Nos meus tempos de fechar caderno de madrugada, eu saía da redação quando o céu ainda estava pensando no assunto e cruzava, na calçada, com o outro turno da cidade: o padeiro erguendo a porta de aço, a enfermeira esperando condução, o entregador conferindo a rota com o farol da bicicleta apagado pra poupar pilha. A gente não se conhecia, mas se cumprimentava com o queixo — esse aceno mínimo de quem sabe o que é estar acordado enquanto a maioria sonha. Aprendi ali que a cidade tem dois expedientes, e que o mais bonito é o que começa no escuro. É pra esse expediente que a Banca é impressa.
Terça-feira carrega uma má fama injusta. Todo mundo poetiza a segunda, todo mundo suspira pela sexta, e a terça fica ali no meio do balcão, sem freguês. Pois eu defendo: terça é o primeiro dia em que a semana fala sério. Segunda ainda é reunião de pauta, promessa, bocejo institucional. Na terça o motor já pegou, o café já foi coado duas vezes e acabou a desculpa da adaptação. Quem levanta cedo numa terça não está começando a semana — está confirmando que ela não o derrubou na largada.
E este 25 de agosto de 2026 chega com o mês na última curva: depois da segunda que vem, o calendário vira a página pra setembro, e o ano — esse conhecido que a gente encontra todo janeiro cheio de planos — entra na reta final. Não digo isso pra apertar ninguém. Digo porque quem acorda às cinco conhece o valor de olhar o relógio a tempo: ainda dá pra terminar o que ficou pela metade, remarcar a conversa adiada, reabrir o caderno de intenções sem cerimônia. Fim de agosto não é cobrança. É lembrete com boa educação.
A edição desta terça segue o combinado de sempre: o giro do que aconteceu, o olho na economia, o esporte contado sem histeria. Aqui a régua é antiga — título do tamanho exato do fato, nem um dedo a mais. Matéria da Banca precisa aguentar a viagem inteira, do ponto inicial ao final, sem pedir pra descer no meio. Minha filha Manu, doze anos, vive me perguntando por que eu ainda gosto de jornal que se dobra. Respondo que papel não trava, não pede senha e não empurra vídeo de ninguém. Ela ri de mim. Um dia entende.
Lá fora, o outro turno da cidade já está de pé, erguendo portas de aço, esperando condução, conferindo rota. Você faz parte dele — e isso é biografia, não detalhe. Dobre o jornal, tome o café enquanto está quente e entregue essa terça com o capricho que ela merece. A semana engatou. Segue viagem.
Quinta-feira à noite entrou aqui uma moça de uns quarenta anos, uniforme de farmácia, crachá virado do avesso, e pediu um café que ficou esfriando do lado do celular. Ela abriu a calculadora e digitou, apagou, digitou de novo. Eu enxugava copo e fazia de conta que não via, que é a etiqueta da casa. Na terceira rodada eu já sabia o que ela ainda não tinha percebido: quando a pessoa refaz a mesma conta três vezes, o problema não mora na conta. Número é teimoso, repete o mesmo resultado por educação. O que a pessoa está tentando mudar é outra coisa, uma que calculadora nenhuma alcança.
Porque a conta de madrugada nunca é sobre o número — é sobre a pergunta que mora embaixo dele. “Eu dou conta?” é o que você digita de verdade quando soma boleto às três da manhã. Em algum ponto do caminho alguém te ensinou que fechar o mês é atestado de caráter, e que não fechar é defeito de fabricação seu, nunca do preço das coisas. Aí você passa a medir o próprio valor na régua do saldo — que é como medir febre com régua: sai um número, só que do instrumento errado.
Eu rodei de aplicativo por uns bons anos e fazia essa conta no farol. Somava as corridas do dia com o carro parado e a cabeça trabalhando em dobro. Chegava na quitinete em Diadema, o Édipo me esperando na janela com aquela cara de quem nunca pagou boleto, e eu ainda conferia o total do aplicativo antes de dormir, como se o número fosse crescer de tanto ser olhado. Descobri depois que o que me cansava não era rodar doze horas. Era rodar doze horas com medo. Cansaço com medo dentro pesa o dobro e não sai com sono — sai com conversa, e olhe lá.
E a conta secreta tem essa crueldade: ela isola. Você não fala que está apertado porque acha que é o único da mesa que não fechou o mês — e na mesa inteira cada um está fazendo a mesma soma escondido, convencido de que o vizinho prosperou. O Freud, nas Cinco Lições, insiste numa ideia de que o sofrimento se agarra ao que ficou sem lugar pra ser dito. Li faz tempo, traduzo do meu jeito, mas o balcão confirma essa página toda noite: aperto dividido não vira dinheiro, mas vira metade do peso. E metade do peso, em certas madrugadas, é a diferença entre dormir e somar.
A moça da farmácia terminou o café já frio e, sem que eu perguntasse, contou que a filha tinha pedido tênis novo e que ela ia dar um jeito. Eu disse que dar um jeito é ofício antigo e digno, e que ninguém é obrigado a exercê-lo sozinho às três da manhã. Ela riu pela metade, que é o riso de quem entendeu mas ainda não acredita. Pagou, guardou o celular sem abrir a calculadora, ajeitou o crachá pro lado certo e disse que amanhã voltava. O balcão não fecha o boleto de ninguém — mas tem noite em que ele fecha uma soma que a pessoa vinha carregando aberta há semanas.
A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta na bandeja, junto com o troco: na última vez que você refez a conta de madrugada, o que estava tentando fazer fechar — o mês, ou a suspeita de que você vale o que sobra no saldo?
