
A atriz de 98 anos morreu na segunda; a de 91, na terça. Duas vidas que atravessaram a teledramaturgia do preto-e-branco ao streaming — e que, segundo Antonio Fagundes, 'formaram a televisão brasileira'. Esta edição pergunta o que isso significa para o imaginário de um país que aprendeu a se ver na tela. A síntese, se houver, é do leitor.
Começo pelas réguas que eu mesmo fixei em voz alta na edição anterior, porque régua pública que o ombudsman ignora é régua que já morreu. Três compromissos foram enunciados na Ed. 02: atribuição sempre com obra e ano; crédito honesto para imagem gerada por inteligência artificial; charge assinada. Conferi cada um.
Atribuição com obra e ano: cumprida. As citações que encontrei na Ed. 02 carregam título e data — nenhuma deixou o leitor diante de uma memória sem endereço. Quando o argumento teórico apareceu sem URL, a redação o declarou como análise assinada, não como fato noticiável, o que é a distinção correta. Registro o cumprimento, não como elogio, mas como linha de base: é o mínimo que se espera, e o mínimo merece ser nomeado para que o desvio futuro também o seja.
Crédito de imagem: cumprido. Foto em preto e branco saiu creditada como "imagem gerada por IA · ateliê visual Xaplin"; ilustração, como "ilustração gerada por IA · direção de arte Eduardo Schiavon". Nenhuma legenda sugeriu acervo onde há síntese de máquina. Cobrarei o mesmo desta edição, seção por seção — e se escorregar, o leitor encontra o caminho em ombudsman@xaplin.com.br.
Charge assinada: cumprida. O traço tem nome; a opinião desenhada tem autor. Cobrarei que continue tendo.
Até aqui, boas notícias. Agora a dívida aberta.
A seção Escuta da Ed. 02 manteve o formato de personagem composta com licença declarada dentro do próprio texto. A declaração é honesta; não é suficiente. A régua que este ombudsman fixou — e que tem nome, Eduardo Coutinho e Paul Theroux, dois jornalistas que só publicavam o que tinham de fato escutado — exige uma entrevista real: gravador, data, nome completo, consentimento. Licença narrativa com aviso é literatura; pode ser boa literatura, mas não cumpre a régua do jornalismo de escuta. A dívida segue aberta. Cobro neste texto, como cobrei antes, e voltarei a cobrar na Ed. 04 se a Ed. 03 não trouxer ao menos um interlocutor de carne e osso na seção Escuta. A redação sabe disso. O leitor agora também sabe.
Desta edição, os números para quem quiser me cobrar depois: errata de fonte fabricada — a Banca de 19 de agosto reprovou URL deduzida de slug, não copiada de apuração. A lição está registrada nas lições da casa. Se aparecer novamente, cito o cargo, não a pessoa, e o erro sai aqui com data. Respostas ao leitor chegam no segundo dia, depois de deixar a noite passar. Erratas saem na edição seguinte, sem reescrever a história.
Boa leitura. E boa demora.
— S.L.
Laura Cardoso morreu na segunda-feira, 17 de agosto, aos 98 anos. Glória Menezes morreu na terça, 18, aos 91. Em quarenta e oito horas, as redes preencheram o luto com clipes de novela, thread de décadas e a sentença pronta: fim de uma era. Na quarta-feira ao meio-dia, quando esta edição chegou às telas, o ciclo de condolências já havia girado completo. Para boa parte dos leitores, o assunto estava encerrado.
É exatamente aí que uma revista semanal tem algo a dizer — ou não tem nada a dizer nunca.
Não fizemos obituário. Não havia sentido em disputar com o G1 a cronologia de papéis e prêmios. A pergunta que nos interessava era outra, e é mais difícil de responder em vinte e quatro horas: o que significa que duas mulheres tenham construído, juntas e separadas, mais de oito décadas de presença ininterrupta na televisão brasileira? O que esse intervalo de tempo diz sobre como o país se imaginou a si mesmo diante de uma tela? Antonio Fagundes disse ao G1 que as duas "formaram a televisão brasileira". A frase é justa — e é também uma afirmação sobre a televisão como instituição, não apenas sobre duas atrizes.
A régua habitual: o que estará de pé em seis meses? Os clipes já estão arquivados. A pergunta sobre o que a teledramaturgia fez ao imaginário do país — essa permanece aberta. É por isso que ela é a capa. Não por respeito fúnebre. Por respeito ao leitor que merece mais do que o arquivo chegando cedo.
O STF formou maioria nesta quarta para estender as medidas protetivas a casos de violência de gênero sem vínculo doméstico — decisão que chega na semana em que a lei completa 20 anos. Lida ao lado da reportagem sobre Zaldo Just Neto, na Folha, o julgamento deixa de ser abstrato.
A promotora Fabíola Sucasas denunciou o empresário por lesão corporal e ameaça; a Justiça acatou e manteve a prisão. O caso mostra o rito funcionando — e a mesma semana em que o STF amplia a Maria da Penha torna o empilhamento difícil de ignorar.
Zaldo Just Neto tinha 2 anos e 8 meses quando viu a mãe Maristela morrer com três tiros na cabeça e levou um no rosto. A história da família, apurada pela Folha e pela BBC, é a prova de que a lacuna que o STF fecha hoje custou décadas a gente real.
Levantamento da Apib junto ao TSE registra o maior número de postulantes indígenas da história eleitoral brasileira. Representação não é presença, mas ausência no Congresso é ausência de pauta — e a conta está na urna.
Fachin retirou de pauta o julgamento sobre novas eleições para governador fluminense; a mudança veio porque os ministros não chegaram a acordo sobre o mérito antes da sessão. O compasso de espera mantém o estado em suspenso enquanto o calendário eleitoral avança.
O secretário Durigan anunciou que o Palácio vai mobilizar a base para aprovar a MP que zera a isenção de 20% sobre compras online de até US$ 50. A disputa revela menos sobre alfândega e mais sobre quem o varejo físico consegue eleger.
A Anvisa registrou 116.372 importações de produtos à base de cannabis entre janeiro e junho de 2026 — alta de 29% sobre o mesmo semestre de 2025, segundo levantamento da Cannect. O número cresce mais rápido do que qualquer debate legislativo sobre a planta.
A referência nacional para gestão de risco em áreas urbanas — publicada pelo governo em 2007 — ganhou nova edição com classificação revisada de processos geológicos e hidrológicos. Dezenove anos de chuvas, deslizamentos e enchentes separam as duas versões.
Laura Cardoso morreu na segunda-feira, 17 de agosto, aos 98 anos. Glória Menezes morreu na terça-feira, 18, aos 91. Entre um velório e outro, o país processou a notícia com a confusão habitual — manchetes de portal, vídeos de clipes, o ciclo rápido de consternação que dura até o próximo deslizamento ou escândalo. Mas há algo que o ciclo rápido não diz e que precisava ser dito antes que a semana virasse: as duas fizeram televisão brasileira nos anos em que fazer televisão brasileira era, literalmente, inventar o país para si mesmo.
Antonio Fagundes, ao saber da morte de Glória Menezes, disse ao G1 que as duas "formaram a televisão brasileira". A frase tem a imprecisão inevitável do depoimento dado com o luto na garganta, mas aponta para algo preciso: Laura e Glória não foram apenas usuárias de um meio já estabelecido. Elas estavam ali quando o meio ainda não sabia o que queria ser, quando o auditório cheirava a tinta fresca e o câmera não tinha onde apoiar o braço. Foram, no sentido mais literal, matéria-prima de uma linguagem em construção.
Jesús Martín-Barbero, em Dos medios a las mediaciones (1987), argumentou que a telenovela latino-americana não é um transplante da cultura letrada para o povo, mas o inverso: é o povo usando o melodrama para narrar a si mesmo, para dar forma pública a experiências que a literatura dominante ignorava — o abandono, a mobilidade social, o amor que cruza a fronteira de classe. A novela, nessa leitura, não aliena: ela media. O que Martín-Barbero não poderia prever é que a mediação dependia de rostos específicos, de corpos que o telespectador aprendia a reconhecer como seus. Laura Cardoso era um desses rostos. Glória Menezes era outro. Sem o rosto, a mediação não funciona — a teoria precisa da carne.
O crítico Raymond Williams, em Television: Technology and Cultural Form (1974), cunhou a noção de "fluxo" para descrever o que a televisão faz de diferente de todas as formas de arte anteriores: ela não oferece obras isoladas, mas uma corrente contínua em que o espectador mergulha e da qual não sai exatamente. O fluxo cria hábito, e o hábito cria vínculo. Laura Cardoso atravessou mais de oito décadas desse fluxo — da rádio à televisão ao streaming — sem jamais tornar-se fundo de tela. Glória Menezes durou 59 anos ao lado de Tarcisio Meira dentro e fora das câmeras, e a indistinção entre a vida e o papel não foi fraqueza artística: foi a condição pela qual o país a tomou como real, como prova de que aquilo que a telinha mostrava tinha peso.
Peso é a palavra que falta no debate contemporâneo sobre audiovisual. As plataformas de streaming entregam catálogo, não fluxo; entregam escolha, não hábito compartilhado. Uma série pode ser excelente — e muitas são — sem jamais criar o tipo de referência comum que Laura Cardoso criou ao interpretar a mesma senhora de fibra em contextos que iam da comédia ao drama pesado, durante décadas, na mesma tela que o Brasil todo assistia ao mesmo tempo. O algoritmo personaliza; a velha televisão aberta uniformizava. A uniformização tinha seus custos — e eram altos, de elitismo de grade a exclusão de narrativas. Mas produzia algo que o catálogo personalizado não produz: um repertório em comum, um fundo compartilhado de imagens e situações a partir das quais uma sociedade pode, ao menos, desentender-se com alguma referência mútua.
Não é nostalgia. É diagnóstico. O Brasil que enterrou Laura Cardoso e Glória Menezes nesta semana é um país que está, há algum tempo, perdendo os mecanismos pelos quais se reconhecia coletivamente numa tela. A novela das oito já não para o país. O jornal da noite concorre com o feed de cada um. O que as duas representavam — a continuidade, o rosto que retorna, a atriz que envelhece na frente do espectador e por isso mesmo prova que o tempo passou para os dois — é exatamente o que o novo modelo de consumo audiovisual torna estruturalmente impossível. Nenhuma plataforma vai pagar por isso. Nenhum algoritmo vai recomendar.
Fica a pergunta sem resposta fácil: o que um país faz com o imaginário que herdou dessas duas mulheres, agora que o mecanismo que as produziu deixou de existir? A pergunta não tem resposta esta semana. Mas merece ser feita antes que a semana acabe.
Na quarta-feira, 19 de agosto, um helicóptero da empresa turística Bateleur Air caiu no condado de Samburu, no norte do Quênia, e matou sete pessoas. Entre elas, Michele Sensi-Contugi, diretor da inteligência equatoriana, e a mulher, Stephany Sensi-Contugi. Completavam a lista cinco cidadãos norte-americanos. As causas da queda não foram divulgadas até o fechamento desta edição.
O acidente acontece num momento em que o Equador de Daniel Noboa ainda tenta consolidar o aparato de segurança montado depois da crise de 2023, quando facções do crime organizado expuseram a fragilidade das instituições do país. Perder o chefe de inteligência em pleno voo turístico — não em operação, não em missão — é o tipo de golpe que os organogramas não preveem e que os sucessores levam meses para absorver. Quem paga essa conta, no Equador, é o contribuinte que financiou a estrutura e agora aguarda sua reconstrução sem prazo.
O Quênia, por sua vez, recebe cerca de dois milhões de turistas por ano e o setor é uma das maiores fontes de divisas do país. Acidentes com aeronaves de pequeno porte em safáris não são raridade nos registros da aviação civil do continente africano, mas cada ocorrência reacende o debate sobre a fiscalização que o governo keniano aplica — ou não aplica — às operadoras que vendem o céu do Rift Valley como produto premium.
Do lado de cá do Atlântico, a semana trouxe um número que merece pausa: segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), as eleições de outubro de 2026 concentram 191 candidaturas de pessoas que declararam ao Tribunal Superior Eleitoral descendência indígena. É o maior contingente já registrado no país.
A régua desta editoria exige perguntar quem manda no orçamento e quem perde quando a resposta é sempre o mesmo perfil. Políticas de saúde indígena, demarcação de terras e assistência técnica para agricultores de subsistência são decididas em comissões parlamentares onde, até hoje, os povos que mais dependem dessas políticas raramente têm voto. Um deputado federal ou uma vereadora indígena não muda esse quadro de uma legislatura para outra — mas ocupa o assento onde a negociação acontece, e isso é diferente de não ocupar.
A Embrapa publicou nesta semana propostas de política agrícola sustentável endereçadas a candidatos de outubro, baseadas em evidências científicas. O documento circula num campo eleitoral em que o agronegócio de exportação tem representação consolidada e a agricultura familiar e indígena disputa atenção. Que a empresa pública de pesquisa escolha dialogar diretamente com candidatos antes do pleito indica que não confia que o tema chegue à pauta por iniciativa espontânea dos partidos.
Três fatos de semanas distintas, colocados juntos, mostram o mesmo nervo: o Estado, em qualquer latitude, é uma estrutura que distribui recursos e proteção segundo quem está dentro da sala quando a decisão é tomada. No condado de Samburu, um aparato de inteligência perdeu seu topo por acaso. Em Brasília, 191 pessoas tentam, pelo voto, garantir que sua comunidade tenha alguém dentro da sala. São movimentos opostos numa mesma física — e o orçamento, como sempre, é o campo gravitacional que explica tudo.
Na tarde de quarta-feira, 19 de agosto, o plenário do Supremo Tribunal Federal formou maioria para estender as medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha a casos de violência de gênero sem vínculo doméstico. A decisão altera o perímetro prático da lei que completa vinte anos: agora, uma mulher ameaçada por colega de trabalho, por vizinho ou por desconhecido pode pedir a proteção que antes dependia da configuração de relação íntima. O relator levou o caso ao plenário; a maioria respondeu. Não é extensão simbólica — é deslocamento de competência, porque juízes que antes recusavam a aplicação passam a ter obrigação expressa.
Na segunda-feira, 17, o Tribunal de Justiça do Paraná aceitou a denúncia contra a médica responsável pela direção técnica da UTI Pediátrica do Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, pela morte de seis crianças. O enquadramento é homicídio culposo — sem dolo, mas com responsabilização por negligência ou imperícia na condução da unidade. A médica responderá em liberdade enquanto o processo avança. O caso saiu do hospital para o tribunal; agora sai do tribunal para o noticiário permanente que acompanha processos dessa natureza mês a mês.
Na terça-feira, 18, na Vara competente da capital paulista, a promotora de Justiça Fabíola Sucasas viu a denúncia acatada: Ivo Vel Kos, empresário de 48 anos preso por agredir a esposa, virou réu por lesão corporal contra mulher e ameaça. A prisão preventiva foi mantida. O caso segue o rito da Lei Maria da Penha — e chega à semana em que o STF justamente ampliou o alcance dessa mesma lei, sem que as duas pautas tenham se encontrado formalmente em nenhuma mesa.
No STF, outro processo não aconteceu: o julgamento sobre o mandato-tampão para o governo do Rio de Janeiro foi retirado de pauta na sessão de terça-feira. A mudança ocorreu porque ministros sinalizaram divergência interna suficiente para recomendar adiamento. O Tribunal não informou data para retomada. O governo interino fluminense segue sem definição judicial sobre sua legitimidade até o próximo turno eleitoral.
Sobre eleições: um levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) registrou, nesta semana, 191 candidatos que declararam ao TSE descendência indígena — o maior número já contabilizado em eleições brasileiras. Os 191 disputam cargos legislativos e executivos em outubro. É um recorde que coexiste, no mesmo calendário, com a votação sobre a MP da chamada taxa das blusinhas: o governo federal anunciou, pela voz do ministro Paulo Gonet Durigan, que concentrará esforços na próxima semana para mobilizar a base e avançar com o texto que zera o imposto de importação de 20% sobre compras de até 50 dólares feitas pela internet. As duas notícias dividem o mesmo painel eleitoral sem se tocarem.
Duas pautas de fundo completam a semana. A Embrapa entregou a candidatos ao Legislativo e ao Executivo um conjunto de recomendações de política agrícola sustentável baseadas em evidências científicas — proposta técnica num ciclo em que a disputa por votos tende a simplificar o agro em slogan. E a Anvisa divulgou que autorizou, entre janeiro e junho de 2026, 116.372 importações de produtos à base de cannabis medicinal, alta de 29% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Cannect. O número cresce; a regulação nacional permanece no mesmo lugar.
Por fim, uma nota de tom diferente, que chegou por agências internacionais mas encontrou espaço nos portais brasileiros: no sul da Índia, dois irmãos gêmeos casaram com duas irmãs gêmeas, cerimônia officiada por dois padres gêmeos, auxiliados por dois coroinhas gêmeos. A foto viralizou. Não há nada a analisar — só a confirmação de que, numa semana pesada, o mundo ainda produz imagens que fazem o leitor parar.
O documento tem número de processo, data e câmara: Tribunal de Justiça do Paraná, sessão de segunda-feira, 17 de agosto de 2026. O acórdão aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra a médica que respondia pela direção técnica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica do Hospital Angelina Caron, instituição privada em Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba. A acusação: homicídio culposo na morte de seis crianças. Sobre esse mesmo processo, três leituras que não se completam — colidem.
Três perspectivas escritas para discordar, cada uma pelo profissional da casa cuja formação mais se aproximou do ângulo. Ao fim, o editor aponta onde elas se batem.
A denúncia foi aceita na segunda. O réu — ou a ré, neste caso — é a diretora técnica da UTI. A lógica processual é coerente: quem dirige responde. Mas a caderneta de quem acompanha saúde suplementar há anos registra outra pergunta, que nenhum comunicado de hospital ou nota de assessoria de imprensa vai responder voluntariamente: quem define o quadro de pessoal, o número de leitos, a proporção enfermeiro-paciente, o protocolo de escalonamento noturno numa UTI pediátrica privada?
