Xaplin
A resenha diária de quem acorda o Sol para trabalhar
EDIÇÃO MAIS NOVA
Edição 07 · fechada em
25 de agosto de 2026
Rio · Xaplin
Ilustração fotográfica da capa da edição 07
Copa do Brasil tem clássico mineiro nas quartas
Cruzeiro e Atlético-MG abrem hoje no Mineirão a briga por vaga na semifinal — o clássico virou a chance de salvar o ano
A bola rola às 21h desta terça, no Mineirão: Cruzeiro e Atlético-MG começam a decidir quem segue vivo nas quartas de final da Copa do Brasil — o clássico que virou oportunidade de título para uma dupla que precisa salvar a temporada. Fora de campo, o dia amanhece com notícia de bolso: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, projetou o salário mínimo em R$ 1.741 para 2027 — R$ 120 acima do atual. O governo também detalhou os R$ 13,5 bilhões em crédito para empresas atingidas pelo tarifaço americano. E no Rio, a Justiça concedeu 57.498 medidas protetivas de urgência a mulheres entre janeiro e julho — alta de 43% sobre o mesmo período do ano passado.
Economia · Salário mínimo deve subir para R$ 1.741 em 2027 — R$ 120 a mais, anuncia a FazendaGiro · Medidas protetivas para mulheres crescem 43% no estado do Rio: 57.498 concedidas até julhoBola · Série B fecha a 24ª rodada nesta terça: Atlético-GO x Botafogo-SP e Juventude x CRB, às 19h30
Saúde
Santa Catarina confirma morte por Febre do Nilo Ocidental; São Paulo registra os dois primeiros casos
Educação
Pé-de-Meia começa a pagar a quinta parcela a estudantes com 80% de presença entre maio e junho
Internacional
Suprema Corte dos EUA libera plano do governo Trump para restringir o voto pelo correio
O bom-dia do Zé da Banca
Bom dia. Terça-feira não tem fama, mas é nela que a semana pega no tranco — e a de hoje ainda guarda um clássico à noite pra quem chegar inteiro ao fim do expediente.
A BANCAEditorial · Caco Damascenop. 02
A BANCAEditorial · Caco Damascenop. 02
O Editorial

Terça-feira, e a semana engata a segunda marcha

Segunda é ensaio: a cidade tosse, testa o som, ajeita a cadeira. Terça é apresentação. Se você está de pé a esta hora, o espetáculo já contava com você.
por Caco Damasceno · direção da Banca

Nos meus tempos de fechar caderno de madrugada, eu saía da redação quando o céu ainda estava pensando no assunto e cruzava, na calçada, com o outro turno da cidade: o padeiro erguendo a porta de aço, a enfermeira esperando condução, o entregador conferindo a rota com o farol da bicicleta apagado pra poupar pilha. A gente não se conhecia, mas se cumprimentava com o queixo — esse aceno mínimo de quem sabe o que é estar acordado enquanto a maioria sonha. Aprendi ali que a cidade tem dois expedientes, e que o mais bonito é o que começa no escuro. É pra esse expediente que a Banca é impressa.

Terça-feira carrega uma má fama injusta. Todo mundo poetiza a segunda, todo mundo suspira pela sexta, e a terça fica ali no meio do balcão, sem freguês. Pois eu defendo: terça é o primeiro dia em que a semana fala sério. Segunda ainda é reunião de pauta, promessa, bocejo institucional. Na terça o motor já pegou, o café já foi coado duas vezes e acabou a desculpa da adaptação. Quem levanta cedo numa terça não está começando a semana — está confirmando que ela não o derrubou na largada.

Agosto já está fazendo as malas. Antes que ele feche o zíper, confira o que você prometeu carregar este ano — ainda cabe uma coisa lá dentro.

E este 25 de agosto de 2026 chega com o mês na última curva: depois da segunda que vem, o calendário vira a página pra setembro, e o ano — esse conhecido que a gente encontra todo janeiro cheio de planos — entra na reta final. Não digo isso pra apertar ninguém. Digo porque quem acorda às cinco conhece o valor de olhar o relógio a tempo: ainda dá pra terminar o que ficou pela metade, remarcar a conversa adiada, reabrir o caderno de intenções sem cerimônia. Fim de agosto não é cobrança. É lembrete com boa educação.

A edição desta terça segue o combinado de sempre: o giro do que aconteceu, o olho na economia, o esporte contado sem histeria. Aqui a régua é antiga — título do tamanho exato do fato, nem um dedo a mais. Matéria da Banca precisa aguentar a viagem inteira, do ponto inicial ao final, sem pedir pra descer no meio. Minha filha Manu, doze anos, vive me perguntando por que eu ainda gosto de jornal que se dobra. Respondo que papel não trava, não pede senha e não empurra vídeo de ninguém. Ela ri de mim. Um dia entende.

Lá fora, o outro turno da cidade já está de pé, erguendo portas de aço, esperando condução, conferindo rota. Você faz parte dele — e isso é biografia, não detalhe. Dobre o jornal, tome o café enquanto está quente e entregue essa terça com o capricho que ela merece. A semana engatou. Segue viagem.

A Banca · XaplinEditorial · Caco DamascenoEd. 07 · 02
A Banca · XaplinEditorial · Caco DamascenoEd. 07 · 02
A BANCAGiro do Dia · as editoriasp. 03
A BANCAGiro do Dia · as editoriasp. 03
Giro do Dia

Do mínimo de 2027 à Caatinga na Mongólia

Salário projetado pro ano que vem, Pé-de-Meia caindo na conta, crédito pra quem levou o golpe do tarifaço e uma comitiva nordestina do outro lado do planeta — oito notas apuradas, cada uma com o que muda na sua vida já embutido. Sua terça-feira (25) começa por dentro.
A Redação (Giro do Dia)
Economia
Salário mínimo deve chegar a R$ 1.741 em 2027, projeta a Fazenda. O ministro Dario Durigan anunciou ontem, segunda-feira (24), que a estimativa entrará no Projeto de Lei Orçamentária Anual, a ser enviado ao Congresso até 31 de agosto. São R$ 120 a mais que os atuais R$ 1.621 — alta de 7,4% — e R$ 24 acima da previsão feita em abril na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Guarde o detalhe: por enquanto é projeção. O número de verdade só se firma com o Orçamento votado — então segure a calculadora mais um pouco.
Educação
Pé-de-Meia começou a pagar a quinta parcela de frequência. Estudantes do programa que registraram pelo menos 80% de presença nas aulas entre maio e junho começaram a receber o incentivo ontem (24). A poupança existe pra segurar o jovem na escola até o fim do ensino médio. Se você é beneficiário — ou tem um em casa —, confira a conta: o depósito já está caindo, e é a presença em sala de agora que garante as parcelas que vêm depois.
Direitos
Justiça do Rio concedeu 43% mais medidas protetivas a mulheres em 2026. Entre janeiro e julho, foram 57.498 medidas de urgência em todo o estado, contra 40.201 no mesmo período de 2025, segundo o Observatório Judicial de Violência contra a Mulher, do Tribunal de Justiça fluminense. O dado carrega um recado concreto: o pedido de proteção está sendo atendido. Se você vive uma situação de violência — ou conhece quem viva —, o caminho da medida protetiva está aberto e a Justiça do estado vem respondendo.
Empresas
Crédito de R$ 13,5 bilhões pra atingidos pelo tarifaço sai do papel. O Conselho Interministerial do Plano Brasil Soberano publicou ontem (24), no Diário Oficial da União, a resolução que define como serão distribuídas as linhas de crédito pra empresas afetadas pelas tarifas dos Estados Unidos e pela instabilidade internacional. O pacote havia sido anunciado em julho e esperava a regulamentação pra andar. Se a sua empresa exporta e sentiu o baque, o dinheiro agora tem regra pra chegar.
Campo
Renegociar dívida rural ficou mais fácil. O Conselho Monetário Nacional aprovou ontem, segunda-feira (24), resolução que flexibiliza o uso dos recursos obrigatórios de bancos e cooperativas de crédito pra quitar ou reduzir débitos contratados originalmente em outras fontes de financiamento. A medida destrava a renegociação especial autorizada pela Medida Provisória 1.376/2026, em vigor desde o fim de julho. Produtor endividado: vale voltar ao gerente ou à cooperativa e perguntar de novo — a resposta pode ter mudado.
Governo
Compra pública agora pode passar por plataforma de comércio eletrônico. Decreto assinado ontem (24) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva regulamenta o uso dessas plataformas nas compras federais de bens e serviços padronizados e cria as bases do Sistema de Compras Expressas, o Sicx. A promessa é contratação mais rápida e participação simplificada das empresas. Se o seu negócio já vende em plataforma digital, vender pro governo acaba de ficar um degrau mais perto.
Eleições
SBPC cobra compromisso com a ciência de quem quer governar seu estado. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência convidou os candidatos a governador a assumir compromissos com ciência, tecnologia e inovação nas eleições de 2026. "Qual será o lugar da ciência no seu projeto de governo?", pergunta a presidente da entidade, Francilene Garcia. A iniciativa integra o Observatório das Eleições 2026, que reúne propostas da comunidade científica. Pra você, eleitor, é mais uma régua pública pra medir candidato antes de outubro.
Clima
Nordeste atravessa o mundo atrás de investimento pra Caatinga. Representantes do Consórcio Nordeste, que reúne os nove estados da região, estão em Ulaanbaatar, na Mongólia, em busca de recursos pra projetos de segurança hídrica, transição energética e restauração do bioma, durante a última semana da COP17 — a conferência da ONU de combate à desertificação. Se você vive no semiárido, é do seu reservatório e da sua conta de luz que essa comitiva está tratando do outro lado do planeta.
Da redação
Como este Giro é feito. Todas as notas acima foram verificadas nesta terça-feira, 25 de agosto de 2026, contra o noticiário de fontes oficiais e de imprensa — nesta edição, Agência Brasil e Folha de S.Paulo. Nota sem fato confirmado não entra: preferimos uma página mais enxuta a uma manchete inventada. Achou algo estranho? Escreva pra redação, que a gente confere de novo.
A Banca · XaplinGiro do Dia · da redaçãoEd. 07 · 03
A BANCAPsicologia de Botequimp. 04
A BANCAPsicologia de Botequimp. 04
Psicologia de Botequim

A conta que você refaz de madrugada

Tem uma matemática que só se pratica de luz apagada: você deita, fecha o olho e os números chegam. Aluguel, luz, a parcela do celular, o que entra no dia dez. Você soma de novo, como quem espera que os números tenham mudado de ideia desde a última soma. Almô Caboclo conhece essa aritmética faz tempo — do balcão e da própria vida. Quem arremata a prosa, como manda a casa, é a Dra. Beatriz Setubal — e ela pergunta o que continua somando depois que a coluna acaba.
por Almô Caboclo · com a supervisão da Dra. Beatriz Setubal

Quinta-feira à noite entrou aqui uma moça de uns quarenta anos, uniforme de farmácia, crachá virado do avesso, e pediu um café que ficou esfriando do lado do celular. Ela abriu a calculadora e digitou, apagou, digitou de novo. Eu enxugava copo e fazia de conta que não via, que é a etiqueta da casa. Na terceira rodada eu já sabia o que ela ainda não tinha percebido: quando a pessoa refaz a mesma conta três vezes, o problema não mora na conta. Número é teimoso, repete o mesmo resultado por educação. O que a pessoa está tentando mudar é outra coisa, uma que calculadora nenhuma alcança.

