A Dona Conceição, que mora no segundo andar do meu prédio na Tijuca e trabalha num laboratório de análises clínicas, disse outro dia uma coisa que não saiu da minha cabeça: "Caco, eu não acordo cedo porque quero. Acordo porque o dia não me dá outra opção." Ela disse isso rindo, com o cabelo ainda no elástico do pijama e a marmita já na bolsa. Pensei: que frase de revolucionária, Conceição.
É 14 de julho. Em Paris, hoje é festa nacional — Dia da Bastilha, aniversário daquela manhã de 1789 em que um povo decidiu que já bastava e foi lá derrubar o símbolo do que o prendia. Aqui no Brasil, é terça-feira. O trem passa, o café engrossa, a fila do pão anda. Mas tem qualquer coisa em comum entre lá e cá, nessa hora da manhã: a convicção de que é preciso sair. De algum lugar. Em direção a alguma coisa.
Esta edição traz o noticiário do dia penteado e sem gritaria — o que se move na economia, o que aconteceu nas ruas, o que o esporte produziu de concreto. O nosso trabalho é esse: chegar na sua mão antes do barulho e contar o que vale sem fazer você gastar corda antes de começar. Corda é escassa. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Há uma clareza particular nas manhãs de julho. O céu ainda está cinza quando você sai, o ar pica um pouco, e o mundo parece menor do que vai ser daqui a três horas. Isso é uma vantagem, não uma queixa. O mundo menor da madrugada é o mundo antes do ruído, e nele você pensa melhor, lê melhor, decide melhor. A Banca existe exatamente nessa janela — antes do ruído.
A Dona Conceição já desceu, o laboratório já abriu, Paris já acendeu os fogos e vai apagá-los tarde da noite. E você já está aqui, com a edição na mão, provando que também veio. Terça de julho, Dia da Bastilha ou não: o que importa é que a porta já foi aberta. Vai lá.
Ontem um rapaz chegou aqui depois do expediente e pediu uma água com gás. Só água. Fiquei olhando. Perguntei se tinha acabado de engolir sapo. Ele deu uma risada curta, daquelas que não chegam ao olho, e disse: engolei, mas foi na reunião das dez da manhã. Já tinha passado o dia inteiro carregando aquilo. A chefia falou uma coisa errada sobre o trabalho dele na frente de todo mundo, ele ficou quieto, agradeceu até, e passou o resto do dia repetindo a cena na cabeça igual fita emperrada. Pedi que sentasse. A água com gás podia esperar um pouco.
Porque essa raiva engolida é das mais traiçoeiras que eu recebi aqui no balcão. Ela não avisa que chegou. Você não nota no momento — nota três horas depois, quando buzina no trânsito por coisa que não merecia, ou quando responde torto pra quem não tem nada a ver com a história. A raiva engolida não some: ela viaja. Muda de endereço e vai aparecer na primeira porta destrancada que encontrar. E aí a conta chega pra quem menos devia receber.
Tem gente que confunde engolir com superar. Não são a mesma coisa. Superar exige que você olhe pro negócio, mastigue devagar e decida o que fazer com ele. Engolir é diferente: é tampar o pote e empurrar pra baixo da pia pra ninguém ver. O pote não some. E debaixo da pia, sem luz e sem ar, o que estava dentro só apodrece mais. Já vi casamento acabar, amizade trincar e emprego pedir demissão por raiva que começou pequena e não teve onde pousar.
Não estou pregando que você saia por aí destampando pote em cima de chefe, vizinho e fila de banco. Isso não é sabedoria, é confusão. O que eu aprendi aqui nesse balcão é que a raiva precisa de trânsito interno antes de virar palavra ou atitude. Trânsito interno é simples: você para, reconhece — isso me irritou, e eu tinha razão de me irritar — e daí escolhe se vai falar, como vai falar ou se vai só largar. Mas largar de verdade, não enfiar debaixo da pia. Tem diferença entre soltar e sufocar. Uma alivia; a outra só adia.