Todos atendem de qualquer telefone, sem custo. O 156 muda de figura conforme a cidade — em algumas atende dia e noite, em outras só em horário comercial; vale descobrir como funciona na sua antes de precisar.
Nariz que sangra do nada: no fim do inverno o ar chega ao ponto mais seco do ano, e a mucosa do nariz é a primeira a reclamar. Soro fisiológico nas narinas duas ou três vezes ao dia mantém a região úmida e custa menos que um cafezinho. Se sangrar, sente-se, incline a cabeça levemente para a frente — nunca para trás — e aperte a parte mole do nariz por uns dez minutos, sem soltar para espiar. Estancou, siga o dia; voltou a sangrar no mesmo dia ou o episódio vira rotina, procure a UBS. Sangramento forte depois de pancada na cabeça é caso de 192.
A garrafa d'água é ferramenta de trabalho: quem passa o dia na rua, no balcão ou no volante perde mais água do que percebe com o ar seco. Urina escura e dor de cabeça no fim da tarde são os avisos clássicos de que faltou reposição — e café, por melhor que seja, não entra nessa conta. Deixe a garrafa cheia à vista logo cedo: o gesto de encher já é metade do lembrete. Fruta cheia de água — laranja, tangerina, melancia — também trabalha a seu favor.
A primavera avisa antes de chegar: quem tem rinite ou asma sabe que setembro costuma cobrar caro. O fim de agosto é a hora de agir com calma: agende a consulta de rotina na UBS pra revisar a receita da bombinha antes da floração e adote a lavagem nasal com soro como hábito, não como socorro. Aproveite a ida ao posto pra abrir a caderneta de vacinação — ela não é documento só de criança: o reforço contra o tétano, por exemplo, vale por dez anos, e quase todo adulto esqueceu quando tomou o seu.
Confira antes de pagar: o número que importa está no medidor, não no boleto. Compare a leitura impressa na conta com a que o relógio da sua casa mostra — se a diferença for grande, ligue na central da distribuidora, conteste e anote o protocolo. E guarde esta regra do Código de Defesa do Consumidor: quem paga uma cobrança indevida tem direito a receber de volta em dobro, com correção. Não é gentileza da empresa; é lei desde 1990.
O desconto que talvez já seja seu: família inscrita no CadÚnico pode ter direito à Tarifa Social de Energia, desconto aplicado direto na conta de luz. A inclusão de quem cumpre o critério é automática, mas cadastro desatualizado derruba o benefício sem avisar. Pegue uma conta recente e procure a linha que menciona a tarifa social; se ela não aparece e a renda da casa cabe na regra, ligue pra distribuidora com o NIS em mãos e pergunte. O CRAS do seu bairro atualiza o CadÚnico de graça — leve documento de todo mundo da casa e um comprovante de endereço.
Corte tem regra, não é castigo: a distribuidora só pode suspender o fornecimento por falta de pagamento depois de avisar com antecedência — e não pode cortar em sexta-feira, fim de semana, feriado ou véspera de feriado, justamente porque nesses dias você não consegue resolver nada. Se o corte veio fora dessas condições, ligue, registre protocolo e exija a religação: o erro é deles, e o custo de consertar também.
O falso parente do número novo: chega mensagem no WhatsApp — "mãe, troquei de chip" — e logo atrás um pedido de dinheiro urgente. A defesa cabe num gesto: ligue para o número antigo da pessoa antes de qualquer Pix. Se quiser blindar de vez, combine em família uma palavra-chave que só vocês conhecem. Pressa é a matéria-prima do golpista; quem exige que você decida em um minuto está dizendo quem é.
O boleto que veste fantasia: boleto falso imita papel timbrado, logotipo e até o valor exato da sua dívida. O disfarce cai num único lugar: a tela do banco na hora de pagar, que mostra o nome de quem vai receber. Se o beneficiário não é a empresa com quem você tem conta, pare ali. Boleto que chegou por e-mail ou WhatsApp merece conferência no aplicativo ou no site oficial da empresa — nunca pelo link da própria mensagem.
O gerente que liga aflito: banco nenhum telefona pedindo senha, código do aplicativo ou "confirmação de segurança" com transferência no meio. Recebeu uma ligação assim, desligue sem culpa e ligue você mesmo para o número impresso no verso do seu cartão. Se o golpe já aconteceu, aja no mesmo dia: comunique o banco, peça o bloqueio dos valores e registre boletim de ocorrência na delegacia eletrônica do seu estado — a rapidez do registro é o que aumenta a chance de o dinheiro voltar.
Dia de clássico a gente reconhece de manhã, antes de qualquer escalação. Em Diamantina, quando o assunto era Cruzeiro e Atlético, meu avô economizava as pilhas do rádio desde o café — ninguém ligava o aparelho à toa num dia daqueles, porque a noite ia precisar dele inteiro. Hoje a transmissão cabe no bolso, mas a régua continua a mesma: existe jogo que se assiste e existe jogo que se espera o dia todo. Esta terça-feira tem dos dois tipos, espalhados por três estádios e duas divisões.
O prato principal sobe ao Mineirão às 21h (de Brasília): Cruzeiro x Atlético-MG, início da disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil, pelas quartas de final, com transmissão de sportv e Premiere. O ge confirma data, horário e palco; a CNN Brasil resume o tamanho do encontro sem rodeio — o clássico virou “oportunidade de título para a dupla mineira”, a via mais curta para dar sentido a 2026. Não é pouco. Mata-mata entre vizinhos de quarteirão não distribui prêmio de consolação: um segue vivo na briga pela taça, o outro fica com o resto do calendário e o espelho.
