorado mineiro, experiência administrativa comprovada em estado economicamente relevante, além de imagem de homem que não teme confrontar instituições poderosas. Segundo a Folha, integrantes do núcleo duro de Flávio veem no governador mineiro exatamente o complemento que faltava à chapa — alguém com credibilidade junto a empresários e camadas médias, mas igualmente disposto a questionar decisões do Supremo quando necessário.
Os embates entre Zema e Gilmar Mendes, um dos ministros mais influentes da corte, ganharam visibilidade pública e são interpretados pelos aliados bolsonaristas como demonstração de coragem política. Em um cenário onde críticas ao STF mobilizam parcela significativa do eleitorado, essa disposição de Zema em não se intimidar ante pressões institucionais reforça sua viabilidade como vice capaz de fazer valer suas posições dentro de um eventual governo Flávio.
A Análise de Beatriz Fonseca
Preciso ser direta: essa notícia expõe uma das contradições mais perturbadoras da política brasileira contemporânea. Transformamos confrontos legítimos com instituições em moeda de troca eleitoral, e isso deveria nos preocupar profundamente.
Comecemos pelo óbvio: Romeu Zema é um político competente. Sua gestão em Minas Gerais apresenta resultados concretos em arrecadação, endividamento controlado e execução de projetos. Essas são qualidades reais que justificariam sua entrada em qualquer chapa presidencial. Mas não é por isso que seus aliados dizem que ele "ganhou cacife". Ganha cacife por confrontar o STF. Essa é a mensagem.
O problema não está em questionar decisões judiciais — isso é direito democrático. O problema está em transformar a disposição de confrontar o Judiciário em atributo eleitoral premium. Quando isso acontece, deixamos de discutir se a crítica é justa ou fundamentada e passamos a valorizar apenas a coragem de fazer a crítica. É a política do gesto, não da substância.
Vivemos um momento em que desconfiar de instituições virou plataforma política vencedora. O STF certamente comete excessos — a literatura jurídica internacional é farta em críticas ao ativismo de nossas cortes. Mas quando um candidato a vice ganha pontos exclusivamente por enfrentar essa instituição, estamos sinalizando que o importante não é reformar o sistema judiciário, é desafiá-lo performaticamente.
"Transformamos a disposição de confrontar o Judiciário em moeda de troca eleitoral, e esse é o caminho mais curto para erosão democrática disfarçada de rebeldia política."
Há ainda outro ângulo: essa interpretação dos aliados de Flávio revela cálculo excessivamente tático. Zema se posiciona contra decisões do STF porque acredita que elas prejudicam Minas Gerais ou porque discorda fundamentalmente delas? Ou o faz porque sabe que isso o tornaria mais atrativo eleitoralmente? A motivação importa. Uma coisa é liderança crítica e reflexiva; outra é populismo institucional.
Por fim, há risco real: construir uma chapa sob a plataforma de confronto com o Judiciário, em vez de sob programa substantivo claro, promete governabilidade turbulenta. Se Flávio vencer apoiado nessa narrativa, terá carta branca para pressionar a corte? Zema estará empoderado para tanto? Eis as perguntas que deveríamos estar fazendo, e não estamos.
A política brasileira merecia melhor que isso.
Se Zema é realmente o melhor vice possível, que nos digam por quê — pelos resultados que entrega, pelo projeto que representa, pela forma como completa a chapa ideologicamente. Que não nos digam apenas que ele é bom porque consegue irritar ministros. Democracia se edifica em bases mais sólidas do que confronto institucional performático.
A questão que fica: quando a coragem de desafiar instituições passa a ser mais importante que a capacidade de governá-las, que tipo de país estamos elegendo?Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.
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