Porque a conta de madrugada nunca é sobre o número — é sobre a pergunta que mora embaixo dele. “Eu dou conta?” é o que você digita de verdade quando soma boleto às três da manhã. Em algum ponto do caminho alguém te ensinou que fechar o mês é atestado de caráter, e que não fechar é defeito de fabricação seu, nunca do preço das coisas. Aí você passa a medir o próprio valor na régua do saldo — que é como medir febre com régua: sai um número, só que do instrumento errado.

Dinheiro que falta aperta o bolso. Vergonha de faltar aperta o peito — e das duas, só a segunda cobra juros a vida inteira.

Eu rodei de aplicativo por uns bons anos e fazia essa conta no farol. Somava as corridas do dia com o carro parado e a cabeça trabalhando em dobro. Chegava na quitinete em Diadema, o Édipo me esperando na janela com aquela cara de quem nunca pagou boleto, e eu ainda conferia o total do aplicativo antes de dormir, como se o número fosse crescer de tanto ser olhado. Descobri depois que o que me cansava não era rodar doze horas. Era rodar doze horas com medo. Cansaço com medo dentro pesa o dobro e não sai com sono — sai com conversa, e olhe lá.

E a conta secreta tem essa crueldade: ela isola. Você não fala que está apertado porque acha que é o único da mesa que não fechou o mês — e na mesa inteira cada um está fazendo a mesma soma escondido, convencido de que o vizinho prosperou. O Freud, nas Cinco Lições, insiste numa ideia de que o sofrimento se agarra ao que ficou sem lugar pra ser dito. Li faz tempo, traduzo do meu jeito, mas o balcão confirma essa página toda noite: aperto dividido não vira dinheiro, mas vira metade do peso. E metade do peso, em certas madrugadas, é a diferença entre dormir e somar.

A moça da farmácia terminou o café já frio e, sem que eu perguntasse, contou que a filha tinha pedido tênis novo e que ela ia dar um jeito. Eu disse que dar um jeito é ofício antigo e digno, e que ninguém é obrigado a exercê-lo sozinho às três da manhã. Ela riu pela metade, que é o riso de quem entendeu mas ainda não acredita. Pagou, guardou o celular sem abrir a calculadora, ajeitou o crachá pro lado certo e disse que amanhã voltava. O balcão não fecha o boleto de ninguém — mas tem noite em que ele fecha uma soma que a pessoa vinha carregando aberta há semanas.

A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta na bandeja, junto com o troco: na última vez que você refez a conta de madrugada, o que estava tentando fazer fechar — o mês, ou a suspeita de que você vale o que sobra no saldo?

A Banca · XaplinPsicologia de Botequim · Almô CabocloEd. 07 · 04
A Banca · XaplinPsicologia de Botequim · Almô CabocloEd. 07 · 04
A BANCAServe Pra Você · utilidade públicap. 05
A BANCAServe Pra Você · utilidade públicap. 05
Serve Pra Você

Recorte, cole na geladeira: esta página atende mesmo fora do horário comercial

Os oito números que merecem morar na porta da geladeira, o que o ar mais seco do ano cobra do seu nariz e da sua garrafa d'água, o desconto na conta de luz que talvez já seja seu — e três golpes que morrem com dez segundos de desconfiança.
por A Redação · serviço ao leitor

Oito números pra saber de cor

190
Polícia
Militar
192
SAMU
Ambulância
193
Corpo de
Bombeiros
199
Defesa Civil
(risco/desastre)
180
Central de
Atend. à Mulher
100
Direitos
Humanos
188
CVV · apoio
emocional 24h
156
Serviços da
Prefeitura

Todos atendem de qualquer telefone, sem custo. O 156 muda de figura conforme a cidade — em algumas atende dia e noite, em outras só em horário comercial; vale descobrir como funciona na sua antes de precisar.

Saúde · o ar mais seco do ano pede soro, água e paciência

Nariz que sangra do nada: no fim do inverno o ar chega ao ponto mais seco do ano, e a mucosa do nariz é a primeira a reclamar. Soro fisiológico nas narinas duas ou três vezes ao dia mantém a região úmida e custa menos que um cafezinho. Se sangrar, sente-se, incline a cabeça levemente para a frente — nunca para trás — e aperte a parte mole do nariz por uns dez minutos, sem soltar para espiar. Estancou, siga o dia; voltou a sangrar no mesmo dia ou o episódio vira rotina, procure a UBS. Sangramento forte depois de pancada na cabeça é caso de 192.

A garrafa d'água é ferramenta de trabalho: quem passa o dia na rua, no balcão ou no volante perde mais água do que percebe com o ar seco. Urina escura e dor de cabeça no fim da tarde são os avisos clássicos de que faltou reposição — e café, por melhor que seja, não entra nessa conta. Deixe a garrafa cheia à vista logo cedo: o gesto de encher já é metade do lembrete. Fruta cheia de água — laranja, tangerina, melancia — também trabalha a seu favor.

A primavera avisa antes de chegar: quem tem rinite ou asma sabe que setembro costuma cobrar caro. O fim de agosto é a hora de agir com calma: agende a consulta de rotina na UBS pra revisar a receita da bombinha antes da floração e adote a lavagem nasal com soro como hábito, não como socorro. Aproveite a ida ao posto pra abrir a caderneta de vacinação — ela não é documento só de criança: o reforço contra o tétano, por exemplo, vale por dez anos, e quase todo adulto esqueceu quando tomou o seu.

Direitos · a conta de luz merece a sua desconfiança educada

Confira antes de pagar: o número que importa está no medidor, não no boleto. Compare a leitura impressa na conta com a que o relógio da sua casa mostra — se a diferença for grande, ligue na central da distribuidora, conteste e anote o protocolo. E guarde esta regra do Código de Defesa do Consumidor: quem paga uma cobrança indevida tem direito a receber de volta em dobro, com correção. Não é gentileza da empresa; é lei desde 1990.

O desconto que talvez já seja seu: família inscrita no CadÚnico pode ter direito à Tarifa Social de Energia, desconto aplicado direto na conta de luz. A inclusão de quem cumpre o critério é automática, mas cadastro desatualizado derruba o benefício sem avisar. Pegue uma conta recente e procure a linha que menciona a tarifa social; se ela não aparece e a renda da casa cabe na regra, ligue pra distribuidora com o NIS em mãos e pergunte. O CRAS do seu bairro atualiza o CadÚnico de graça — leve documento de todo mundo da casa e um comprovante de endereço.

Corte tem regra, não é castigo: a distribuidora só pode suspender o fornecimento por falta de pagamento depois de avisar com antecedência — e não pode cortar em sexta-feira, fim de semana, feriado ou véspera de feriado, justamente porque nesses dias você não consegue resolver nada. Se o corte veio fora dessas condições, ligue, registre protocolo e exija a religação: o erro é deles, e o custo de consertar também.

Bolso · três golpes que morrem com dez segundos de desconfiança

O falso parente do número novo: chega mensagem no WhatsApp — "mãe, troquei de chip" — e logo atrás um pedido de dinheiro urgente. A defesa cabe num gesto: ligue para o número antigo da pessoa antes de qualquer Pix. Se quiser blindar de vez, combine em família uma palavra-chave que só vocês conhecem. Pressa é a matéria-prima do golpista; quem exige que você decida em um minuto está dizendo quem é.

O boleto que veste fantasia: boleto falso imita papel timbrado, logotipo e até o valor exato da sua dívida. O disfarce cai num único lugar: a tela do banco na hora de pagar, que mostra o nome de quem vai receber. Se o beneficiário não é a empresa com quem você tem conta, pare ali. Boleto que chegou por e-mail ou WhatsApp merece conferência no aplicativo ou no site oficial da empresa — nunca pelo link da própria mensagem.

O gerente que liga aflito: banco nenhum telefona pedindo senha, código do aplicativo ou "confirmação de segurança" com transferência no meio. Recebeu uma ligação assim, desligue sem culpa e ligue você mesmo para o número impresso no verso do seu cartão. Se o golpe já aconteceu, aja no mesmo dia: comunique o banco, peça o bloqueio dos valores e registre boletim de ocorrência na delegacia eletrônica do seu estado — a rapidez do registro é o que aumenta a chance de o dinheiro voltar.

A Banca · XaplinServe Pra Você · serviço ao leitorEd. 07 · 05
A BANCABola · esporte na Bancap. 06
A BANCABola · esporte na Bancap. 06
Bola

Três estádios acesos na mesma noite, e um clássico mineiro jogando pelo ano inteiro

Cruzeiro e Atlético-MG entram em campo às 21h, no Mineirão, pelas quartas de final da Copa do Brasil — duelo que a imprensa já descreve como a chance de os dois salvarem a temporada. Antes, às 19h30, a Série B encerra a 24ª rodada em Goiânia e em Caxias do Sul, onde o Juventude pode dormir líder pela primeira vez. E ainda tem a segunda-feira pra digerir: Botafogo 2, Athletico-PR 3, no Nilton Santos. Mauro Fontoura gira o dial e conta o que cada frequência promete.
por Mauro Fontoura · Bola · esporte na Banca

Dia de clássico a gente reconhece de manhã, antes de qualquer escalação. Em Diamantina, quando o assunto era Cruzeiro e Atlético, meu avô economizava as pilhas do rádio desde o café — ninguém ligava o aparelho à toa num dia daqueles, porque a noite ia precisar dele inteiro. Hoje a transmissão cabe no bolso, mas a régua continua a mesma: existe jogo que se assiste e existe jogo que se espera o dia todo. Esta terça-feira tem dos dois tipos, espalhados por três estádios e duas divisões.

O prato principal sobe ao Mineirão às 21h (de Brasília): Cruzeiro x Atlético-MG, início da disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil, pelas quartas de final, com transmissão de sportv e Premiere. O ge confirma data, horário e palco; a CNN Brasil resume o tamanho do encontro sem rodeio — o clássico virou “oportunidade de título para a dupla mineira”, a via mais curta para dar sentido a 2026. Não é pouco. Mata-mata entre vizinhos de quarteirão não distribui prêmio de consolação: um segue vivo na briga pela taça, o outro fica com o resto do calendário e o espelho.

“Salvar ano” — a expressão é da CNN Brasil, e diz o que Cruzeiro e Atlético-MG disputam nesta noite além da vaga: a versão que cada torcida vai poder contar da própria temporada.

Enquanto Minas prende a respiração, o Rio ainda digere a segunda-feira. No Nilton Santos, pela 24ª rodada do Brasileirão, o Botafogo viu o Athletico-PR abrir 3 a 0 — dois gols do Furacão saíram em 15 minutos de primeiro tempo, segundo o ge — e reagiu tarde: Santi Rodríguez marcou os dois do alvinegro, e o placar fechou em 2 a 3. Viveros, duas vezes, e João Cruz fizeram os do time paranaense, que agora está a um ponto do Flamengo e da vice-liderança. Sem choro: reação de meia hora não apaga cochilo de quinze minutos. E sem soberba do outro lado: quem abre três gols e quase deixa escapar também leva lição de casa na mala.

Na Série B, a 24ª rodada se encerra nesta terça com dois jogos às 19h30, e um deles tem cheiro de estreia. No Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, o Juventude recebe o CRB podendo assumir a liderança da Série B pela primeira vez, segundo o ge: com a derrota do Criciúma na rodada, uma vitória leva o time gaúcho a 45 pontos e ao topo. Os donos da casa vêm de vitória sobre o Goiás fora de casa; o CRB conta com a volta do lateral Lucas Lovat. Já no Antônio Accioly, em Goiânia, Atlético-GO e Botafogo-SP chegam separados por dois pontos, em confronto direto. O Dragão soma 33, não vence há três jogos — empates com Náutico e Londrina, derrota para o Vila Nova — e precisa do resultado para voltar a pensar em G-6.

Você que pega o transporte cedo talvez só alcance o segundo tempo de tudo isso — e está bem assim. Futebol de terça-feira é generoso com quem chega atrasado: o resumo de amanhã existe, mas a voz do locutor no fone, no trecho final do trajeto, ainda é o jeito mais bonito de descobrir um placar. Meu avô dizia que jogo grande não pede televisão, pede imaginação e uma antena honesta. A desta página está apontada para o Mineirão, para o Jaconi e para o Accioly. Amanhã a Banca confere tudo — com fonte, como sempre, e sem inventar um gol sequer.

Bola · a agenda confirmada da terça
Três jogos, dois campeonatos, uma noite só

19h30 · Série B (24ª rodada): Atlético-GO x Botafogo-SP, no Antônio Accioly, em Goiânia; e Juventude x CRB, no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul — o Juventude pode assumir a liderança pela primeira vez. 21h · Copa do Brasil (quartas de final): Cruzeiro x Atlético-MG, no Mineirão, com transmissão de sportv e Premiere. Fontes: ge e CNN Brasil, com horários e palcos confirmados. O que a Banca faz: publica os resultados amanhã com fonte verificável — placar aqui só entra depois que a bola parar de rolar.

A Banca · XaplinBola · Mauro FontouraEd. 07 · 06
A Banca · XaplinBola · Mauro FontouraEd. 07 · 06
A BANCAPanelão · Cozinhap. 07
A BANCAPanelão · Cozinhap. 07
Panelão

A feijoada enxuta que atravessa o fim do mês

Fim de agosto tem duas certezas: o frio ainda dá as caras de manhã cedo e o dinheiro do mês já anda de muletas. É pra esse encontro que existe a feijoada enxuta — a prima trabalhadora da feijoada completa, que não pede meia dúzia de carnes nem preparo de véspera, só feijão-preto, calabresa, bacon e uma costelinha que o açougueiro corta na hora. O caldo engrossa igual, a casa cheira igual, a mesa junta gente igual. De grão em grão, a família enche o prato: são dez porções fartas numa panela só, com direito a repeteco e a marmita de amanhã. Se alguém torcer o nariz porque não tem orelha nem rabo, sirva mais uma concha e mude de assunto. Aqui ninguém julga, aqui a gente cozinha.
por Panelão · da cozinha da Banca

Bolso · onde essa panela economiza

A feijoada de restaurante carrega meia dúzia de carnes que encarecem sem mudar o fundamento do prato: feijão bem cozido e gordura defumada dando liga. A versão enxuta fica com o essencial. O bacon abre o caminho — a gordura dele refoga a cebola, tempera a couve e dispensa qualquer caldo pronto. A calabresa é o embutido mais fácil de achar em qualquer açougue ou mercadinho e segura o defumado do começo ao fim. A costelinha suína, vendida em tiras, sai por menos que os cortes nobres e solta um colágeno que engrossa o caldo de um jeito que nenhum truque imita. O paio entra se aparecer; se não aparecer, ninguém sente falta na segunda concha. E o feijão-preto rende como poucos grãos: um quilo vira panela cheia, caldo pra molhar o arroz da semana e um prato que amanhã estará melhor do que hoje — porque feijoada dorme pra acordar mais gostosa.

Feijoada enxuta de fim de mês · rende 10 porções

Tempo: 1h40 (com panela de pressão) · Dificuldade: média · Custo: baixo
  • 1 kg de feijão-preto escolhido e lavado
  • 300 g de linguiça calabresa em rodelas grossas
  • 250 g de bacon em cubos
  • 400 g de costelinha suína em tiras (peça ao açougueiro pra cortar entre os ossos)
  • 1 gomo de paio em rodelas (se tiver — sem ele a feijoada segue firme)
  • 2 cebolas grandes picadas
  • 6 dentes de alho amassados
  • 3 folhas de louro
  • 1 colher de sopa de óleo (só se o bacon for magro demais)
  • sal e pimenta-do-reino a gosto — prove antes, as carnes já salgam
  • 1 maço de couve fatiada fininha, pra acompanhar
  • 2 laranjas em gomos, sem a parte branca
  • farinha de mandioca pra uma farofa simples
  • arroz branco soltinho pra servir por baixo
  1. Cozinhe o feijão: se lembrou na véspera, deixe os grãos de molho — cozinham mais rápido e mais parelho. Se não lembrou, siga sem culpa: na panela de pressão, cubra o feijão com água até uns quatro dedos acima dos grãos, junte o louro e cozinhe por 25 minutos depois que pegar pressão. Espere o vapor sair sozinho antes de abrir.
  2. Doure as carnes: enquanto o feijão trabalha, leve o bacon a uma panela larga em fogo médio, sem óleo nenhum. Quando soltar gordura e dourar, junte a calabresa, o paio e a costelinha e deixe tudo pegar cor por uns 8 minutos, virando de vez em quando.
  3. Refogue a base: afaste as carnes pra beirada e ponha a cebola nessa mesma gordura até murchar — uns 4 minutos. Entre com o alho e mexa por 1 minuto, raspando o fundo da panela: aquele dourado agarrado é tempero, não sujeira.
  4. Junte os mundos: despeje o feijão cozido com todo o caldo sobre as carnes e cozinhe em fogo baixo, panela meio tampada, por 30 a 40 minutos, mexendo de tempos em tempos pra nada agarrar. A costelinha vai amaciar até soltar do osso.
  5. Engrosse o caldo: retire uma concha de grãos, amasse com o garfo e devolva à panela. Só agora prove o sal — bacon e calabresa já fizeram a parte deles, e sal cedo demais em feijoada é arrependimento sem volta.
  6. Arme os acompanhamentos: na frigideira que dourou o bacon, refogue a couve em fogo alto por 2 minutos, só até brilhar. Toste a farinha de mandioca numa colher da gordura que sobrou, com uma pitada de sal, e a farofa está pronta. Laranja em gomos ao lado — ela corta a gordura e refresca a boca entre uma garfada e outra.
  7. Sirva na tijela grande: feijoada não combina com prato raso. Leve a panela ou uma tijela funda pro centro da mesa, arroz por baixo, concha generosa por cima, e deixe cada um se resolver. O que sobrar vira a marmita de amanhã — e amanhã ela volta ainda melhor, porque essa é das raras panelas que melhoram dormindo.
A Banca · XaplinPanelão · da cozinhaEd. 07 · 07
A BANCAEconomia Domésticap. 08
A BANCAEconomia Domésticap. 08
Economia Doméstica

R$ 120 a mais no mínimo de 2027: a promessa já tem número, falta atravessar o Congresso

O ministro da Fazenda pôs ontem um valor novo na mesa: salário mínimo de R$ 1.741 em 2027. Entre o anúncio e o contracheque existe um caminho inteiro — e conhecer esse caminho é o que separa quem planeja de quem apenas espera.
por A Redação · o bolso do leitor

O número: R$ 1.741 — anunciado, projetado, ainda não pago

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ontem, segunda-feira (24), que o salário mínimo deverá subir para R$ 1.741 em 2027. São R$ 120 acima dos atuais R$ 1.621, um reajuste de 7,4%. A estimativa entra no Projeto de Lei Orçamentária Anual, o PLOA, que o governo envia ao Congresso Nacional até 31 de agosto.

Repare no verbo do anúncio: "deverá". Projeção de orçamento não é dinheiro na conta — é o número com que o governo pretende trabalhar no ano que vem. O PLOA é exatamente isso, um projeto de lei: o governo propõe, o Congresso examina, e só do outro lado dessa travessia o valor vira salário.