Enquanto Minas prende a respiração, o Rio ainda digere a segunda-feira. No Nilton Santos, pela 24ª rodada do Brasileirão, o Botafogo viu o Athletico-PR abrir 3 a 0 — dois gols do Furacão saíram em 15 minutos de primeiro tempo, segundo o ge — e reagiu tarde: Santi Rodríguez marcou os dois do alvinegro, e o placar fechou em 2 a 3. Viveros, duas vezes, e João Cruz fizeram os do time paranaense, que agora está a um ponto do Flamengo e da vice-liderança. Sem choro: reação de meia hora não apaga cochilo de quinze minutos. E sem soberba do outro lado: quem abre três gols e quase deixa escapar também leva lição de casa na mala.
Na Série B, a 24ª rodada se encerra nesta terça com dois jogos às 19h30, e um deles tem cheiro de estreia. No Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, o Juventude recebe o CRB podendo assumir a liderança da Série B pela primeira vez, segundo o ge: com a derrota do Criciúma na rodada, uma vitória leva o time gaúcho a 45 pontos e ao topo. Os donos da casa vêm de vitória sobre o Goiás fora de casa; o CRB conta com a volta do lateral Lucas Lovat. Já no Antônio Accioly, em Goiânia, Atlético-GO e Botafogo-SP chegam separados por dois pontos, em confronto direto. O Dragão soma 33, não vence há três jogos — empates com Náutico e Londrina, derrota para o Vila Nova — e precisa do resultado para voltar a pensar em G-6.
Você que pega o transporte cedo talvez só alcance o segundo tempo de tudo isso — e está bem assim. Futebol de terça-feira é generoso com quem chega atrasado: o resumo de amanhã existe, mas a voz do locutor no fone, no trecho final do trajeto, ainda é o jeito mais bonito de descobrir um placar. Meu avô dizia que jogo grande não pede televisão, pede imaginação e uma antena honesta. A desta página está apontada para o Mineirão, para o Jaconi e para o Accioly. Amanhã a Banca confere tudo — com fonte, como sempre, e sem inventar um gol sequer.
19h30 · Série B (24ª rodada): Atlético-GO x Botafogo-SP, no Antônio Accioly, em Goiânia; e Juventude x CRB, no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul — o Juventude pode assumir a liderança pela primeira vez. 21h · Copa do Brasil (quartas de final): Cruzeiro x Atlético-MG, no Mineirão, com transmissão de sportv e Premiere. Fontes: ge e CNN Brasil, com horários e palcos confirmados. O que a Banca faz: publica os resultados amanhã com fonte verificável — placar aqui só entra depois que a bola parar de rolar.
A feijoada de restaurante carrega meia dúzia de carnes que encarecem sem mudar o fundamento do prato: feijão bem cozido e gordura defumada dando liga. A versão enxuta fica com o essencial. O bacon abre o caminho — a gordura dele refoga a cebola, tempera a couve e dispensa qualquer caldo pronto. A calabresa é o embutido mais fácil de achar em qualquer açougue ou mercadinho e segura o defumado do começo ao fim. A costelinha suína, vendida em tiras, sai por menos que os cortes nobres e solta um colágeno que engrossa o caldo de um jeito que nenhum truque imita. O paio entra se aparecer; se não aparecer, ninguém sente falta na segunda concha. E o feijão-preto rende como poucos grãos: um quilo vira panela cheia, caldo pra molhar o arroz da semana e um prato que amanhã estará melhor do que hoje — porque feijoada dorme pra acordar mais gostosa.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ontem, segunda-feira (24), que o salário mínimo deverá subir para R$ 1.741 em 2027. São R$ 120 acima dos atuais R$ 1.621, um reajuste de 7,4%. A estimativa entra no Projeto de Lei Orçamentária Anual, o PLOA, que o governo envia ao Congresso Nacional até 31 de agosto.
Repare no verbo do anúncio: "deverá". Projeção de orçamento não é dinheiro na conta — é o número com que o governo pretende trabalhar no ano que vem. O PLOA é exatamente isso, um projeto de lei: o governo propõe, o Congresso examina, e só do outro lado dessa travessia o valor vira salário.
E o número já se moveu uma vez neste ano. Em abril, no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a estimativa era de R$ 1.717. A projeção de agora veio R$ 24 acima. No papel, parece troco; no orçamento de quem vive de mínimo, nenhum real é figurante — e é por isso que essa diferença merece ser acompanhada até a votação, não esquecida depois da manchete.
A primeira regra do bolso é antiga e continua de pé: dinheiro anunciado não se gasta. Reajuste projetado para 2027 não paga boleto de 2026. Quem assume parcela nova hoje contando com salário de depois de amanhã está emprestando a si mesmo um dinheiro que ainda não existe — e paga sozinho a diferença quando o mês fecha no vermelho.
O anúncio serve, isso sim, de régua de planejamento. Faça a conta simples: se o seu orçamento não fecha com R$ 1.621, é bom saber desde já que R$ 120 a mais, sozinhos, também não fecham. O intervalo até 2027 é o tempo que você tem para ajustar o que depende de você — o gasto que pode ser cortado, a conversa que pode ser puxada com o credor — em vez de esperar que o contracheque resolva tudo por conta própria.
Vale o ditado, entortado de propósito: quem conta com dinheiro prometido perde o prometido e a conta. O reajuste pode vir inteiro, pode vir mexido pelo Congresso. Planeje com o salário que existe; se o novo chegar como anunciado, encontra a casa arrumada — e aí vira folga, não tapa-buraco.
O governo federal definiu como serão aplicados os R$ 13,5 bilhões em linhas de crédito do Plano Brasil Soberano, destinados a empresas afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos e pelos impactos de conflitos e da instabilidade internacional. A resolução que detalha a distribuição dos recursos foi publicada ontem, segunda-feira (24), no Diário Oficial da União, pelo Conselho Interministerial do plano.