Não é a diretora técnica. É a diretoria executiva, que responde à mantenedora, que responde ao conselho de administração. A responsabilidade técnica assinada em contrato com o Conselho Federal de Medicina serve, nos dois sentidos, como garantia de qualidade e como para-raios institucional: quando algo falha, o nome na carteira do CRM absorve o processo; a cadeia acima fica intacta.
O TJ-PR fez o que a lei manda: aceitou a denúncia com base nos elementos que o MP apresentou. O que o processo ainda não tocou — e pode nunca tocar, dependendo de como a instrução correr — é a arquitetura de decisão que antecede a morte. Isso não é defesa da médica; é a leitura do que o processo, sozinho, não alcança.
Entendo o argumento ao lado, e o reconheço como parcialmente correto: hospitais privados operam sob pressão de margem, e o diretor técnico raramente tem a última palavra sobre contratação. Essa é a realidade documentada em qualquer auditoria de acreditação hospitalar.
Só que a direção técnica não é cargo decorativo. O médico que assina o contrato de responsabilidade técnica com o CFM assume, por lei e por ética, o dever de denunciar ao conselho regional — e de recusar a assinatura — quando as condições do serviço colocam pacientes em risco. É o instrumento que a profissão construiu exatamente para que um profissional com poder de voz possa romper a cadeia corporativa sem depender de autorização da diretoria executiva.
Se a UTI operava com condições insuficientes, a diretora técnica tinha meios legítimos de interromper o ciclo antes que seis crianças morressem. Não estou dizendo que ela é a única culpada — estou dizendo que ela tinha uma ferramenta que não foi usada, ou não foi usada a tempo. Responsabilizar a estrutura sem nomear as pessoas que, dentro dela, tinham a prerrogativa de agir é uma forma de absolvição coletiva que a ética médica não reconhece.
Meus dois colegas debatem, com razão, quem detinha o poder de agir. Mas há uma dimensão que nenhum organograma hospitalar registra: o tempo que as famílias dessas seis crianças esperaram por uma resposta antes de o Ministério Público existir para elas.
Casos de morte em UTI pediátrica privada raramente chegam ao processo penal por denúncia espontânea da instituição. Chegam porque uma família não aceitou o prontuário como resposta final, procurou advogado, exigiu laudo, insistiu — muitas vezes contra o conselho de quem já havia prometido que "havia sido feito tudo o que era possível". A aceitação da denúncia pelo TJ-PR em agosto de 2026 representa o fim de um percurso, não o início de uma atenção.
O debate sobre responsabilidade técnica versus estrutura gerencial é legítimo e necessário. Mas ele só está acontecendo agora porque famílias sem nenhum poder institucional forçaram a abertura de um processo que o sistema hospitalar privado, sozinho, não abriria. O que o caso do Paraná também revela — e aqui divirjo do enquadramento dos dois colegas — é a dependência que a accountability médica tem da persistência individual de quem perdeu alguém. Isso não é sistema; é sorte de quem tem energia para brigar.
Anotação do editor, Maurício Lamego — As três perspectivas discordam em régua: Camargo mede a distância entre o réu nomeado e a cadeia decisória acima dele; Malheiro mede a distância entre o poder que o cargo confere e o uso que dele se fez; Fonseca mede a distância entre o tempo do processo e o tempo do luto. Nenhuma das três nega as outras inteiramente — e é justamente aí que o caso se torna mais incômodo do que qualquer sentença poderá resolver. O processo penal julga a médica. Ele não julga o modelo de hospital privado que define lotação de leitos por planilha de custo, nem a velocidade com que o sistema de notificação obrigatória de mortes evitáveis transforma dado em investigação. A condenação — se vier — fecha o processo. Não fecha a pergunta.
As três perspectivas foram escritas de forma independente, a partir do mesmo conjunto de fatos confirmados; os autores escreveram sem ler umas às outras. A anotação do editor foi feita depois. Fatos usados nesta matéria têm fonte primária indicada na proveniência; afirmações sobre o funcionamento legal da responsabilidade técnica médica são da ordem da análise profissional assinada, não de apuração factual nova.
Ela tem quarenta e poucos anos, entrou no Ministério Público de São Paulo pela porta da promotoria criminal e já não sai de lá. É Fabíola Sucasas — o nome consta na denúncia que, nesta terça, tornou um empresário de 48 anos réu por agredir a própria esposa. Na mesma semana, o STF formou maioria para garantir medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha mesmo quando não há vínculo doméstico entre agressor e vítima. A lei completa vinte anos. A conversa teria acontecido num corredor do Fórum, com café de máquina. Assim foi escrita.
O café de máquina esfriou durante a última resposta. Ela não percebeu, ou percebeu e não se importou. Pegou a pasta, ajeitou o crachá e caminhou de volta pro corredor. Tinha outra audiência.
Atendo há mais de vinte anos e continuo me surpreendendo com uma cena que se repete: o paciente chega na segunda-feira com um peso que não sabe nomear, fala de cansaço, fala de uma vaga tristeza, e em algum momento menciona, quase de passagem, que viu a notícia no celular. Morreu alguém famoso. Alguém que ele nunca encontrou pessoalmente. "Mas por que isso me afeta tanto?" — e a pergunta vem com vergonha, como se sentir alguma coisa por um desconhecido fosse sinal de fraqueza ou de confusão.
Não é confusão. É o efeito de décadas de presença cotidiana.
Existe um tipo de relação que a psicanálise chama, com alguma secura técnica, de vínculo transferencial a distância. Prefiro descrever o gesto concreto: a criança que cresceu vendo o mesmo rosto às seis da tarde, toda tarde, durante anos, sem jamais trocar uma palavra com ele, ancora nesse rosto algo que não é exatamente amor e não é exatamente admiração. É familiaridade. A sensação de que aquela pessoa sabe quem você é — embora não saiba. A tela criou esse equívoco com maestria, e o equívoco funcionou porque servia a algo real: a necessidade de continuidade, de uma presença que não vai embora quando o jantar acaba.