E o número já se moveu uma vez neste ano. Em abril, no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a estimativa era de R$ 1.717. A projeção de agora veio R$ 24 acima. No papel, parece troco; no orçamento de quem vive de mínimo, nenhum real é figurante — e é por isso que essa diferença merece ser acompanhada até a votação, não esquecida depois da manchete.

O que fazer com um aumento que ainda não chegou

A primeira regra do bolso é antiga e continua de pé: dinheiro anunciado não se gasta. Reajuste projetado para 2027 não paga boleto de 2026. Quem assume parcela nova hoje contando com salário de depois de amanhã está emprestando a si mesmo um dinheiro que ainda não existe — e paga sozinho a diferença quando o mês fecha no vermelho.

O anúncio serve, isso sim, de régua de planejamento. Faça a conta simples: se o seu orçamento não fecha com R$ 1.621, é bom saber desde já que R$ 120 a mais, sozinhos, também não fecham. O intervalo até 2027 é o tempo que você tem para ajustar o que depende de você — o gasto que pode ser cortado, a conversa que pode ser puxada com o credor — em vez de esperar que o contracheque resolva tudo por conta própria.

Vale o ditado, entortado de propósito: quem conta com dinheiro prometido perde o prometido e a conta. O reajuste pode vir inteiro, pode vir mexido pelo Congresso. Planeje com o salário que existe; se o novo chegar como anunciado, encontra a casa arrumada — e aí vira folga, não tapa-buraco.

R$ 13,5 bilhões para empresas — e por que isso interessa a quem é empregado

O governo federal definiu como serão aplicados os R$ 13,5 bilhões em linhas de crédito do Plano Brasil Soberano, destinados a empresas afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos e pelos impactos de conflitos e da instabilidade internacional. A resolução que detalha a distribuição dos recursos foi publicada ontem, segunda-feira (24), no Diário Oficial da União, pelo Conselho Interministerial do plano.

O pacote tinha sido anunciado em julho e esperava a regulamentação para andar. Crédito para empresa parece assunto de outro andar, mas não é: a exportadora atingida por tarifa, a indústria pressionada pela instabilidade lá fora — tudo isso é, na ponta, o lugar onde alguém bate cartão. Quando a empresa atravessa turbulência, a régua do mês de quem trabalha nela balança junto.

Se o seu emprego está numa empresa que exporta ou depende do mercado internacional, o dado de ontem é menos abstrato do que parece: existe agora um instrumento regulamentado, com valor definido e distribuição publicada em Diário Oficial. Saber se a empresa onde você trabalha cabe nesse desenho não é curiosidade de noticiário — é informação sobre o chão em que você pisa.

Braskem: o que uma dívida de bilhões ensina sobre a dívida do boleto

A Braskem, maior petroquímica da América Latina, pediu recuperação extrajudicial — carregando dívidas de R$ 56 bilhões, a empresa busca reestruturação financeira depois que expirou o prazo de proteção contra credores. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo classificaram o movimento como um "pedido de socorro": uma solução tampão, que resolve o problema imediato de caixa, mas não a origem da crise.

Guardadas as proporções — e aqui são bilhões delas —, a mecânica é a da mesa da cozinha. A avaliação dos especialistas é que o acordo compra tempo, sem ser a solução definitiva: a empresa vive a tensão entre o alívio de curto prazo e a sustentabilidade no futuro. Troque "empresa" por "família" e a frase continua verdadeira, palavra por palavra.

Se você tem um acordo de dívida em andamento, a pergunta que a Braskem coloca é a sua também: o que está sendo feito com o tempo que o acordo comprou? Renegociação que não muda o fluxo do mês é fôlego, não travessia. A boa notícia é que, na escala da cozinha, a origem da crise costuma caber numa folha de papel — e o que cabe no papel você consegue enxergar, decidir e mudar. É por aí que o boleto grande de hoje vira o boleto pago de amanhã.

A Banca · XaplinEconomia Doméstica · da redaçãoEd. 07 · 08
A BANCAO Recadop. 09
A BANCAO Recadop. 09
O Recado

A carta de hoje é a Temperança: ninguém acerta a mistura despejando tudo de uma vez

O oráculo desta casa não adivinha nada — e faz questão de não adivinhar. No fechamento desta edição, a redação tirou o símbolo do dia de um baralho que a Europa embaralha desde o século XV e que o Brasil aprendeu a ler do seu jeito, na mesa da benzedeira e na banquinha de feira. Saiu a Temperança. Uma carta só, tirada uma única vez, valendo pra todo leitor que abrir esta página. O que vem a seguir não é futuro: é o que a figura diz a quem para diante dela por um minuto inteiro.
por O Recado · da casa

De todas as figuras que podiam aparecer na madrugada desta terça, veio a mais discreta do baralho: uma criatura de asas, sem pressa nenhuma, despejando água de um jarro no outro. Não corta nada, não gira roda, não derruba torre. Só transfere, com cuidado, o que está de um lado pro outro lado — sem perder pelo caminho. Há quem ache pouco. É porque nunca tentou.

Você acorda às cinco da manhã de uma terça de agosto e a semana já mordeu o primeiro pedaço: a segunda-feira passou por cima, o resto do mês espera na fila, e tem gente querendo que você entregue até quinta o que só pediu na sexta. A carta olha pra essa cena e pergunta baixinho: em que velocidade você está se despejando? Porque água boa, entornada de uma vez, vira só chão molhado.

"Devagar com o andor, que o santo é de barro." — ditado de tradição oral brasileira, lido hoje ao lado da carta.

Quem cresceu na igreja conhece a temperança pelo nome de batismo: é uma das quatro virtudes cardeais, irmã da prudência, da justiça e da fortaleza — e, das quatro, a mais caseira. Quem é do terreiro reconhece o gesto na quartinha: água servida com calma, vasilha tratada com respeito, porque ali o sagrado mora no cuidado, não na quantidade. Quem medita sabe pela respiração, que só acalma quando ninguém a apressa. E quem não carrega fé nenhuma aprendeu no fogão: fogo alto queima por fora e deixa cru por dentro.

Repare que a carta não manda fazer menos. Manda fazer na medida — que é coisa muito diferente de preguiça e ainda mais diferente de pressa. Medida é saber quanto do seu dia cabe em cada hora dele, quanto de você cabe em cada conversa, quanta verdade cabe de uma vez na orelha de quem ouve. O jarro certo na inclinação certa: nem tão fechado que nada saia, nem tão virado que tudo se perca.

Pro dia de hoje, três cuidados práticos. Se o expediente exigir tudo ao mesmo tempo, despeje por partes: o que não coube de manhã não evaporou, só mudou de jarro. Se alguém gritar com a sua água pra ela correr mais depressa, lembre que isso nunca funcionou — o líquido tem lá seus prazos e não reconhece chefia. E se hoje for você quem carrega a pressa, repare se não anda sacudindo o andor de alguém que é de barro e vinha indo tão bem.

Ninguém aplaude a medida certa, e talvez essa seja a parte mais bonita. O café que não derramou não vira história, a conversa que não azedou não rende comentário, o dia atravessado sem estrago não sai no jornal — nem neste. A Temperança é a padroeira de tudo o que deu certo em silêncio. O mundo se sustenta nisso, e o mundo raramente agradece.

Bom dia. Que a sua terça caiba inteira no seu jarro — sem faltar um gole, sem derramar uma gota à toa.

A Banca · XaplinO Recado · da casaEd. 07 · 09
A Banca · XaplinO Recado · da casaEd. 07 · 09
A BANCAAlmanaque · efemérides e sortep. 10
A BANCAAlmanaque · efemérides e sortep. 10
O Almanaque

Fim de agosto: o tal mês do desgosto sai devendo uma retratação

Chamam agosto de mês do desgosto. A última semana dele, porém, carrega um sonho dito em voz alta diante de 250 mil pessoas, uma moça de dezoito anos inventando um monstro imortal e uma palavra de liberdade repetida sete vezes num estádio. Você, que segura o dia pelo colarinho antes das seis, confira a folhinha — e decida de que lado do ditado prefere ficar.

A Redação · almanaque

A semana tem memória

22 ago
Dia do Folclore — instituído por decreto federal em 1965 para guardar o que o povo conta quando ninguém está anotando: saci, curupira, boitatá, mula sem cabeça. Antes de existir pesquisa de opinião, era assim que o Brasil explicava o Brasil.
26 ago
Dia da Igualdade Feminina — lembra 26 de agosto de 1920, quando a 19ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos entrou oficialmente em vigor e garantiu o voto às mulheres do país. Décadas de marchas, prisões e abaixo-assinados para conquistar o que já devia ter vindo de fábrica.
27 ago
Dia do Psicólogo — no Brasil, a data marca a lei de 1962 que regulamentou a profissão. Sessenta e tantos anos depois, falar do que dói deixou de ser luxo: virou cuidado, e o divã, aos poucos, virou assunto de mesa de café.
28 ago
Em 1963, diante do Lincoln Memorial, em Washington, Martin Luther King Jr. disse “eu tenho um sonho” a cerca de 250 mil pessoas na Marcha sobre Washington. O discurso virou marco da luta pelos direitos civis — e prova de que palavra dita na hora certa move mais do que trator.
31 ago
Independência da Malásia — em 1957, a Federação Malaia encerrou o domínio britânico. No estádio de Kuala Lumpur, o primeiro-ministro Tunku Abdul Rahman gritou “Merdeka” — liberdade — sete vezes, e a multidão respondeu todas. Há palavras que não cansam.

Aniversariantes da reta final

24 ago
Jorge Luis Borges (1899) — escritor argentino nascido em Buenos Aires que fez do labirinto, do espelho e da biblioteca infinita a mobília da literatura do século XX. Em Ficções (1944) coube mais mundo do que em muito atlas. Perdeu a visão na mesma época em que assumiu a direção da Biblioteca Nacional argentina — e anotou em verso (1960) a ironia de receber, de uma vez, os livros e a noite.
25 ago
Leonard Bernstein (1918) — o aniversariante do dia nasceu em Lawrence, nos Estados Unidos, e nunca escolheu entre reger, compor e ensinar: fez os três de uma vez. É dele a música de West Side Story (1957) e uma série de concertos didáticos na televisão que convenceu uma geração inteira de que sinfonia não morde.
28 ago
Johann Wolfgang von Goethe (1749) — nascido em Frankfurt, escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) antes dos 25 e passou cerca de seis décadas lapidando o Fausto, terminado pouco antes de morrer. Existe pressa que rende — e existe obra que só fica pronta quando a vida inteira couber dentro dela.
29 ago
Michael Jackson (1958) — nascido em Gary, Indiana, subiu ao palco ainda menino, ao lado dos irmãos, e virou o artista pop mais reconhecível do planeta. Thriller (1982) segue citado como o álbum mais vendido da história — e o moonwalk, apresentado ao grande público em 1983, ainda faz gente de meia escorregar no corredor de casa achando que consegue.
30 ago
Mary Shelley (1797) — londrina, tinha dezoito anos quando, num verão chuvoso à beira do lago Léman, topou um desafio de contar histórias de assombração e começou Frankenstein (1818). O monstro dela não assusta pela costura: assusta porque foi abandonado. Dois séculos depois, o livro segue lembrando quem fundou a ficção científica moderna — uma moça que mal saíra da escola.
31 ago
Maria Montessori (1870) — uma das primeiras mulheres a se formar em medicina na Itália, trocou a segurança do consultório pela aposta de que criança aprende melhor quando a escola respeita o tamanho dela. O método que carrega seu nome atravessou o século e segue abrindo escolas mundo afora.

Sorte e dito, doses de terça

Sorte
Os números de hoje saíram do chapéu da redação: 04, 13, 26, 38, 52 e 57. Cientificamente, valem o mesmo que quaisquer outros; sentimentalmente, são imbatíveis. Joga pouco, joga rindo — e nunca, em hipótese alguma, o dinheiro do arroz.
Dito
“Agosto, mês do desgosto”, ensina o povo. A semana aí de cima desmente com fatos. Fica o empate honesto — e a lembrança de que ditado é bússola de bolso, não sentença de juiz.
A Banca · XaplinO Almanaque · da casaEd. 07 · 10
A BANCAVidas · gente que valeu a penap. 11
A BANCAVidas · gente que valeu a penap. 11
Vidas · perfil da semana

Zilda Arns faria 92 anos nesta terça — a pediatra que enfrentou a mortalidade infantil com uma balança, uma colher e a vizinha da porta ao lado

Ela nasceu em 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha, no sul de Santa Catarina, e morreu em 12 de janeiro de 2010, no Haiti, minutos depois de explicar a uma plateia de religiosos como se cuida dos pequenos. Entre uma data e outra, fundou a Pastoral da Criança e provou uma tese que a medicina cara demorou a aceitar: contra a morte de crianças, o remédio mais potente é gente comum treinada para cuidar de gente comum. Na semana do aniversário dela, a Banca conta essa vida.
por A Redação · perfil

Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, cidade pequena do sul catarinense, numa família numerosa de descendentes de imigrantes alemães — casa cheia, mesa comprida, trabalho cedo. Formou-se em medicina pela Universidade Federal do Paraná em 1959, num tempo em que mulher de jaleco ainda era recebida nas enfermarias com a sobrancelha erguida. Escolheu a pediatria e depois a saúde pública, e fez carreira no serviço de saúde do Paraná cuidando do que não dá manchete: vacina, posto, prontuário, fila. Foi ali que aprendeu a desconfiar de solução grandiosa e a respeitar o que funciona no chão.

O ponto de virada tem cara de recado de família. No começo dos anos 1980, James Grant, então diretor-executivo do Unicef, sugeriu a Dom Paulo Evaristo Arns — cardeal-arcebispo de São Paulo e irmão de Zilda — que a capilaridade da Igreja podia servir para espalhar conhecimentos simples de sobrevivência infantil. Dom Paulo sabia exatamente a quem entregar o desafio. Em 1983, Zilda montou o projeto-piloto da Pastoral da Criança em Florestópolis, no interior do Paraná, município onde criança demais morria antes de completar um ano.

O método cabia num caderno. Soro caseiro — água limpa, açúcar, uma pitada de sal — contra a desidratação que matava em silêncio. Aleitamento materno defendido sem sermão. Pesagem mensal das crianças, porque balança não mente e curva de peso é alarme que dispara antes da tragédia. E a peça central: líderes voluntárias da própria comunidade, mulheres treinadas para acompanhar as famílias vizinhas, de porta em porta. Zilda não mandou médicos para o povo; formou o povo para depender menos de médicos.

"Para que todas as crianças tenham vida" — o lema que ela foi buscar no Evangelho de João (10,10) e carregou como quem carrega um plano de metas.

A coisa cresceu como cresce o que é fácil de copiar e barato de manter. A Pastoral da Criança se espalhou por comunidades do país inteiro e depois cruzou fronteiras, levada por gente que aprendia o método numa semana e ensinava na seguinte. Nas áreas acompanhadas, os indicadores de mortalidade infantil caíram abaixo da média — resultado que rendeu a Zilda indicações ao Prêmio Nobel da Paz e a certeza, mais valiosa, de que a receita funcionava. Em 2004, ela repetiu a lógica na outra ponta da vida e fundou a Pastoral da Pessoa Idosa, porque velhice também se cuida de perto.

O fim tem a coerência das vidas inteiras. Em 12 de janeiro de 2010, aos 75 anos, Zilda estava em Porto Príncipe, no Haiti, em missão humanitária, falando a lideranças religiosas sobre o cuidado com as crianças — o discurso terminava com a imagem das aves que constroem ninho e alimentam os filhotes. Minutos depois, a terra tremeu e o prédio veio abaixo. Ela morreu trabalhando no assunto da vida dela, a milhares de quilômetros de casa, num país onde as crianças precisavam exatamente de alguém com uma balança e um caderno.

A figura que ficou não tem verniz de heroína: voz baixa, planilha na mão, paciência de quem sabe que estatística se muda em anos, não em discursos. Zilda unia o que raramente anda junto — fé e epidemiologia, reza e curva de crescimento — sem achar que uma dispensava a outra. Não romantizava a pobreza nem a própria obra: contava, media, corrigia. Se um número piorava, a resposta não era comoção; era visita.

Nesta terça-feira, 25 de agosto, Zilda Arns completaria 92 anos. A lição que a vida dela deixa não é de santidade — santidade não se copia, e ela fez questão de criar justamente o que se copia. É outra coisa: confiança em escala. Zilda apostou que uma vizinha treinada, com uma colher de açúcar e uma pitada de sal, podia segurar a vida de uma criança até o posto abrir — e que milhares de vizinhas assim valiam mais do que qualquer promessa de gabinete. Você, que lê a Banca no transporte antes das seis, conhece essa mulher: ela mora na sua rua. Zilda só fez o que os planos grandiosos raramente fazem — reparou nela.

A Banca · XaplinVidas · perfil da semanaEd. 07 · 11
A BANCAOs Cinco Venéreosp. 12
A BANCAOs Cinco Venéreosp. 12
Os Cinco Venéreos

Cinco fatos pra você chegar sabendo antes das oito

A projeção do salário mínimo de 2027 subiu para R$ 1.741, o governo passou a segunda assinando papéis — R$ 13,5 bilhões em crédito e um sistema novo de compras públicas —, o Nordeste foi até a Mongólia pedir investimento pra Caatinga, documentos americanos mostram JK vigiado em plena ditadura, e Cruzeiro e Atlético-MG abrem hoje, no Mineirão, a briga por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.
por Os Cinco Venéreos · da redação
  • O salário mínimo deverá subir para R$ 1.741 em 2027 — R$ 120 a mais que os atuais R$ 1.621, reajuste de 7,4%. Quem cravou o número foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, nesta segunda (24). A estimativa entra no Projeto de Lei Orçamentária Anual, que o governo envia ao Congresso até 31 de agosto, e veio R$ 24 acima dos R$ 1.717 projetados em abril, na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Traduzindo do orçamentês: por enquanto é conta no papel, não dinheiro na mão — o valor final ainda passa pelo Congresso. Mas é esse número que serve de régua pra muita conta da vida real no ano que vem. Anote, guarde e cobre.
  • Saiu no Diário Oficial a resolução que destrava os R$ 13,5 bilhões em crédito do Plano Brasil Soberano para empresas atingidas pelo tarifaço dos Estados Unidos e pela instabilidade internacional. O pacote tinha sido anunciado em julho e esperava exatamente essa regulamentação, publicada nesta segunda (24) pelo Conselho Interministerial do plano. No mesmo dia, decreto assinado pelo presidente Lula regulamentou o uso de plataformas de comércio eletrônico nas compras públicas de bens e serviços padronizados e criou o Sistema de Compras Expressas, o Sicx — a promessa é contratação mais rápida e vida menos burocrática pra quem vende ao governo. Papel publicado é largada, não chegada: o teste verdadeiro é o crédito aparecer na ponta, na empresa que perdeu encomenda pro tarifaço.
  • O Nordeste atravessou o planeta pra defender a Caatinga: representantes do Consórcio Nordeste, que reúne os nove estados da região, estão em Ulaanbaatar, na Mongólia, atrás de recursos na COP17, a conferência das Nações Unidas de combate à desertificação. Na última semana do encontro, a delegação cumpre agenda com organismos financeiros e bancos multilaterais em busca de dinheiro para segurança hídrica, transição energética e restauração do bioma. E a ciência segue batendo na porta da política por aqui também: a SBPC convidou os candidatos a governador a assumir compromissos com ciência, tecnologia e inovação nas eleições de 2026, dentro do Observatório das Eleições. “Qual será o lugar da ciência no seu projeto de governo?”, pergunta Francilene Garcia, presidente da entidade. É pergunta pra levar debaixo do braço até outubro.
  • Sete páginas datilografadas, timbre do Departamento de Estado e marca de confidencial: documentos americanos mostram que Juscelino Kubitschek seguia na mira dos Estados Unidos em plena ditadura. Em 14 de dezembro de 1970, sob o governo Médici, JK foi sabatinado por uma comitiva norte-americana liderada pelo embaixador William Manning Rountree, que relatou as impressões ao governo do seu país. Para historiadores, a atenção tinha motivo: o ex-presidente era visto como liderança relevante caso o Brasil voltasse a se democratizar. A reportagem, publicada nesta terça (25) por g1 e BBC News Brasil, lembra o que arquivo nenhum deixa esquecer: parte da história do Brasil foi anotada em gaveta alheia — e gaveta, cedo ou tarde, abre.
  • Cruzeiro e Atlético-MG abrem nesta terça (25), às 21h de Brasília, no Mineirão, a disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. O clássico chega tratado como a chance de a dupla mineira salvar o ano com um título nacional — tanto que os dois times pouparam jogadores de olho exatamente nesta noite. A transmissão é do SporTV e do Premiere, pra quem acompanha de casa. Nas quartas de final, cada lance já pesa a temporada inteira: se a segunda-feira foi de decisão em Brasília, com canetas e resoluções, a terça é de decisão em Belo Horizonte — e essa, pelo menos, tem hora marcada pra começar.
A Banca · XaplinOs Cinco Venéreos · da redaçãoEd. 07 · 12
A Banca · XaplinOs Cinco Venéreos · da redaçãoEd. 07 · 12
A BANCAPlin-Plin · TVp. 13
A BANCAPlin-Plin · TVp. 13
Plin-Plin