O pacote tinha sido anunciado em julho e esperava a regulamentação para andar. Crédito para empresa parece assunto de outro andar, mas não é: a exportadora atingida por tarifa, a indústria pressionada pela instabilidade lá fora — tudo isso é, na ponta, o lugar onde alguém bate cartão. Quando a empresa atravessa turbulência, a régua do mês de quem trabalha nela balança junto.
Se o seu emprego está numa empresa que exporta ou depende do mercado internacional, o dado de ontem é menos abstrato do que parece: existe agora um instrumento regulamentado, com valor definido e distribuição publicada em Diário Oficial. Saber se a empresa onde você trabalha cabe nesse desenho não é curiosidade de noticiário — é informação sobre o chão em que você pisa.
A Braskem, maior petroquímica da América Latina, pediu recuperação extrajudicial — carregando dívidas de R$ 56 bilhões, a empresa busca reestruturação financeira depois que expirou o prazo de proteção contra credores. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo classificaram o movimento como um "pedido de socorro": uma solução tampão, que resolve o problema imediato de caixa, mas não a origem da crise.
Guardadas as proporções — e aqui são bilhões delas —, a mecânica é a da mesa da cozinha. A avaliação dos especialistas é que o acordo compra tempo, sem ser a solução definitiva: a empresa vive a tensão entre o alívio de curto prazo e a sustentabilidade no futuro. Troque "empresa" por "família" e a frase continua verdadeira, palavra por palavra.
Se você tem um acordo de dívida em andamento, a pergunta que a Braskem coloca é a sua também: o que está sendo feito com o tempo que o acordo comprou? Renegociação que não muda o fluxo do mês é fôlego, não travessia. A boa notícia é que, na escala da cozinha, a origem da crise costuma caber numa folha de papel — e o que cabe no papel você consegue enxergar, decidir e mudar. É por aí que o boleto grande de hoje vira o boleto pago de amanhã.
De todas as figuras que podiam aparecer na madrugada desta terça, veio a mais discreta do baralho: uma criatura de asas, sem pressa nenhuma, despejando água de um jarro no outro. Não corta nada, não gira roda, não derruba torre. Só transfere, com cuidado, o que está de um lado pro outro lado — sem perder pelo caminho. Há quem ache pouco. É porque nunca tentou.
Você acorda às cinco da manhã de uma terça de agosto e a semana já mordeu o primeiro pedaço: a segunda-feira passou por cima, o resto do mês espera na fila, e tem gente querendo que você entregue até quinta o que só pediu na sexta. A carta olha pra essa cena e pergunta baixinho: em que velocidade você está se despejando? Porque água boa, entornada de uma vez, vira só chão molhado.
Quem cresceu na igreja conhece a temperança pelo nome de batismo: é uma das quatro virtudes cardeais, irmã da prudência, da justiça e da fortaleza — e, das quatro, a mais caseira. Quem é do terreiro reconhece o gesto na quartinha: água servida com calma, vasilha tratada com respeito, porque ali o sagrado mora no cuidado, não na quantidade. Quem medita sabe pela respiração, que só acalma quando ninguém a apressa. E quem não carrega fé nenhuma aprendeu no fogão: fogo alto queima por fora e deixa cru por dentro.
Repare que a carta não manda fazer menos. Manda fazer na medida — que é coisa muito diferente de preguiça e ainda mais diferente de pressa. Medida é saber quanto do seu dia cabe em cada hora dele, quanto de você cabe em cada conversa, quanta verdade cabe de uma vez na orelha de quem ouve. O jarro certo na inclinação certa: nem tão fechado que nada saia, nem tão virado que tudo se perca.
Pro dia de hoje, três cuidados práticos. Se o expediente exigir tudo ao mesmo tempo, despeje por partes: o que não coube de manhã não evaporou, só mudou de jarro. Se alguém gritar com a sua água pra ela correr mais depressa, lembre que isso nunca funcionou — o líquido tem lá seus prazos e não reconhece chefia. E se hoje for você quem carrega a pressa, repare se não anda sacudindo o andor de alguém que é de barro e vinha indo tão bem.
Ninguém aplaude a medida certa, e talvez essa seja a parte mais bonita. O café que não derramou não vira história, a conversa que não azedou não rende comentário, o dia atravessado sem estrago não sai no jornal — nem neste. A Temperança é a padroeira de tudo o que deu certo em silêncio. O mundo se sustenta nisso, e o mundo raramente agradece.
Bom dia. Que a sua terça caiba inteira no seu jarro — sem faltar um gole, sem derramar uma gota à toa.
A Redação · almanaque
Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, cidade pequena do sul catarinense, numa família numerosa de descendentes de imigrantes alemães — casa cheia, mesa comprida, trabalho cedo. Formou-se em medicina pela Universidade Federal do Paraná em 1959, num tempo em que mulher de jaleco ainda era recebida nas enfermarias com a sobrancelha erguida. Escolheu a pediatria e depois a saúde pública, e fez carreira no serviço de saúde do Paraná cuidando do que não dá manchete: vacina, posto, prontuário, fila. Foi ali que aprendeu a desconfiar de solução grandiosa e a respeitar o que funciona no chão.
O ponto de virada tem cara de recado de família. No começo dos anos 1980, James Grant, então diretor-executivo do Unicef, sugeriu a Dom Paulo Evaristo Arns — cardeal-arcebispo de São Paulo e irmão de Zilda — que a capilaridade da Igreja podia servir para espalhar conhecimentos simples de sobrevivência infantil. Dom Paulo sabia exatamente a quem entregar o desafio. Em 1983, Zilda montou o projeto-piloto da Pastoral da Criança em Florestópolis, no interior do Paraná, município onde criança demais morria antes de completar um ano.