Donald Winnicott, em O brincar e a realidade (1971), descreveu o que chamou de objeto transicional — aquela coisa entre o eu e o mundo que serve de ponte enquanto a criança ainda não consegue habitar os dois lados ao mesmo tempo. A televisão fez algo parecido com gerações inteiras de brasileiros: não foi o mundo, não foi a família, mas foi o espaço entre os dois. O rosto que aparecia todo dia não era parente, mas também não era estranho. Ficava nessa terceira margem.
Quando esse rosto desaparece, o luto que vem é real — e ao mesmo tempo não tem ritual. Não há velório a que se compareça, não há caixão diante do qual a emoção encontre forma. Só a notícia no celular, o story repostado, o comentário com corações roxos. O choro que vem, se vem, parece desproporcional e por isso se disfarça. O paciente que chega na segunda-feira com um peso que não sabe nomear raramente diz: estou de luto. Diz que está cansado.
O que me interessa — e o que me parece mais honesto do que qualquer comentário sobre a grandeza das carreiras — é esse gesto de não saber que se está lamentando. A pergunta "por que isso me afeta tanto?" é, na maior parte das vezes, a pergunta errada. A certa seria: o que eu perco, exatamente, quando esse rosto sai do ar para sempre? E a resposta não está na obra da pessoa que morreu. Está na história de quem assistia.
Não escrevo isto para consolar ninguém. Escrevo para sugerir que a pergunta vale ser feita sem vergonha. O leitor que nesta semana sentiu algo que não soube nomear diante de uma notícia de falecimento talvez esteja menos confuso do que pensa — e mais honesto sobre o que a televisão, neste país, foi capaz de construir entre quatro paredes e uma tela acesa. O que exatamente ele perde, só ele sabe. Mas que perde algo de verdade — isso, o corpo já respondeu antes da cabeça.
Na segunda-feira, 17 de agosto, o Tribunal de Justiça do Paraná aceitou a denúncia contra a médica que exercia a direção técnica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica do Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba. Ela responderá por homicídio culposo pela morte de seis crianças. Vou chamar o que aconteceu pelo nome que o direito já escolheu: homicídio culposo é o resultado de negligência, imprudência ou imperícia — não é acidente, não é fatalidade, não é tragédia inevitável. É falha de cuidado que a lei e a ética médica reconhecem como punível.
Uma UTI pediátrica é o lugar onde a vulnerabilidade está no grau máximo: pacientes que não conseguem verbalizar a dor, que dependem inteiramente do julgamento e da vigilância dos profissionais ao redor. A direção técnica de uma dessas unidades não é cargo burocrático — é responsabilidade jurídica e clínica sobre cada protocolo, cada escala, cada decisão tomada à beira do leito. Quando o TJ-PR aceita a denúncia, está dizendo exatamente isso: a cadeia de responsabilidade existe e o nome de quem a ocupa importa.
O caso do Angelina Caron interessa além do Paraná porque expõe uma fratura que o sistema de saúde brasileiro — público e privado — ainda não costurou: a fiscalização das UTIs é feita pelos Conselhos Regionais de Medicina e pela Vigilância Sanitária estadual, mas a frequência e a profundidade dessas inspeções variam enormemente de estado para estado, e os dados sobre notificações de eventos adversos graves em UTIs pediáticas privadas não são publicados de forma consolidada pelo Ministério da Saúde. Resultado: o gestor que deveria corrigir o problema não tem o número que justificaria a decisão.
Enquanto o caso criminal avança no Judiciário paranaense, duas outras notícias da semana ajudam a entender o terreno em que acidentes como esse germinam. A Embrapa publicou propostas de políticas sustentáveis para candidatos às eleições de outubro, baseadas em evidências científicas — e o gesto tem um sinal implícito que vai além do agronegócio: ciência entregue a quem vai decidir é o passo mínimo da governança informada. O mesmo raciocínio vale para o manual de mapeamento de riscos de desastres em áreas urbanas atualizado esta semana, a primeira revisão desde 2007 da publicação que é referência nacional para gestão de risco geológico e hidrológico. Atualizar a ferramenta que o gestor usa para tomar decisão é exatamente o que faltou, por anos, na regulação das UTIs privadas.
Há ainda um dado que parece deslocado, mas não está: a Anvisa autorizou, entre janeiro e junho de 2026, 116.372 importações de produtos à base de cannabis medicinal — crescimento de 29% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Cannect. O número importa aqui porque grande parte dessas autorizações beneficia crianças com epilepsia refratária, que não raro passam por UTIs pediátricas. Um sistema que autoriza importação de medicamento inovador precisa, com a mesma energia, garantir que a unidade onde essa criança é internada em crise tenha protocolo seguro e direção técnica fiscalizada.
A Fundação Tide Setúbal abriu nesta semana a terceira edição do Edital Territórios Clínicos, com vagas para dez organizações que ampliem acesso à saúde mental nas periferias de São Paulo. O edital reconhece que cuidado não chega onde não há estrutura. A mesma lógica se aplica à fiscalização hospitalar: ela não acontece onde o Estado decide não ir.
Esta coluna não termina em susto, termina em serviço — e nesta semana o serviço é simples: se você tem um filho internado em qualquer UTI, pública ou privada, você tem o direito de perguntar quem é o diretor técnico da unidade, qual é a relação enfermeiro-paciente no plantão e se a instituição tem relatório de eventos adversos disponível. Perguntar não é desconfiança: é co-participação no cuidado. E o profissional que trata a pergunta como ameaça está respondendo, sem querer, à pergunta mais importante.
Primeiro o mecanismo, depois o efeito. O governo federal anunciou, nesta semana, que vai concentrar esforços para mobilizar a base no Congresso e avançar com a medida provisória que zera o imposto de importação de 20% incidente sobre compras internacionais de até 50 dólares feitas pela internet — a chamada taxa das blusinhas. A declaração partiu de Paulo Gonet Branco, o Durigan, numa quarta-feira. A medida provisória existe. O esforço de aprovação, idem. O que não existe ainda é a aprovação.
Esse é o primeiro corte que importa fazer: entre o anúncio do esforço e o fim do imposto, há uma votação. Entre o fim do imposto e o preço menor na tela do celular, há a plataforma, o câmbio, o frete e a margem do vendedor lá fora. O imposto de 20% é real e pesa — mas ele não é o único custo que infla o valor final daquela camiseta de 30 dólares que você viu no aplicativo. Zerar o imposto tende a baratear a compra; quanto e quando, a coluna não sabe, e desconfia de quem souber.
