Venezuela: o preço que ninguém sabe como pagar
Análise · Clara Verdi Há uma lógica perversa na aritmética das catástrofes: o número chega antes da capacidade de compreendê-lo.
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica perversa na aritmética das catástrofes: o número chega antes da capacidade de compreendê-lo. O PNUD estimou em US$ 6,7 bilhões os danos físicos diretos provocados pelos terremotos de 24 de junho no norte da Venezuela — cifra apurada via imagens de satélite, com margem que vai de US$ 4,7 bilhões a US$ 8,7 bilhões, dependendo do que ainda será descoberto sob os escombros. O próprio organismo admite que a estimativa não contempla todos os danos à infraestrutura nem o custo da reconstrução de longo prazo. Ou seja: o número é provisório, mas já é assustador.
Para entender a magnitude do que aconteceu, convém lembrar que a Venezuela chegou ao dia 24 de junho já exausta. Os hospitais que atenderam os feridos trabalhavam no limite antes dos abalos. As estradas que partiram ao meio em La Guaira já não eram exatamente exemplo de manutenção. O Estado que demorou a responder à emergência é o mesmo que, há anos, assiste à diáspora de médicos, engenheiros e técnicos de infraestrutura sem conseguir — ou querer — revertê-la. O terremoto não criou a fragilidade venezuelana; revelou sua profundidade com a brutalidade que só a natureza permite.
Agora vem a pergunta que os números forçam: de onde virá o dinheiro? Os valores anunciados até agora — pelo governo venezuelano, por países e por organismos multilaterais — estão, segundo especialistas, muito abaixo do necessário. Essa distância entre o prometido e o necessário não é anomalia; é a regra em reconstruções pós-desastre em países que chegam à catástrofe já endividados politicamente com o mundo. O Haiti de 2010 é o espelho que ninguém quer encarar.
O PNUD lembrou que o impacto total de catástrofes desse tipo costuma variar entre 1,5 e três vezes os danos físicos diretos estimados inicialmente. Isso significa que o custo real pode ultrapassar US$ 20 bilhões — um país inteiro valendo menos do que a própria destruição.
A questão política é inseparável da econômica. Reconstruir exige confiança: que os recursos cheguem a quem precisa, que os contratos não sirvam apenas para reciclar dinheiro entre aliados do regime, que a ajuda internacional não se converta em moeda de barganha diplomática. Nenhuma dessas condições está garantida. As críticas à demora na resposta do governo já ecoam — e sugerem que o reflexo institucional diante da emergência foi, no mínimo, lento. O que vem depois da emergência tende a ser ainda mais opaco.
Caracas, La Guaira, Carabobo, Miranda, Yaracuy, Aragua: a lista de estados afetados abrange o coração urbano e econômico do país. Reconstruir essa geografia não é tarefa de um mandato, nem de uma geração favorável. É um projeto de décadas — e décadas de projetos não costumam sobreviver a regimes que não admitem fracasso público. O número do PNUD, por mais que vá mudar, já diz o essencial: o buraco é maior do que a pá disponível. O resto é política.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: PNUD estima em US$ 6,7 bi danos dos terremotos na Venezuela
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil