SUS e medicamentos emagrecedores

A discussão sobre a incorporação de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, ao Sistema Único de Saúde ganhou…

Banca de Jornal — Saúde & Bem-estar

O Fato

A discussão sobre a incorporação de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, ao Sistema Único de Saúde ganhou novo impulso após matéria publicada pela Folha em 17 de abril de 2026. A questão central não é se esses fármacos funcionam — a evidência científica é inequívoca quanto à sua eficácia na redução de peso — mas se o SUS, com orçamento finito e demandas crescentes, deve incorporá-los como política pública de saúde.

Os números são estarrecedores. Segundo dados do Ministério da Saúde, aproximadamente 60% da população brasileira está acima do peso, enquanto 27% apresenta obesidade clínica. Paralelamente, o Brasil enfrenta epidemia de diabetes tipo 2, com mais de 11 milhões de casos diagnosticados. A semaglutida e a liraglutida mostram resultados impressionantes: perda de peso de 15% a 22% do peso corporal em um ano, além de benefícios cardiovasculares secundários comprovados em ensaios clínicos randomizados.

Contudo, o custo mensal desses medicamentos gira em torno de R$ 800 a R$ 1.200 por paciente — valor que, multiplicado pela população elegível, representaria desembolso anual de bilhões de reais. Para contextualizar: o orçamento total anual do SUS é aproximadamente R$ 250 bilhões, já comprometido com custeio de hospitais, medicamentos oncológicos, insulina, antibióticos e dezenas de outras prioridades. A incorporação desses agentes sem critérios rigorosos criaria pressão insustentável nas contas públicas.

A Folha destacou corretamente que essa não é uma decisão meramente clínica, mas uma questão de arquitetura sistêmica: como alocar recursos escassos para maximizar valor em saúde? Qual intervenção oferece melhor custo-benefício? Devemos investir em canetas emagrecedoras para alguns milhões de brasileiros ou em ampliação de UTIs, tratamento de câncer e acesso universal a medicamentos para doenças infecciosas? A resposta não é óbvia quando vivemos sob restrição orçamentária real.

A Análise de Dra. Camila Torres

Como médica e colunista de saúde pública há mais de uma década, preciso ser brutalmente honesta: o entusiasmo com essas medicações é compreensível, mas perigosamente ingênuo quando aplicado ao SUS sem reflexão crítica. Observo, com certa melancolia profissional, como a indústria farmacêutica consegue, sistematicamente, deslocar a conversa de "necessidade" para "desejo" — e depois nos cobra por isso.

A semaglutida e a liraglutida são excelentes fármacos. Funcionam. Melhoram vidas. Mas essa realidade não nos autoriza a ignorar o custo de oportunidade. Cada real gasto em medicamentos emagrecedores é um real não gasto em quimioterapia, em antibióticos de última geração, em leitos de UTI neonatal, em programas de prevenção comunitária. Vivemos numa sociedade onde 40 milhões de brasileiros ainda não têm acesso adequado a água potável. Nesse contexto, debater "canetas emagrecedoras" para o SUS é luxo que não podemos pagar.

O que me preocupa particularmente é a mensagem que uma incorporação apressada enviaria: a de que o SUS resolve problemas que são fundamentalmente comportamentais e sociais com farmacologia. A obesidade não é apenas uma doença — é uma síndrome complexa enraizada em padrões alimentares, sedentarismo, insegurança alimentar, estresse e desigualdade social. Nenhuma caneta emagrecedora vai resolver a venda de ultraprocessados em comunidades vulneráveis. Nenhuma injeção mensal vai trazer ciclovias e academias populares aos bairros periféricos.

Sou favorável, contudo, a pilotos controlados. A incorporação seletiva para pacientes com obesidade grave (IMC >40 kg/m²) associada a comorbidades como diabetes descompensado ou doença cardiovascular estabelecida poderia ser justificada por análise rigorosa de custo-efetividade. Nessa população, esses medicamentos podem ser verdadeiramente transformadores e compensatórios em termos de redução de internações e complicações.

"Inovação não é sinônimo de incorporação universal. Responsabilidade fiscal é também responsabilidade sanitária. Dizer 'não' ao SUS fornecedor de canetas emagrecedoras é dizer 'sim' a outras prioridades que salvam vidas."

A questão que o Brasil precisa responder não é "por que não incorporar?" mas "por que sim, quando tantas outras necessidades não foram atendidas?" Essa é a pergunta incômoda, a que exige coragem política.

Que tipo de SUS queremos: um que resolve tudo para alguns, ou um que resolve o essencial para todos?

Dra. Camila Torres — Saúde & Bem-estar. Banca de Jornal, Xaplin.

Ao vivo
--:--
Carregando manchetes…
Mercados
🇺🇸 DólarR$ 4.990.1%🇪🇺 EuroR$ 5.890.2%🇬🇧 LibraR$ 6.770.0%🇯🇵 IeneR$ 0.030.1%
BTCR$ 373k0.3%ETHR$ 12k1.0%BNBR$ 3k0.7%SOLR$ 423.991.5%XRPR$ 6.992.9%