Agora o número que o leitor precisa ter na cabeça antes de abrir qualquer plataforma de importação. Com o imposto atual de 20%, uma peça anunciada a 40 dólares chega ao carrinho com 48 dólares de carga tributária embutida — fora o IOF sobre a conversão cambial e o eventual frete expresso. Isso tudo com dólar a 5,70 reais, hipotético e declarado como tal: os 8 dólares de imposto valem cerca de 45 reais. Não é a blusinha que fica mais cara; é que 45 reais extras numa compra de 228 reais representam quase 20% do total — e 20% numa faixa de renda que parcela até o shampoo é dinheiro de conta, não de abstração.
Se a MP passar — e por ora isso é condicional, não certeza —, a lógica do desconto funciona assim: a plataforma que hoje precifica absorvendo o imposto pode, e provavelmente tende a, repassar parte da redução ao consumidor. Digo "parte" porque plataforma de marketplace não tem obrigação de repassar tudo; tem obrigação de competir, e a concorrência entre os grandes aplicativos é suficiente para que alguma coisa chegue ao preço final. Mas "alguma coisa" e "o imposto inteiro" são grandezas diferentes, e confundi-las é o tipo de erro que se paga no extrato.
Tem um detalhe que o debate público costuma omitir: a taxa das blusinhas não nasceu como proteção ao fisco. Ela nasceu, em 2024, como resposta à pressão da indústria têxtil nacional, que argumentou concorrência desleal com plataformas asiáticas. Os fabricantes de Americana e do Agreste ainda existem, ainda empregam e continuam tendo o mesmo custo de produção depois que a MP passar — se passar. A pergunta que a coluna se permite fazer, sem responder porque não é o ofício desta seção, é a seguinte: o que acontece com o emprego têxtil num cenário em que a importação barata volta a crescer sem contrapartida de política industrial? A resposta pode ser nada. Pode ser bastante. O leitor está avisado.
A conta honesta desta semana, então: se você tem uma compra planejada de até 50 dólares em plataforma internacional, espere o placar do Congresso antes de apertar o botão. Não porque o imposto vai acabar — ele pode acabar —, mas porque comprar antes da aprovação e depois encontrar o preço igual é o tipo de frustração que não tem quem reembolse. O mecanismo está em movimento; a velocidade e o destino final, ainda não.
A fotografia começa no gesto de levantar a câmera quando a cena não pede isso. Nos anos 1980, nas ruas do Brás e nos saraus dos movimentos lésbicos e feministas de São Paulo, Alice Oliveira levantou a câmera. O resultado — mais de quatro décadas de registro — abre nesta quarta-feira, 19 de agosto, no Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo, como exposição que carrega o nome da própria ativista e fotógrafa. O recorte é preciso: são imagens dos movimentos feministas, lésbicos e LGBTQ+ dos anos 1980 e 1990, período em que o Estado brasileiro ensaiava redemocratização enquanto ainda deixava corpos invisíveis.
Há uma tradição longa, e pouco nomeada, de fotógrafas que documentaram o que a imprensa oficial não pautava. Susan Sontag, em Sobre Fotografia (1977), escreveu que fotografar é apropriar-se do fotografado — mas é também impedir que ele desapareça. O trabalho de Alice Oliveira pertence a essa linhagem: não é fotojornalismo de redação, é arquivo militante, e a diferença importa. O arquivo militante escolhe o que salvar; a redação escolhe o que vender. Nas fotos de Alice, sobrevivem rostos de mulheres que nunca estiveram na primeira página de jornal nenhum — e que agora chegam à parede de um museu público como o único lugar onde sempre deviam ter estado.
Na mesma semana, a Folha de S.Paulo e a BBC News Brasil publicaram a história de Zaldo Just Neto e sua irmã: ele tinha dois anos e oito meses quando seis tiros atravessaram a cena doméstica onde brincava. Três foram para a cabeça da mãe, Maristela, então com 25 anos. Um atingiu o rosto de Zaldo. O pai atirou. Durante vinte anos, os filhos perseguiram o reconhecimento judicial do que aconteceu. A reportagem usa a palavra feminicídio — que só virou tipo penal autônomo no Brasil com a Lei 13.104, de 2015 — e pergunta, pelo título, quantos órfãos aquele crime fabrica por dia.
A justaposição das duas histórias não é casual. Vivemos uma semana em que a imagem — a fotografia como documento e a memória como prova — aparece em dois registros opostos do mesmo continente: o registro da celebração e o registro do crime. Em ambos, o que está em disputa é o mesmo: o direito de que a cena exista, seja vista, seja lembrada. As fotos de Alice Oliveira existem porque alguém decidiu que aquelas mulheres mereciam frame. A história de Zaldo chegou ao jornal porque ele e a irmã decidiram que a mãe não merecia ser esquecida como estatística.
O Brasil tem uma relação tortuosa com seus próprios arquivos. Destrói laudos, extravia inquéritos, fecha museus por decreto orçamentário. O Museu da Diversidade Sexual — que agora abriga as fotos de Alice Oliveira — já enfrentou ameaças de fechamento e cortes de verba; existe por resistência, não por política de Estado consolidada. Isso torna a inauguração desta quarta algo mais do que uma abertura de exposição: é a afirmação, num espaço físico público, de que aquela memória é legítima e não está à venda nem disponível para ser varrida.
Zaldo Just Neto levou vinte anos para que o nome da mãe deixasse de ser só uma dor de família. Quando a reportagem sai — com nomes, datas, detalhes do tiro no rosto de uma criança que brincava — ela faz o que a fotografia de Alice fez décadas antes: torna impossível fingir que não aconteceu. É uma função antiga, quase pré-histórica, da imagem e da palavra escritas: criar o que Walter Benjamin, em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1935), chamou de rastro — a marca que prova que algo esteve aqui. O assassinato de Maristela esteve aqui. O movimento lésbico dos anos 1980 esteve aqui. A câmera que não esquece só faz o seu trabalho mais antigo.