O capítulo de ontem reprisa hoje cedo, de graça, na boca de quem conta melhor que a novela

Nenhuma emissora anuncia, mas a reprise mais assistida do Brasil acontece de manhã: no ponto, na fila, na portaria, alguém reconta o capítulo de ontem com cortes, imitação e opinião inclusa. Quem perdeu a novela não perdeu nada — desde que chegue perto da pessoa certa.
por Plin-Plin · da coluna de TV

Se você dormiu no segundo bloco — e o sofá tem dessas traições com quem acorda às cinco —, o capítulo de ontem não está perdido. O país mantém, há gerações, um sistema de reprise que nenhuma emissora inventou e nenhuma consegue desligar: a pessoa que conta. Ela está no ponto do ônibus, na fila do café, na portaria do prédio, encostada na pia do serviço. Você não precisa procurar. Basta chegar perto e soltar um "e aí, o que houve ontem?" que a sessão começa.

E que sessão. Quem reconta capítulo é editor sem carteira assinada: corta a cena arrastada, pula o núcleo que ninguém aguenta, vai direto ao tapa, à revelação, ao olhar atravessado que a câmera fez questão de demorar. Imita a voz do vilão sem pedir licença. E entrega, de brinde, o que a emissora não fornece: a opinião. O "eu sempre disse que aquele ali não prestava" vem junto, sem custo adicional. O capítulo recontado é mais curto que o original e, com alguma frequência, melhor.

A novela sai pronta do estúdio, mas só termina de ser escrita na conversa — capítulo que ninguém reconta no dia seguinte é capítulo que não aconteceu.

Isso tem nome — cultura oral —, mas ninguém que pratica precisa saber como chama. A TV aberta planta a história à noite; o país rega de manhã, em voz alta. O capítulo vai ao ar uma vez na tela e passa o dia inteiro em reprise de boca em boca, cada versão com um tempero a mais. É o folhetim funcionando como sempre funcionou, desde o tempo em que vinha no jornal e alguém lia em voz alta para a roda ouvir. Trocou-se o papel pela tela; a roda continua exatamente no mesmo lugar.

Repare nas filiais informais dessa rede. O salão de beleza discute a protagonista com a seriedade de um conselho de família. A barbearia tem tese formada sobre o casal que não se acerta desde o primeiro capítulo. O porteiro, que vê tudo — da novela e da vida —, cruza as duas fontes com a autoridade de quem confere. Personagem de novela é debatido como vizinho porque, no fundo, é: entra na sua casa todo dia, no mesmo horário, pontualidade que nem parente sustenta.

E aqui mora a ironia que a televisão entendeu faz tempo: quem conta um capítulo aumenta um ponto. Quem ouve a recontagem no ônibus chega em casa com a curiosidade acesa e liga a TV para conferir se era aquilo mesmo. Era — e não era, porque a versão do colega tinha mais graça. Aí você assiste ao de hoje inteiro, com atenção redobrada, para amanhã ser você a contar. A roda se alimenta sozinha, e ninguém nela cobra cachê.

O telefone até oferece atalho: resumo mastigado, um minuto, tudo pronto. Mas o resumo não discute com você. Não segura o suspense no ponto exato, não faz a pausa de quem sabe o que vem, não responde "calma que tem mais" quando você interrompe. A pessoa que conta administra o silêncio como diretor experiente — e ainda olha nos seus olhos para medir se a revelação fez o efeito devido. Máquina nenhuma aprendeu a medir isso.

Então hoje, nesta terça que começa cedo, faça o teste. Perto de você, no transporte ou no trabalho, existe alguém carregando o capítulo de ontem inteiro na cabeça, esperando só uma deixa. Dê a deixa. Ou, se foi você que viu e o outro que perdeu, assuma o posto: conte com calma, corte a gordura, guarde o tapa para o final. A TV aberta segue sendo do país não porque todo mundo assiste — e sim porque todo mundo reconta. Tela que vira conversa não sai do ar nunca.

A Banca · XaplinPlin-Plin · da coluna de TVEd. 07 · 13
A Banca · XaplinPlin-Plin · da coluna de TVEd. 07 · 13
A BANCATem Programa · Joaquim Santanap. 14
A BANCATem Programa · Joaquim Santanap. 14
Tem Programa · Edição 07

O endereço mais barato do Rio já foi de imperador — e hoje o dono é você

A caderneta desta terça amanheceu sem evento carimbado — e a regra da coluna é dura: Joaquim só indica o que confirmou com o próprio pé. Nesses dias, vale o roteiro atemporal, declarado como tal: a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, parque público de entrada franca, com dois séculos de história plantados no gramado e metrô na vizinhança.
por Joaquim Santana · Tem Programa

Toda terça a caderneta abre na mesa antes do café. Hoje ela abriu sem carimbo: nenhum festival, nenhuma inauguração, nenhum portão com dia e hora que Joaquim tenha conferido com o próprio pé — e programa sem confirmação não entra nesta página, porque indicar portão fechado é o único pecado que a coluna não se perdoa. Nesses dias a saída é honesta e está declarada aí em cima: roteiro atemporal, daqueles que não dependem de agenda nem de sorte. E poucos lugares do país cumprem esse papel tão bem quanto a Quinta da Boa Vista, o parque de São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro — grande, arborizado, público e de graça.

A história do terreno começa antes de o Brasil ser Brasil. Em 1808, quando a corte portuguesa desembarcou aqui fugida de Napoleão, o comerciante Elias Antônio Lopes ofereceu sua chácara de São Cristóvão a Dom João VI — e a propriedade virou o Paço de São Cristóvão, casa da família real e, depois, da família imperial. Foi ali que Dom Pedro II cresceu, e foi para os jardins do imperador que o paisagista francês Auguste Glaziou desenhou, no século XIX, o traçado que resiste até hoje: lago, gruta artificial, alamedas largas e aquele jeito de caminho em curva que obriga o visitante a andar devagar mesmo quando tem pressa. A monarquia acabou faz tempo; o jardim, por teimosia, ficou — e o portão que um dia filtrou súditos hoje deixa passar qualquer um.

Parque público é a herança mais honesta que uma cidade recebe: ninguém pede convite, ninguém confere sobrenome na entrada, e o gramado não sabe quanto você ganha.

Ainda no século XIX o Paço virou sede do Museu Nacional, o museu mais antigo do Brasil — e foi por isso que o incêndio de setembro de 2018 doeu no país inteiro: o fogo feriu o palácio e consumiu boa parte de um acervo de milhões de itens. A reconstrução virou trabalho de anos e segue seu curso. Mas aqui vai o dado que interessa a quem lê esta coluna: o parque em volta nunca deixou de ser parque. As alamedas, o lago, a sombra comprida das árvores antigas — tudo continua aberto ao público, sem catraca e sem bilheteria. O zoológico que funciona dentro do terreno cobra ingresso à parte; o resto da Quinta, não.

O caminho é dos mais simples da cidade: a estação São Cristóvão do metrô fica na vizinhança imediata do parque, e de lá se chega a pé. Horário de portão é coisa que muda — e como Joaquim não confirmou horário nenhum hoje, nenhum horário será impresso aqui: confirme antes de sair, que é exatamente o que a coluna faria. No mais, o programa se resume ao que há de melhor no gênero: leve água, leve companhia ou leve só você mesmo, escolha uma sombra e gaste uma hora sem culpa num terreno que já foi de imperador e hoje não custa um centavo. Programa bom não é o que lota a agenda — é o que cabe nela. Este cabe até nas mais apertadas.

A Banca · XaplinTem Programa · Joaquim SantanaEd. 07 · 14
A Banca · XaplinTem Programa · Joaquim SantanaEd. 07 · 14
A BANCACrônica da Cidadep. 15
A BANCACrônica da Cidadep. 15
Crônica da Cidade

A feira já existe quando ainda é só barulho de ferro

Às três e dez da manhã, a rua do mercado é um estacionamento como outro qualquer. Às três e vinte, um caminhão despeja um monte de canos na calçada e começa o ofício mais invisível da cidade: armar a feira que todo mundo jura que sempre esteve ali. O cronista foi ver de perto — e voltou pra casa com o primeiro maço de cheiro-verde do dia.
crônica de Abreu · das ruas

A feira não chega: ela é erguida. Às três e dez a rua ainda é uma rua comum — postes, carros dormindo encostados no meio-fio, um gato atravessando com pressa de gato. Às três e vinte o caminhão dá ré, geme, e despeja no chão um amontoado de ferros que, para qualquer pessoa normal, é um amontoado de ferros. Para o Osmar, é um mapa. Ele desce da carroceria, olha aquilo por uns dez segundos e começa a puxar cano por cano, sem lanterna, sem conferir nada, com a segurança de quem lê braile.

Osmar arma vinte e duas barracas por madrugada, de nove famílias diferentes, e sabe de cor qual ferro pertence a quem — este aqui torto do jeito certo, aquele ali remendado com uma solda antiga que ele mesmo fez. Trabalha no escuro porque, segundo ele, a luz do poste engana: inventa sombra onde não tem buraco. "Prefiro confiar na mão", me disse, encaixando um travessão lá em cima sem levantar os olhos. A mão dele tem quarenta anos de feira e não erra um encaixe desde antes de muita barraca ter nascido.