O método cabia num caderno. Soro caseiro — água limpa, açúcar, uma pitada de sal — contra a desidratação que matava em silêncio. Aleitamento materno defendido sem sermão. Pesagem mensal das crianças, porque balança não mente e curva de peso é alarme que dispara antes da tragédia. E a peça central: líderes voluntárias da própria comunidade, mulheres treinadas para acompanhar as famílias vizinhas, de porta em porta. Zilda não mandou médicos para o povo; formou o povo para depender menos de médicos.
A coisa cresceu como cresce o que é fácil de copiar e barato de manter. A Pastoral da Criança se espalhou por comunidades do país inteiro e depois cruzou fronteiras, levada por gente que aprendia o método numa semana e ensinava na seguinte. Nas áreas acompanhadas, os indicadores de mortalidade infantil caíram abaixo da média — resultado que rendeu a Zilda indicações ao Prêmio Nobel da Paz e a certeza, mais valiosa, de que a receita funcionava. Em 2004, ela repetiu a lógica na outra ponta da vida e fundou a Pastoral da Pessoa Idosa, porque velhice também se cuida de perto.
O fim tem a coerência das vidas inteiras. Em 12 de janeiro de 2010, aos 75 anos, Zilda estava em Porto Príncipe, no Haiti, em missão humanitária, falando a lideranças religiosas sobre o cuidado com as crianças — o discurso terminava com a imagem das aves que constroem ninho e alimentam os filhotes. Minutos depois, a terra tremeu e o prédio veio abaixo. Ela morreu trabalhando no assunto da vida dela, a milhares de quilômetros de casa, num país onde as crianças precisavam exatamente de alguém com uma balança e um caderno.
A figura que ficou não tem verniz de heroína: voz baixa, planilha na mão, paciência de quem sabe que estatística se muda em anos, não em discursos. Zilda unia o que raramente anda junto — fé e epidemiologia, reza e curva de crescimento — sem achar que uma dispensava a outra. Não romantizava a pobreza nem a própria obra: contava, media, corrigia. Se um número piorava, a resposta não era comoção; era visita.
Nesta terça-feira, 25 de agosto, Zilda Arns completaria 92 anos. A lição que a vida dela deixa não é de santidade — santidade não se copia, e ela fez questão de criar justamente o que se copia. É outra coisa: confiança em escala. Zilda apostou que uma vizinha treinada, com uma colher de açúcar e uma pitada de sal, podia segurar a vida de uma criança até o posto abrir — e que milhares de vizinhas assim valiam mais do que qualquer promessa de gabinete. Você, que lê a Banca no transporte antes das seis, conhece essa mulher: ela mora na sua rua. Zilda só fez o que os planos grandiosos raramente fazem — reparou nela.
Se você dormiu no segundo bloco — e o sofá tem dessas traições com quem acorda às cinco —, o capítulo de ontem não está perdido. O país mantém, há gerações, um sistema de reprise que nenhuma emissora inventou e nenhuma consegue desligar: a pessoa que conta. Ela está no ponto do ônibus, na fila do café, na portaria do prédio, encostada na pia do serviço. Você não precisa procurar. Basta chegar perto e soltar um "e aí, o que houve ontem?" que a sessão começa.
E que sessão. Quem reconta capítulo é editor sem carteira assinada: corta a cena arrastada, pula o núcleo que ninguém aguenta, vai direto ao tapa, à revelação, ao olhar atravessado que a câmera fez questão de demorar. Imita a voz do vilão sem pedir licença. E entrega, de brinde, o que a emissora não fornece: a opinião. O "eu sempre disse que aquele ali não prestava" vem junto, sem custo adicional. O capítulo recontado é mais curto que o original e, com alguma frequência, melhor.
Isso tem nome — cultura oral —, mas ninguém que pratica precisa saber como chama. A TV aberta planta a história à noite; o país rega de manhã, em voz alta. O capítulo vai ao ar uma vez na tela e passa o dia inteiro em reprise de boca em boca, cada versão com um tempero a mais. É o folhetim funcionando como sempre funcionou, desde o tempo em que vinha no jornal e alguém lia em voz alta para a roda ouvir. Trocou-se o papel pela tela; a roda continua exatamente no mesmo lugar.
Repare nas filiais informais dessa rede. O salão de beleza discute a protagonista com a seriedade de um conselho de família. A barbearia tem tese formada sobre o casal que não se acerta desde o primeiro capítulo. O porteiro, que vê tudo — da novela e da vida —, cruza as duas fontes com a autoridade de quem confere. Personagem de novela é debatido como vizinho porque, no fundo, é: entra na sua casa todo dia, no mesmo horário, pontualidade que nem parente sustenta.
E aqui mora a ironia que a televisão entendeu faz tempo: quem conta um capítulo aumenta um ponto. Quem ouve a recontagem no ônibus chega em casa com a curiosidade acesa e liga a TV para conferir se era aquilo mesmo. Era — e não era, porque a versão do colega tinha mais graça. Aí você assiste ao de hoje inteiro, com atenção redobrada, para amanhã ser você a contar. A roda se alimenta sozinha, e ninguém nela cobra cachê.
O telefone até oferece atalho: resumo mastigado, um minuto, tudo pronto. Mas o resumo não discute com você. Não segura o suspense no ponto exato, não faz a pausa de quem sabe o que vem, não responde "calma que tem mais" quando você interrompe. A pessoa que conta administra o silêncio como diretor experiente — e ainda olha nos seus olhos para medir se a revelação fez o efeito devido. Máquina nenhuma aprendeu a medir isso.