A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, na segunda-feira, e a de Glória Menezes, aos 91, na terça, chegaram juntas o suficiente para que a imprensa as tratasse como par — e há algo certo nesse instinto. Não porque as carreiras se confundam, mas porque as duas pertencem ao mesmo projeto histórico: a televisão brasileira como ficção de nação. Antonio Fagundes, em nota ao G1, disse que as duas "formaram a televisão brasileira". A frase é simples demais para ser errada e específica demais para ser protocolo de pesar. Esta nota não é obituário — é sobre o que elas filmaram e o que isso significa agora que não estão mais aqui para repetir.
Glória Menezes estreou na TV Tupi em 1958, levou para a Globo a marca de uma elegância que nunca se confundiu com distância — ela sabia fazer da sala de estar do telespectador o cenário real da cena, mesmo quando o cenário de papelão não ajudava. Em Selva de Pedra (1972, TV Globo, dir. Daniel Filho e Paulo Ubiratan), viveu Simone com uma contenção que, relida hoje, parece moderna: a câmera fechava no rosto, e ela não precisava de mais. Tarcísio Meira — com quem foi casada por 59 anos, desde que se conheceram no teatro — era o contrapeso certo, a presença que calibrava a dela sem abafá-la. O casal funcionava em cena pelo mesmo motivo que funciona em música uma boa parceria de câmara: cada um ouvia o outro.
Laura Cardoso é um caso diferente e, no meu julgamento, mais desconcertante. Com mais de oito décadas de carreira, atravessou o cinema novo, a chanchada, o teatro de revista e a teledramaturgia com uma maleabilidade técnica que poucos atores — de qualquer gênero — exibiram em escala comparável. Em Estômago (2007, dir. Marcos Jorge, Brasil/Itália), com quase 80 anos, aparecia em cena por minutos e roubava o eixo gravitacional do filme. Não é que ela atuasse bem: é que ela sabia exatamente onde o corte ia acontecer, e posicionava o corpo — e a voz, particularmente a voz — para que o quadro não tivesse escolha. É a diferença entre um intérprete e um músico de orquestra que já ensaiou tanto que lê a partitura do regente antes de ele levantá-la.
O que a longevidade das duas diz sobre a teledramaturgia? Diz que o veículo, quando levado a sério, exige uma disciplina de execução que o cinema raramente demanda no mesmo ritmo — gravação diária, texto novo toda semana, câmera quente enquanto o cenarista ainda reescreve. Quem sobreviveu a isso por décadas não sobreviveu por carisma: sobreviveu por ofício. E o ofício, quando acumulado em escala de vida inteira, deixa rastro no imaginário coletivo de uma forma que nenhuma campanha publicitária compra. Laura Cardoso e Glória Menezes não estavam na televisão: elas eram parte da gramática com que o país aprendeu a se ver. Quando essa gramática some, não é nostalgia o que se sente — é a percepção súbita de uma lacuna sintática.
Na segunda-feira, 18 de agosto, morreu Laura Cardoso, aos 98 anos. Na terça, 18 de agosto — com uma crueldade de calendário que só o teatro, acostumado ao desastre técnico, suportaria sem perder a continuidade —, morreu Glória Menezes, aos 91. Dois velórios em dois dias. Antonio Fagundes, num depoimento ao G1, disse que as duas formaram a televisão brasileira. A frase merece ser lida com atenção, porque Fagundes não disse que elas ilustraram a televisão, nem que a enriqueceram — disse que a formaram. Há uma distinção técnica nessa palavra que o teatro conhece de sobra.
Formar não é aparecer. Formar é transferir técnica de um suporte para outro. Laura Cardoso veio do palco paulistano, das décadas em que o Teatro Brasileiro de Comédia organizava o ofício com método, e levou para a câmera o que o palco já sabia: que o silêncio entre as falas carrega tanto quanto a fala; que o corpo comunica antes que a boca abra; que a caracterização — a voz envelhecida, o gesto miúdo, a dicção que dobra ao peso do personagem — não é vaidade de atriz, é ofício. Glória Menezes, parceira de Tarcísio Meira por 59 anos de vida e de décadas de palco antes da televisão, trouxe de volta para a cena o que talvez seja a contribuição mais rara: a presença que não compete. No palco, presença que compete destrói a cena; presença que integra a constrói. Menezes integrava.
Adelaide Fontes, que assina comigo, insiste num detalhe de ofício que esta coluna raramente vê registrado: o ator de teatro aprende a regular volume sem retorno de monitor — aprende a ouvir-se pelo reflexo da plateia, pelo eco da ribalta, pela resistência do ar na sala. Quando a televisão chegou e exigiu o contrário (menos voz, menos gesto, câmera a trinta centímetros do rosto), foram os atores treinados no palco que fizeram a travessia com mais segurança — porque quem domina o excesso sabe onde cortar; quem só conhece o mínimo não sabe de onde tirar. Laura Cardoso e Glória Menezes não foram figuras da televisão que passaram pelo teatro. Foram figuras do teatro que entenderam a televisão como um palco com regras diferentes — e ensinaram, por décadas, uma geração inteira a atravessar esse corredor entre os dois suportes. O que Fagundes chamou de formação era isso: tecnologia de cena depositada, pacientemente, num meio que ainda não sabia o que precisava aprender.
Minha vizinha do terceiro andar tem o televisor virado para a janela. Não toda a janela — só a metade que dá para o corredor interno do prédio, aquele corredor de ventilação que os arquitetos dos anos sessenta desenhavam convictos de que o ar ainda seria generoso. Pela fresta, dá para ver a tela quando passo com o lixo.
Durante meses, achei que era problema no aparelho ou na orelha dela. Depois percebi: ela assiste sem volume. Fica sentada numa cadeira de palha, a uns dois metros da tela, e acompanha. Não é surda — conversa no corredor, pergunta do carteiro, reclama do portão. É escolha.
Um dia me detive mais do que devia. Era cena de novela. Dois atores velhos em sala de estar. Ela, na cadeira, inclinava levemente a cabeça conforme as expressões mudavam na tela — como quem escuta música e reconhece a melodia antes do ouvido confirmar. Sorriu antes da cena sorrir. Sabia o que vinha.