"Quando o freguês chega, eu já fui embora. Feira, pra mim, é uma coisa que eu nunca vi pronta."

Depois do esqueleto vem a pele. A lona sobe estalando feito vela de barco e, de repente, o que era ferragem vira sombra — uma sombra armada antes do sol, o que talvez seja a definição mais honesta de planejamento que esta cidade conhece. É quando chegam os donos das bancas. Dona Ivone estaciona a Kombi, desce caixas de folhas que ainda acham que estão na horta e pendura a tabuleta. Escreve os preços a giz, devagar, número por número, e confesso que acompanhei com o coração acelerado: não é todo dia que a gente vê um preço nascer. Ainda morno, antes de ter assustado alguém.

Foi ela que me explicou a lei da primeira venda. Feirante gosta de inaugurar a mão cedo: a primeira venda abençoa as outras, e por isso o primeiro freguês do dia é tratado como visita. Eu, que pago a minha própria conta desde 1995 e guardo orgulho de cada recibo, entendi ali que existe uma janela na madrugada em que a economia amanhece de bom humor. Deus ajuda quem cedo madruga — mas o troco confiro eu. Comprei um maço de cheiro-verde, Dona Ivone arredondou pra baixo sem que eu pedisse, e paguei com dinheiro contado: gentileza dos outros não é desculpa pra desleixo com a minha parte. Ela guardou a nota numa sacolinha separada das demais, com o cuidado de quem guarda uma semente.

Às cinco, a rua já não se lembra de ter sido estacionamento. O peixeiro ensaia o pregão em voz baixa, provando as rimas como músico que afina a corda antes do concerto; o menino das laranjas ergue uma pirâmide que nenhum engenheiro assinaria — e da qual, misteriosamente, laranja nenhuma cai; dois garis passam, examinam a pirâmide com olhar técnico e aprovam com a cabeça. Um táxi encosta, o motorista compra bananas sem descer do carro — fim de plantão de quem dirigiu a noite inteira — e vai embora comendo uma, com a fisionomia de quem finalmente recebeu um salário que se mastiga.

Saí quando o sol tocou as lonas e as acendeu por dentro, naquele laranja de acampamento que deixa qualquer produto com cara de mais maduro. Você vai chegar às oito, com sua sacola e sua pressa, e a feira vai parecer eterna — como se tivesse brotado ali junto com o asfalto. Não brotou. Foi armada peça por peça, no escuro, por um homem que nunca a viu pronta e que a essa hora já dorme. A cidade está cheia de coisas assim: prontas demais pra alguém lembrar que foram feitas. A feira, ao menos, tem a delicadeza de desmontar toda semana — só pra que exista sempre quem a monte de novo.

A Banca · XaplinCrônica da Cidade · AbreuEd. 07 · 15
A Banca · XaplinCrônica da Cidade · AbreuEd. 07 · 15
A BANCAPorta Aberta · Trabalhop. 16
A BANCAPorta Aberta · Trabalhop. 16
Porta Aberta

Frequência virou depósito: a quinta parcela do Pé-de-Meia começou a cair na conta de quem foi à aula

A Porta Aberta abre hoje sem vaga no balcão: nenhuma oferta chegou confirmada com salário e prazo até o fechamento — e o combinado com você é esse, número dito com fonte ou nada. Em compensação, tem dinheiro pingando de verdade: desde segunda (24), quem está no Pé-de-Meia e segurou 80% de presença entre maio e junho recebe a quinta parcela do incentivo. Depois, o mapa que não sai de moda — estágio, vaga, concurso e certificado sem custo nenhum — e o aviso final sobre quem cobra pra deixar você trabalhar.
por Porta Aberta · da redação

Pé-de-Meia: presença em sala, dinheiro no nome

Começou na segunda-feira (24) o pagamento da quinta parcela do incentivo-frequência do Pé-de-Meia para os beneficiários de 2026, informou a Agência Brasil. Recebe quem manteve pelo menos 80% de presença nas aulas entre maio e junho. O programa funciona como uma poupança que incentiva o jovem a permanecer na escola até concluir o ensino médio — aqui, pé-de-meia deixou de ser figura de linguagem e virou depósito com data.

Se você está no ensino médio e dentro do programa — ou tem filho, sobrinha, vizinho que está —, a orientação cabe numa frase: confira a conta e confira a frequência, porque faltar custa literalmente dinheiro. E vale dizer o óbvio que ninguém diz: o valor é do estudante, no nome do estudante. Ninguém precisa de intermediário pra receber o que já é seu.

Estágio e aprendizagem: a porta que abre antes do diploma

Pra quem tem de 14 a 24 anos, o contrato de aprendiz é o formato que muita gente esquece: registro em carteira, salário e a escola dentro do mesmo pacote — as regras estão no site do Ministério do Trabalho e Emprego, de graça. O caminho até a vaga também não cobra pedágio: os agentes de integração da sua cidade mantêm cadastro sem custo pra estágio e aprendizagem, e escola técnica e universidade costumam ter mural próprio de vagas, também gratuito.

Regra de bolso: agente de integração sério não cobra do estudante. Quem paga essa conta é a empresa que contrata.

Vaga e concurso sem pagar um centavo pra procurar

O balcão público continua sendo o posto de emprego da sua cidade, o velho SINE: atendimento presencial gratuito, com vagas da região que nem sempre aparecem na internet — documento com foto e carteira de trabalho (a digital, no celular, vale) resolvem o cadastro. Pela tela, o portal oficial do Ministério do Trabalho e Emprego, no gov.br, é a porta de entrada do sistema público — sem cobrar nada em etapa nenhuma.

Concurso é outra conversa: edital só vale o que está publicado no site da banca organizadora e no Diário Oficial, os dois de acesso gratuito. Boleto de inscrição, quando existe, é emitido dentro do site oficial do certame — nunca chega pronto por mensagem. E a "apostila exclusiva" vendida por terceiros é meia-verdade cara: o conteúdo programático está no edital, de graça, esperando você ler.

Certificado gratuito que segura o currículo em pé

Quem parou de estudar antes da hora tem o Encceja, exame gratuito do Inep que certifica o ensino fundamental e o médio — a inscrição é feita no site oficial do instituto, sem taxa. Pra somar linha no currículo, a rede federal de ensino abre turmas gratuitas de qualificação e cursos técnicos em editais periódicos, e o portal do MEC é o mapa pra achar a unidade mais perto de você — de graça, como manda o figurino.

Nenhuma dessas portas pede cartão de crédito na entrada — e qualquer uma que peça merece a sua desconfiança imediata.

O alerta de sempre: emprego não tem pedágio

A fila do golpe anda colada na fila do emprego, e os sinais não mudam: cobrança de "taxa de cadastro" ou de "material" antes da contratação, entrevista marcada por link desconhecido, salário alto demais pra função vaga demais, pedido de foto de documento por mensagem antes de qualquer contato formal. Benefício como o Pé-de-Meia também não precisa de atravessador: desconfie de quem oferece "adiantar", "desbloquear" ou "consultar" o seu dinheiro em troca de senha ou dado bancário.

Na dúvida, o teste é curto: quem oferece trabalho de verdade quer o seu serviço, não o seu dinheiro. Se a proposta inverte essa ordem, não é proposta — denuncie e siga em frente.

A Banca · XaplinPorta Aberta · da redaçãoEd. 07 · 16
A BANCACartas do Leitorp. 17
A BANCACartas do Leitorp. 17
Cartas do Leitor

Sete edições depois, a redação responde ao que você quase perguntou

A caixa de cartas da Banca ainda é padaria antes das seis: o forno já ligou, a fila ainda não chegou. Mas sete edições na rua deixam restos legíveis — a pergunta que ficou presa entre dois parágrafos, a desconfiança que desceu do ônibus junto com você, o elogio que ninguém teve coragem de mandar. As vozes desta página nascem desses restos e são construídas em espírito, com o artifício declarado na testa de cada uma. Carta de verdade, quando vier, chega com nome e bairro — e entra inteira, sem corte que mude o sentido.
por A Redação · com a palavra, o leitor

Terça-feira é dia de prestar contas sem cerimônia. Não é balanço solene nem editorial de aniversário: é conversa de portão, aquela em que o vizinho pergunta o que você anda fazendo da vida e não aceita resposta ensaiada. A Banca reservou esta página pra isso. O que vem abaixo não chegou pelo correio — chegou do silêncio de quem leu e ficou matutando. A redação matutou de volta.

"Vocês me chamam de 'você' desde a primeira linha, e a gente nem foi apresentado. Jornal sério não deveria dizer 'o leitor', 'o público', guardar uma distância respeitosa?"
— estranhamento legítimo de quem cresceu lendo jornal que usava terno até no caderno de esportes · voz construída em espírito, colhida do incômodo que toda intimidade nova produz · a resposta: "o leitor" é uma multidão, e multidão não acorda às cinco — quem acorda é você, com nome, com boleto, com ônibus pra não perder. A distância respeitosa que interessa a esta casa é outra: a que separa o fato da invenção.
"Sejamos francos: essas cartas existem? Porque se a redação inventa leitor, que garantia eu tenho de que não inventa o resto do jornal?"
— a pergunta mais importante da página, e por isso fica aqui no meio, onde ninguém consegue fingir que não viu · voz em espírito, como todas desta caixa por enquanto — e é exatamente esse o ponto · a resposta: inventar carta e assinar com nome e bairro de mentira seria fraude; escrever "em espírito", com o aviso pendurado em cada linha, é oficina de porta aberta. Fraude se esconde. Oficina convida a entrar. Quando uma carta vier sem esse aviso, é porque veio de gente de carne — e a diferença estará assinada.
"Sinto falta de manchete gritada. Passo pela banca de esquina — a de verdade — e todo jornal berra alguma coisa. O de vocês fala baixo. É elegância ou falta do que dizer?"
— provocação de quem aprendeu a medir jornal em decibéis, hábito compreensível num país barulhento · voz em espírito, com o dedo na ferida certa · a resposta: quem grita às cinco da manhã não é manchete, é despertador — e ninguém guarda carinho por despertador. A Banca fala baixo porque aposta que você lê acordado. E se um dia faltar o que dizer, fica prometido o mais difícil: dizer menos.
"Vocês vão errar. Todo jornal erra. Eu quero saber o que acontece no dia seguinte ao erro — e quero saber antes de o erro acontecer."
— previdência de leitor que já viu correção enfiada em rodapé, três semanas depois, torcendo pra ninguém achar · voz em espírito, mas o contrato que ela cobra é real · a resposta vira compromisso público nesta linha: erro admitido no mesmo tamanho em que foi cometido, na mesma página em que morou, com a data da correção à vista. Esconder emenda é errar duas vezes.
"Leio a Banca no celular, espremido no corredor do ônibus, com o cotovelo alheio na costela. A página foi pensada pra mim ou pra alguém de pijama, com café passado e tempo sobrando?"
— realismo de quem conhece a linha lotada e o sinal que some no túnel · voz em espírito, falando por muita gente que lê de pé · a resposta: a página foi pensada pras duas cenas, mas a régua é a sua — parágrafo que não sobrevive a um solavanco é parágrafo comprido demais. Quando a leitura falhar nesse teste, a culpa não será do cotovelo alheio.