Então hoje, nesta terça que começa cedo, faça o teste. Perto de você, no transporte ou no trabalho, existe alguém carregando o capítulo de ontem inteiro na cabeça, esperando só uma deixa. Dê a deixa. Ou, se foi você que viu e o outro que perdeu, assuma o posto: conte com calma, corte a gordura, guarde o tapa para o final. A TV aberta segue sendo do país não porque todo mundo assiste — e sim porque todo mundo reconta. Tela que vira conversa não sai do ar nunca.
Toda terça a caderneta abre na mesa antes do café. Hoje ela abriu sem carimbo: nenhum festival, nenhuma inauguração, nenhum portão com dia e hora que Joaquim tenha conferido com o próprio pé — e programa sem confirmação não entra nesta página, porque indicar portão fechado é o único pecado que a coluna não se perdoa. Nesses dias a saída é honesta e está declarada aí em cima: roteiro atemporal, daqueles que não dependem de agenda nem de sorte. E poucos lugares do país cumprem esse papel tão bem quanto a Quinta da Boa Vista, o parque de São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro — grande, arborizado, público e de graça.
A história do terreno começa antes de o Brasil ser Brasil. Em 1808, quando a corte portuguesa desembarcou aqui fugida de Napoleão, o comerciante Elias Antônio Lopes ofereceu sua chácara de São Cristóvão a Dom João VI — e a propriedade virou o Paço de São Cristóvão, casa da família real e, depois, da família imperial. Foi ali que Dom Pedro II cresceu, e foi para os jardins do imperador que o paisagista francês Auguste Glaziou desenhou, no século XIX, o traçado que resiste até hoje: lago, gruta artificial, alamedas largas e aquele jeito de caminho em curva que obriga o visitante a andar devagar mesmo quando tem pressa. A monarquia acabou faz tempo; o jardim, por teimosia, ficou — e o portão que um dia filtrou súditos hoje deixa passar qualquer um.
Ainda no século XIX o Paço virou sede do Museu Nacional, o museu mais antigo do Brasil — e foi por isso que o incêndio de setembro de 2018 doeu no país inteiro: o fogo feriu o palácio e consumiu boa parte de um acervo de milhões de itens. A reconstrução virou trabalho de anos e segue seu curso. Mas aqui vai o dado que interessa a quem lê esta coluna: o parque em volta nunca deixou de ser parque. As alamedas, o lago, a sombra comprida das árvores antigas — tudo continua aberto ao público, sem catraca e sem bilheteria. O zoológico que funciona dentro do terreno cobra ingresso à parte; o resto da Quinta, não.
O caminho é dos mais simples da cidade: a estação São Cristóvão do metrô fica na vizinhança imediata do parque, e de lá se chega a pé. Horário de portão é coisa que muda — e como Joaquim não confirmou horário nenhum hoje, nenhum horário será impresso aqui: confirme antes de sair, que é exatamente o que a coluna faria. No mais, o programa se resume ao que há de melhor no gênero: leve água, leve companhia ou leve só você mesmo, escolha uma sombra e gaste uma hora sem culpa num terreno que já foi de imperador e hoje não custa um centavo. Programa bom não é o que lota a agenda — é o que cabe nela. Este cabe até nas mais apertadas.
A feira não chega: ela é erguida. Às três e dez a rua ainda é uma rua comum — postes, carros dormindo encostados no meio-fio, um gato atravessando com pressa de gato. Às três e vinte o caminhão dá ré, geme, e despeja no chão um amontoado de ferros que, para qualquer pessoa normal, é um amontoado de ferros. Para o Osmar, é um mapa. Ele desce da carroceria, olha aquilo por uns dez segundos e começa a puxar cano por cano, sem lanterna, sem conferir nada, com a segurança de quem lê braile.
Osmar arma vinte e duas barracas por madrugada, de nove famílias diferentes, e sabe de cor qual ferro pertence a quem — este aqui torto do jeito certo, aquele ali remendado com uma solda antiga que ele mesmo fez. Trabalha no escuro porque, segundo ele, a luz do poste engana: inventa sombra onde não tem buraco. "Prefiro confiar na mão", me disse, encaixando um travessão lá em cima sem levantar os olhos. A mão dele tem quarenta anos de feira e não erra um encaixe desde antes de muita barraca ter nascido.
Depois do esqueleto vem a pele. A lona sobe estalando feito vela de barco e, de repente, o que era ferragem vira sombra — uma sombra armada antes do sol, o que talvez seja a definição mais honesta de planejamento que esta cidade conhece. É quando chegam os donos das bancas. Dona Ivone estaciona a Kombi, desce caixas de folhas que ainda acham que estão na horta e pendura a tabuleta. Escreve os preços a giz, devagar, número por número, e confesso que acompanhei com o coração acelerado: não é todo dia que a gente vê um preço nascer. Ainda morno, antes de ter assustado alguém.
Foi ela que me explicou a lei da primeira venda. Feirante gosta de inaugurar a mão cedo: a primeira venda abençoa as outras, e por isso o primeiro freguês do dia é tratado como visita. Eu, que pago a minha própria conta desde 1995 e guardo orgulho de cada recibo, entendi ali que existe uma janela na madrugada em que a economia amanhece de bom humor. Deus ajuda quem cedo madruga — mas o troco confiro eu. Comprei um maço de cheiro-verde, Dona Ivone arredondou pra baixo sem que eu pedisse, e paguei com dinheiro contado: gentileza dos outros não é desculpa pra desleixo com a minha parte. Ela guardou a nota numa sacolinha separada das demais, com o cuidado de quem guarda uma semente.