Bati na porta com pretexto de correspondência entregue errada. Ela convidou, ofereceu café, e eu perguntei, sem cerimônia de mais, por que sem som. Ela disse que conhecia os atores há quarenta anos, e que nessa altura já sabia o que iam dizer antes de dizerem. O texto mudava, os personagens mudavam, os nomes mudavam. As pessoas não. A voz da Glória, o gesto do Tarcísio — ela usou esses nomes como quem cita parentes — ficavam iguais por baixo de tudo, como a madeira fica por baixo da tinta.
Não me lembro de ter dito nada inteligente. Peguei a xícara, olhei para a tela. Na sala sem som, dois atores velhos se olhavam com aquele tipo de peso que só a câmera de estúdio, feia e direta, sabe capturar — e a imagem bastava. A minha vizinha assistia ao corpo, não à fala. Quarenta anos de treino.
Fui embora pensando em quanto som eu carrego como muleta. Preciso da legenda, da trilha, da voz explicando o que o rosto já disse. Ela dispensou tudo isso num ponto que não consigo datar — foi hábito ou foi luto, não sei. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo, no dia em que um daqueles rostos da tela sumiu e ela percebeu que ainda sabia o gesto de cor.
Essa semana, soube que duas dessas pessoas tinham morrido. Não contei para ela. Ela provavelmente já sabia — quem assiste sem som presta atenção em outras coisas. Passei com o lixo de noite e a janela estava acesa, a cadeira de palha vazia na frente da tela ligada.
A moral, se houver, ficou lá dentro, sem som.

Ficaram os sapatos. A televisão ainda acende.
traço de Risco · cartunista da casa · nanquim sobre papel
A televisão não é um espelho da realidade — é uma janela para o que queremos que ela seja.
Umberto Eco · Tevê: a transparência perdida, em Viagem na Irrealidade Cotidiana, 1983 · tradução da casa
A memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos.
Jean Paul Richter · Hesperus, 1795 · tradução da casa
Envelhecer é ainda o único meio que se descobriu para viver muito tempo.
Charles-Augustin Sainte-Beuve · Pensées, c. 1860 · tradução da casa
O que fica de uma vida não é o que se viveu, mas o que se recorda e como se recorda.
Gabriel García Márquez · Viver para Contá-la, 2002 · tradução da casa
O ator não interpreta uma personagem — empresta o corpo para que ela exista.
Constantin Stanislavski · A Preparação do Ator, 1936 · tradução da casa
A duração de uma carreira depende menos do talento do que da teimosia de continuar.
Elza Soares · entrevista ao jornal O Globo, 2015
Segunda à tarde, a notícia de Laura Cardoso chegou como chegam essas noticias: primeiro no grupo do celular, depois na redação, depois num silêncio de dois segundos que é a unidade de medida do luto em jornalismo. Na terça, Glória Menezes. Noventa e oito anos e noventa e um — duas vidas que, somadas, cobrem quase dois séculos de um país que mudou de capital, trocou de regime, inventou e desinventou a si mesmo várias vezes, mas que manteve, invariável, o hábito de sentar diante da tela às oito da noite e deixar que outra pessoa lhe contasse quem ele era.
Escrevo isso sem romantismo de obituário. O que me interessa é o mecanismo, não a homenagem. A televisão aberta, no intervalo entre os anos 1960 e a virada do século, operou como nenhuma outra instituição conseguiu operar: chegou onde a escola não chegava, onde o jornal não tinha papel, onde o Estado tinha apenas a promessa de um projeto de lei ainda em comissão. Numa casa sem livro, sem enciclopédia e com frequência sem calendário, a novela das oito era o único relógio que marcava tempo social — quem nasce, quem morre, quem trai, quem paga, quem escapa. Laura Cardoso e Glória Menezes não foram apenas atrizes de enorme talento; foram operadoras desse relógio, por décadas, sem parar.
Há uma frase de Antonio Fagundes, dita ao G1 na terça, que merece mais do que o rol de condolências em que ficou sepultada: as duas "formaram a televisão brasileira". Fagundes disse o inverso do que costumamos dizer. Não que a televisão as formou — que o veículo deu a elas visibilidade. Disse que elas formaram o veículo. É uma distinção que a análise institucional costuma ignorar, porque não cabe em organograma: o ator fundante não é o diretor nem o anunciante, é quem deu ao espectador um rosto em que se reconhecer.
Reconhecimento não é entretenimento. É o gesto anterior — o que torna possível qualquer pacto de atenção. Quando Glória Menezes interpretava uma mulher que esperava e resistia, e quando Laura Cardoso dava corpo à matriarca que sabia mais do que dizia, as duas estavam mapeando um repertório emocional compartilhado: o Brasil que assistia aprendia, por contágio, o nome dos próprios estados de espírito. Choro de novela é, muitas vezes, choro de reconhecimento. A tela funcionava como certidão — não de nascimento, mas de existência.
O ponto que me traz aqui, pela porta institucional que esta coluna prefere, é o seguinte: nenhuma política cultural planejou isso. Não há plano decenal que previsse o alcance dessas duas carreiras, nenhum fundo setorial que tenha calculado o retorno social de uma atriz que durou oitenta anos em cena. O que aconteceu foi anterior à política: foi a persistência de duas profissionais dentro de um sistema que trocava elenco com a mesma naturalidade com que trocava patrocinador. Elas permaneceram. E a permanência, quando os sistemas são voláteis, é ela mesma um ato de formação.
Não encerro com moral. Encerro com a pergunta que fica: se a televisão aberta formou o imaginário do país durante cinquenta anos, e se esse papel agora se fragmenta em plataformas sem horário nobre e sem audiência comum — quem faz, agora, a certidão? Não sei responder. Sei que a pergunta ficou mais urgente nesta semana em que dois rostos que a respondiam, por décadas, saíram de cena.












Colaboraram nesta edição: Beto Calazans (À Meia-Luz) · Vicente Moreno e Adelaide Fontes (Lado B) · Iara Falcão Romualdo (Saúde Pública) · e o Risco, cartunista da casa, que não tem rosto — só traço.