Venezuela, 3.811 mortos: o silêncio que também mata
Análise · Clara Verdi Há uma proporção que merece ser dita com clareza antes de qualquer outra coisa: 3.811 mortos, 16.740 feridos, 17.907…
Análise · Clara Verdi
Há uma proporção que merece ser dita com clareza antes de qualquer outra coisa: 3.811 mortos, 16.740 feridos, 17.907 desabrigados — e a ONU estimando 50.000 desaparecidos. Isso não é uma tragédia regional. É uma das maiores catástrofes do hemisfério ocidental em décadas. O fato de ela estar ocorrendo na Venezuela é, precisamente, o motivo pelo qual o mundo a processa com um distanciamento que beira a indiferença.
A Venezuela chegou ao terremoto já exausta. Quinze anos de colapso econômico, êxodo de sete milhões de pessoas, infraestrutura que o próprio chavismo foi incapaz de manter — tudo isso antecede os tremores de junho e determina o que acontece depois deles. Quando 189 prédios desabam, não é só a força da geologia que age. É também a força da negligência acumulada. Moradores de La Guaira buscando sobreviventes sem equipamento de segurança não é cena de improvisação heróica; é cena de um Estado que, mesmo diante do desastre, chega tarde e chega pouco.
A ONU estima danos materiais de 6,7 bilhões de dólares — o equivalente a 6% do PIB venezuelano. Esse número diz mais sobre a fragilidade estrutural do país do que sobre a magnitude física do abalo. Uma economia que funciona produz resiliência, reservas, capacidade de resposta. A Venezuela não tem nenhuma das três em escala suficiente. O terremoto não criou a crise; expôs, com brutalidade irrecusável, a que ponto ela chegou.
Nesse contexto, a resposta institucional do governo de Nicolás Maduro — ou do governo de Delcy Rodríguez, dada a ambiguidade do comando político atual — revela tanto pelo que faz quanto pelo que escolhe como arquitetura de poder. O Estado-Maior de resposta à tragédia é liderado por Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina. A Comissão Presidencial de Habitabilidade foi criada com participação de engenheiros das Forças Armadas. O sistema de "semáforo" para classificar risco de imóveis pode ser tecnicamente razoável; o que chama atenção é que, mesmo no desastre, a cadeia de mando passa pelos mesmos nomes, pelas mesmas estruturas. A emergência, no bolivarismo, é também ocasião de consolidação.
A ajuda internacional existe — uma equipe espanhola retirou um sobrevivente com vida mais de 72 horas após o colapso de um edifício em La Guaira — mas sua escala e sua visibilidade são inversamente proporcionais à dimensão do que se vive. Parte disso é logística. Parte é política: a Venezuela de Maduro é um estado pária em boa parte do Ocidente, e isso complica o fluxo de auxílio sem que ninguém precise dizê-lo abertamente.
O que se perde nesse silêncio calculado não é abstrato. São as 17.907 pessoas desalojadas que aguardam acampamentos transitórios prometidos por um governo que, mesmo antes do terremoto, devia moradias a uma geração inteira. São os 50.000 desaparecidos estimados pela ONU — número que, se confirmado, reposicionaria essa tragédia na memória coletiva global com uma força que, até agora, não está recebendo. A distância geográfica não explica o silêncio. A distância política, sim.
Clara Verdi é correspondente da Xaplin na Europa e doutora em Ciência Política pela Sciences Po.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela registra 3.811 mortos após terremotos em junho
Fontes: g1 · CNN Brasil · UOL