Às cinco, a rua já não se lembra de ter sido estacionamento. O peixeiro ensaia o pregão em voz baixa, provando as rimas como músico que afina a corda antes do concerto; o menino das laranjas ergue uma pirâmide que nenhum engenheiro assinaria — e da qual, misteriosamente, laranja nenhuma cai; dois garis passam, examinam a pirâmide com olhar técnico e aprovam com a cabeça. Um táxi encosta, o motorista compra bananas sem descer do carro — fim de plantão de quem dirigiu a noite inteira — e vai embora comendo uma, com a fisionomia de quem finalmente recebeu um salário que se mastiga.
Saí quando o sol tocou as lonas e as acendeu por dentro, naquele laranja de acampamento que deixa qualquer produto com cara de mais maduro. Você vai chegar às oito, com sua sacola e sua pressa, e a feira vai parecer eterna — como se tivesse brotado ali junto com o asfalto. Não brotou. Foi armada peça por peça, no escuro, por um homem que nunca a viu pronta e que a essa hora já dorme. A cidade está cheia de coisas assim: prontas demais pra alguém lembrar que foram feitas. A feira, ao menos, tem a delicadeza de desmontar toda semana — só pra que exista sempre quem a monte de novo.
Começou na segunda-feira (24) o pagamento da quinta parcela do incentivo-frequência do Pé-de-Meia para os beneficiários de 2026, informou a Agência Brasil. Recebe quem manteve pelo menos 80% de presença nas aulas entre maio e junho. O programa funciona como uma poupança que incentiva o jovem a permanecer na escola até concluir o ensino médio — aqui, pé-de-meia deixou de ser figura de linguagem e virou depósito com data.
Se você está no ensino médio e dentro do programa — ou tem filho, sobrinha, vizinho que está —, a orientação cabe numa frase: confira a conta e confira a frequência, porque faltar custa literalmente dinheiro. E vale dizer o óbvio que ninguém diz: o valor é do estudante, no nome do estudante. Ninguém precisa de intermediário pra receber o que já é seu.
Pra quem tem de 14 a 24 anos, o contrato de aprendiz é o formato que muita gente esquece: registro em carteira, salário e a escola dentro do mesmo pacote — as regras estão no site do Ministério do Trabalho e Emprego, de graça. O caminho até a vaga também não cobra pedágio: os agentes de integração da sua cidade mantêm cadastro sem custo pra estágio e aprendizagem, e escola técnica e universidade costumam ter mural próprio de vagas, também gratuito.
Regra de bolso: agente de integração sério não cobra do estudante. Quem paga essa conta é a empresa que contrata.
O balcão público continua sendo o posto de emprego da sua cidade, o velho SINE: atendimento presencial gratuito, com vagas da região que nem sempre aparecem na internet — documento com foto e carteira de trabalho (a digital, no celular, vale) resolvem o cadastro. Pela tela, o portal oficial do Ministério do Trabalho e Emprego, no gov.br, é a porta de entrada do sistema público — sem cobrar nada em etapa nenhuma.
Concurso é outra conversa: edital só vale o que está publicado no site da banca organizadora e no Diário Oficial, os dois de acesso gratuito. Boleto de inscrição, quando existe, é emitido dentro do site oficial do certame — nunca chega pronto por mensagem. E a "apostila exclusiva" vendida por terceiros é meia-verdade cara: o conteúdo programático está no edital, de graça, esperando você ler.
Quem parou de estudar antes da hora tem o Encceja, exame gratuito do Inep que certifica o ensino fundamental e o médio — a inscrição é feita no site oficial do instituto, sem taxa. Pra somar linha no currículo, a rede federal de ensino abre turmas gratuitas de qualificação e cursos técnicos em editais periódicos, e o portal do MEC é o mapa pra achar a unidade mais perto de você — de graça, como manda o figurino.
Nenhuma dessas portas pede cartão de crédito na entrada — e qualquer uma que peça merece a sua desconfiança imediata.
A fila do golpe anda colada na fila do emprego, e os sinais não mudam: cobrança de "taxa de cadastro" ou de "material" antes da contratação, entrevista marcada por link desconhecido, salário alto demais pra função vaga demais, pedido de foto de documento por mensagem antes de qualquer contato formal. Benefício como o Pé-de-Meia também não precisa de atravessador: desconfie de quem oferece "adiantar", "desbloquear" ou "consultar" o seu dinheiro em troca de senha ou dado bancário.
Na dúvida, o teste é curto: quem oferece trabalho de verdade quer o seu serviço, não o seu dinheiro. Se a proposta inverte essa ordem, não é proposta — denuncie e siga em frente.
Terça-feira é dia de prestar contas sem cerimônia. Não é balanço solene nem editorial de aniversário: é conversa de portão, aquela em que o vizinho pergunta o que você anda fazendo da vida e não aceita resposta ensaiada. A Banca reservou esta página pra isso. O que vem abaixo não chegou pelo correio — chegou do silêncio de quem leu e ficou matutando. A redação matutou de volta.
Sete edições ensinam pouco e cobram muito. O que já dá pra afirmar sem soberba: jornal não se mede pelo que publica, mas pelo que aguenta ouvir de volta. Uma redação que só escreve e nunca escuta vira megafone; a Banca prefere ser mesa — dessas de bar que balançam, com um calço improvisado, mas onde a conversa termina melhor do que começou.
E há um detalhe que esta caixa aprendeu antes de encher: não existe carta pequena. A reclamação sobre uma vírgula fora do lugar e a discordância frontal com uma escolha de capa moram na mesma prateleira, porque as duas dizem a mesma coisa — alguém leu com atenção. Atenção é a única moeda que este jornal aceita e a única que devolve. O resto é troco.