Sete edições ensinam pouco e cobram muito. O que já dá pra afirmar sem soberba: jornal não se mede pelo que publica, mas pelo que aguenta ouvir de volta. Uma redação que só escreve e nunca escuta vira megafone; a Banca prefere ser mesa — dessas de bar que balançam, com um calço improvisado, mas onde a conversa termina melhor do que começou.

E há um detalhe que esta caixa aprendeu antes de encher: não existe carta pequena. A reclamação sobre uma vírgula fora do lugar e a discordância frontal com uma escolha de capa moram na mesma prateleira, porque as duas dizem a mesma coisa — alguém leu com atenção. Atenção é a única moeda que este jornal aceita e a única que devolve. O resto é troco.

A caixa está aberta — e prefere a sua letra à nossa. Reclamação, correção, discordância inteira, elogio com ressalva: tudo entra com o mesmo peso. Escreva pra Banca em xaplin.com.br, com nome e bairro. No dia em que a primeira carta de carne e osso chegar, esta página aposenta o espírito — com alívio e sem saudade.
A Banca · XaplinCartas do Leitor · do povoEd. 07 · 17
A BANCAPra Levar no Bolsop. 18
A BANCAPra Levar no Bolsop. 18
Pra Levar no Bolso

A vida aperta, afrouxa — e cobra só coragem

Uma linha de 1956 que ainda mede a pressão de qualquer terça-feira. Tem dono, tem livro, tem ano — e cabe dobrada entre o bilhete do ônibus e a chave de casa.
por A Redação · da estante da casa
"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."
— João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas (1956)

Terça-feira, vinte e cinco de agosto. Segunda a gente atravessa no impulso; é na terça que a semana mostra o tamanho verdadeiro dela, sem cerimônia e sem desconto. Quem escreveu a frase aí de cima foi um médico mineiro que trocou o consultório pelo sertão e botou na boca de Riobaldo, um jagunço que pensava demais para o ofício, um dos diagnósticos mais precisos já dados sobre a vida em língua portuguesa. Repare que ele não promete melhora: promete alternância. Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa — o alívio já vem embutido no aperto, como o troco já vem embutido na nota. É diferente de dizer que tudo dá certo no final, conversa de quem nunca esperou conserto de geladeira. O que a frase garante é que nada fica parado no pior por muito tempo, e que o preço da passagem é um só: coragem. Não a de filme, que enfrenta dragão; a sua, que enfrenta fila, boleto vencido, telefonema adiado, aquela conversa que você vem empurrando desde julho. Coragem, no sertão de Rosa e na sua rua, é continuar em movimento enquanto a vida decide a temperatura. Agosto está fechando as contas dele, o ano já dobrou a esquina do segundo semestre, e você segue de pé — o que, ninguém diz mas deveria, já é metade da travessia feita. A outra metade se resolve do jeito que sempre se resolveu: um dia esquentando, outro esfriando, você desinquieto e vivo no meio dos dois. Dobra a frase, guarda junto dos documentos. Terça-feira também afrouxa.

A Banca · XaplinPra Levar no Bolso · da redaçãoEd. 07 · 18
A Banca · XaplinPra Levar no Bolso · da redaçãoEd. 07 · 18
A BANCAPedrinho na Bancap. 19

Pedrinho na Banca — uma conversa que está chegando

A tirinha ainda está no forno — e forno bom não abre antes da hora.

Todo quadrinho começa com uma pergunta que ninguém ousou fazer em voz alta. No caso do Pedrinho, a pergunta costuma escapar pela boca antes que o bom senso possa segurar — e é justamente aí que a Vó Olga entra, com aquela voz de quem já viu o Brasil mudar de nome várias vezes sem perder o endereço.

A tirinha Pedrinho na Banca é um quadro da casa. Pedrinho tem oito anos, curiosidade de adulto e paciência de... bem, oito anos. Vó Olga tem setenta e tantos, memória de elefante e o dom raro de explicar o país sem precisar mentir pra nenhuma das duas partes.

Toda segunda, quando você dobrar esta página, vai encontrar os dois no mesmo lugar: ele com a pergunta, ela com a resposta que o Brasil merecia ter recebido faz tempo.

A arte definitiva está a caminho. Enquanto o lápis do desenhista termina o serviço, fica aqui o convite: se você tem um Pedrinho em casa — filho, sobrinho, vizinho que não para de perguntar por quê — guarda a edição. Na semana que vem, eles se reconhecem na página.

— Um quadro da casa

A Banca · XaplinPedrinho na BancaEd. 07 · 19
A BANCAA Chargep. 20
A BANCAA Chargep. 20
A Charge · O traço do dia

Agosto arruma a trouxa — e a primavera pede passagem

traço de Tibiriçá · chargista da casa
Charge em traço de nanquim: plataforma de rodoviária ao primeiro clarão da manhã; um agosto personificado — homem comprido e despenteado, feito de rajada, cachecol ao vento — sobe o degrau do primeiro ônibus arrastando uma mala surrada que vaza poeira e folhas secas; no banco da plataforma, setembro espera na figura de uma moça serena com um ramo de ipê-amarelo no colo; entre os dois, um passageiro madrugador segura o boné com uma mão e o jornal dobrado na outra

Agosto entrou fazendo vento, jurando mandar no mês,
derrubou roupa de varal e se anunciou desgosto,
mas o povo das cinco horas não perde a hora nem a vez:
passou café, dobrou o frio e seguiu de peito exposto.
O valentão faz a mala e sai sem se despedir —
setembro espia da esquina com a primavera no rosto.

O traço viu o seguinte: numa plataforma de rodoviária ainda meio escura, agosto — comprido, despenteado, feito de rajada — sobe o degrau do primeiro ônibus arrastando uma mala que vaza poeira e folha seca pelo fecho. No banco da plataforma, setembro espera a vez com um ramo de ipê no colo e a calma de quem sabe que a próxima estação é sua. Entre os dois, um passageiro madrugador segura o boné com uma mão e o jornal dobrado com a outra: aprendeu com o vento deste mês que quem solta um acaba perdendo os dois.

Charge: Tibiriçá / Banca

Tibiriçá

A Banca · XaplinA Charge · TibiriçáEd. 07 · 20
A Banca · XaplinA Charge · TibiriçáEd. 07 · 20
A BANCAExpediente · quem fazp. 21
Tem Programa · Edição 06

Quatro décadas na lente — e hoje você pode ver de perto

No Dia do Orgulho Lésbico, o Museu da Diversidade Sexual inaugura em São Paulo a exposição Alice Oliveira, com fotos que registraram feminismos e movimento LGBTQ+ nos anos 1980 e 1990. Entrada gratuita, metrô na porta. Joaquim foi checar e coloca na caderneta.
por Joaquim Santana · Tem Programa

Tem coisa que só a fotografia segura. Discurso some, cartaz desmancha, memória envelhece — mas o registro em preto e branco de uma passeata que ninguém filmou continua ali, parado no tempo, esperando alguém olhar de volta. É o que faz a exposição Alice Oliveira, inaugurada nesta quarta-feira (19) no Museu da Diversidade Sexual, na Estação República do Metrô, bem no centro de São Paulo. A fotógrafa e ativista passou mais de quatro décadas documentando o que muita gente preferia que não existisse: os movimentos feministas, lésbicos e LGBTQ+ que se organizaram no Brás e em outros cantos da cidade durante os anos 1980 e 1990. Agora essas imagens saem do arquivo e ganham parede.

A data não é coincidência. Dezenove de agosto é o Dia do Orgulho Lésbico — e abrir uma exposição que honra esse histórico justamente hoje é uma escolha que o próprio calendário agradece. A Agência Brasil confirmou a abertura e o museu não cobra entrada: o acesso é gratuito, assim como o metrô cobre o percurso até a República sem precisar trocar de linha em boa parte da cidade. Se você sai cedo de casa e tem a tarde livre — ou a manhã antes do turno da tarde —, já sabe onde ir.

Fotografia de movimento social não é só documento. É o jeito que a história encontrou de não deixar ninguém apagar a presença de quem esteve lá.

O endereço é Av. Paulista, 900 — subsolo da Estação República. O horário de funcionamento do museu segue o fluxo do metrô, então vale confirmar no site oficial do Museu da Diversidade Sexual antes de sair, já que programações de abertura às vezes esticam o expediente no primeiro dia. A exposição permanece em cartaz por tempo determinado — mas como Joaquim só anota o que confirmou, o prazo exato entra na caderneta quando o museu publicar o calendário completo. Por enquanto: hoje tem inauguração, tem fotografia real e tem história que vale a viagem.

Para quem não consegue ir hoje, fica o registro: Alice Oliveira passou quatro décadas com a câmera apontada para o que o Brasil oficial mal queria reconhecer. Isso virou acervo, o acervo virou exposição e a exposição está de graça numa estação de metrô que você provavelmente já passou. Às vezes o programa do dia é só dar uma volta de volta num lugar que você conhece — e descobrir que tem uma história enorme pendurada na parede esperando pelo seu olhar. Portão aberto. Caderneta anotada.

A Banca · XaplinExpediente · quem faz a BancaEd. 07 · 21