Terça-feira, vinte e cinco de agosto. Segunda a gente atravessa no impulso; é na terça que a semana mostra o tamanho verdadeiro dela, sem cerimônia e sem desconto. Quem escreveu a frase aí de cima foi um médico mineiro que trocou o consultório pelo sertão e botou na boca de Riobaldo, um jagunço que pensava demais para o ofício, um dos diagnósticos mais precisos já dados sobre a vida em língua portuguesa. Repare que ele não promete melhora: promete alternância. Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa — o alívio já vem embutido no aperto, como o troco já vem embutido na nota. É diferente de dizer que tudo dá certo no final, conversa de quem nunca esperou conserto de geladeira. O que a frase garante é que nada fica parado no pior por muito tempo, e que o preço da passagem é um só: coragem. Não a de filme, que enfrenta dragão; a sua, que enfrenta fila, boleto vencido, telefonema adiado, aquela conversa que você vem empurrando desde julho. Coragem, no sertão de Rosa e na sua rua, é continuar em movimento enquanto a vida decide a temperatura. Agosto está fechando as contas dele, o ano já dobrou a esquina do segundo semestre, e você segue de pé — o que, ninguém diz mas deveria, já é metade da travessia feita. A outra metade se resolve do jeito que sempre se resolveu: um dia esquentando, outro esfriando, você desinquieto e vivo no meio dos dois. Dobra a frase, guarda junto dos documentos. Terça-feira também afrouxa.
A tirinha ainda está no forno — e forno bom não abre antes da hora.
Todo quadrinho começa com uma pergunta que ninguém ousou fazer em voz alta. No caso do Pedrinho, a pergunta costuma escapar pela boca antes que o bom senso possa segurar — e é justamente aí que a Vó Olga entra, com aquela voz de quem já viu o Brasil mudar de nome várias vezes sem perder o endereço.
A tirinha Pedrinho na Banca é um quadro da casa. Pedrinho tem oito anos, curiosidade de adulto e paciência de... bem, oito anos. Vó Olga tem setenta e tantos, memória de elefante e o dom raro de explicar o país sem precisar mentir pra nenhuma das duas partes.
Toda segunda, quando você dobrar esta página, vai encontrar os dois no mesmo lugar: ele com a pergunta, ela com a resposta que o Brasil merecia ter recebido faz tempo.
A arte definitiva está a caminho. Enquanto o lápis do desenhista termina o serviço, fica aqui o convite: se você tem um Pedrinho em casa — filho, sobrinho, vizinho que não para de perguntar por quê — guarda a edição. Na semana que vem, eles se reconhecem na página.
— Um quadro da casa

Agosto entrou fazendo vento, jurando mandar no mês,
derrubou roupa de varal e se anunciou desgosto,
mas o povo das cinco horas não perde a hora nem a vez:
passou café, dobrou o frio e seguiu de peito exposto.
O valentão faz a mala e sai sem se despedir —
setembro espia da esquina com a primavera no rosto.
O traço viu o seguinte: numa plataforma de rodoviária ainda meio escura, agosto — comprido, despenteado, feito de rajada — sobe o degrau do primeiro ônibus arrastando uma mala que vaza poeira e folha seca pelo fecho. No banco da plataforma, setembro espera a vez com um ramo de ipê no colo e a calma de quem sabe que a próxima estação é sua. Entre os dois, um passageiro madrugador segura o boné com uma mão e o jornal dobrado com a outra: aprendeu com o vento deste mês que quem solta um acaba perdendo os dois.
Charge: Tibiriçá / Banca
Tibiriçá
Tem coisa que só a fotografia segura. Discurso some, cartaz desmancha, memória envelhece — mas o registro em preto e branco de uma passeata que ninguém filmou continua ali, parado no tempo, esperando alguém olhar de volta. É o que faz a exposição Alice Oliveira, inaugurada nesta quarta-feira (19) no Museu da Diversidade Sexual, na Estação República do Metrô, bem no centro de São Paulo. A fotógrafa e ativista passou mais de quatro décadas documentando o que muita gente preferia que não existisse: os movimentos feministas, lésbicos e LGBTQ+ que se organizaram no Brás e em outros cantos da cidade durante os anos 1980 e 1990. Agora essas imagens saem do arquivo e ganham parede.
A data não é coincidência. Dezenove de agosto é o Dia do Orgulho Lésbico — e abrir uma exposição que honra esse histórico justamente hoje é uma escolha que o próprio calendário agradece. A Agência Brasil confirmou a abertura e o museu não cobra entrada: o acesso é gratuito, assim como o metrô cobre o percurso até a República sem precisar trocar de linha em boa parte da cidade. Se você sai cedo de casa e tem a tarde livre — ou a manhã antes do turno da tarde —, já sabe onde ir.
O endereço é Av. Paulista, 900 — subsolo da Estação República. O horário de funcionamento do museu segue o fluxo do metrô, então vale confirmar no site oficial do Museu da Diversidade Sexual antes de sair, já que programações de abertura às vezes esticam o expediente no primeiro dia. A exposição permanece em cartaz por tempo determinado — mas como Joaquim só anota o que confirmou, o prazo exato entra na caderneta quando o museu publicar o calendário completo. Por enquanto: hoje tem inauguração, tem fotografia real e tem história que vale a viagem.
Para quem não consegue ir hoje, fica o registro: Alice Oliveira passou quatro décadas com a câmera apontada para o que o Brasil oficial mal queria reconhecer. Isso virou acervo, o acervo virou exposição e a exposição está de graça numa estação de metrô que você provavelmente já passou. Às vezes o programa do dia é só dar uma volta de volta num lugar que você conhece — e descobrir que tem uma história enorme pendurada na parede esperando pelo seu olhar. Portão aberto. Caderneta anotada.