O rapaz da água com gás foi embora com uma tarefa que ele mesmo criou enquanto conversávamos: antes de dormir, escrever em uma frase o que aconteceu de manhã — sem florear, sem justificar a chefia, sem diminuir o que sentiu. Uma frase. Não pra mandar pra ninguém. Só pra dar um endereço fixo pra aquela raiva antes que ela continuasse viajando. Pequena coisa. Mas dar nome ao que dói é o primeiro passo pra parar de tropeçar nele no escuro.
A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta enquanto o balcão fecha: quando você sente raiva e decide não dizer nada, você está escolhendo a hora certa — ou está confundindo silêncio com força porque nunca aprendeu que as duas coisas podem não ser a mesma?
Ar seco e boca aberta: quem dorme com a boca aberta no inverno acorda com a garganta arranhada e o hálito mais forte — é o ar seco fazendo seu trabalho. Respirar pelo nariz é a defesa natural: ele filtra, aquece e umidifica o ar antes de chegar aos pulmões. Se você tem dificuldade de respirar pelo nariz à noite, vale contar pro médico no próximo retorno.
Gengiva ressecada: a queda de umidade também afeta a mucosa da boca. Quem usa prótese dentária percebe o incômodo antes — a prótese fricciona mais. Beber água ao longo do dia (e não só nas refeições) é o hábito mais barato de todos. O SUS oferece consulta odontológica gratuita nas UBSs: não deixe a dor decidir a hora de ir.
Criança com lábio rachado: é comum no inverno seco e some com hidratação simples. Se aparecer ferida, coceira ou inchaço junto, leve ao posto — pode ser candidíase labial, que tem tratamento rápido e gratuito.
Itinerário e horário são contrato: quando a linha não cumpre o horário previsto ou suprime viagem sem aviso, o passageiro tem direito a reclamar formalmente. Guarde o horário em que esperou (foto do relógio do celular resolve), o número da linha e o ponto. Esse registro é seu argumento.
Onde reclamar: em municípios, a reclamação vai pra secretaria de transporte ou empresa concessionária — o 156 da prefeitura direciona. Em linhas intermunicipais, a agência reguladora estadual é o caminho. Em linhas interestaduais, a ANTT recebe reclamação pelo site antt.gov.br ou pelo 166. Protocolo na mão, a resposta é obrigatória.
Gratuidade e meia-passagem: idoso com 65 anos ou mais tem passe livre no transporte urbano por lei federal — sem precisar de cartão especial em muitos casos. Estudante tem direito à meia em linhas estaduais e municipais, conforme legislação local. Dúvida? O 156 responde ou o Procon do seu município orienta sem custo.
Documento vencido encarece tudo: CNH fora do prazo gera multa; RG desatualizado trava emprego e contrato de aluguel; certidão de nascimento antiga bloqueia matrícula escolar. O serviço de emissão de documentos civis básicos — segunda via de certidão, RG, atualização de dados — é gratuito para quem está inscrito no CadÚnico e, em muitos estados, pra toda a população em postos municipais. Antes de pagar cartório, ligue pro 156 e pergunte o que sai de graça perto de você. Às vezes o único custo é a passagem de ônibus. E já que estamos nessa página, você já sabe o que fazer se o ônibus não vier.
Tem dias em que o esporte resolve acontecer em dois fusos ao mesmo tempo, e você acorda sem saber por onde começar. Começa pela China, então. Em Hangzhou, na madrugada desta terça-feira, as seleções masculina e feminina de vôlei sentado do Brasil entram em quadra pelas oitavas de final do Campeonato Mundial da modalidade — e ambas chegam invictas à fase eliminatória. A modalidade não aparece muito nos jornais, e é uma pena, porque o que acontece ali é futebol com as mãos: entrega total, leitura de jogo fina, e uma torcida que descobre a modalidade e não larga mais. Um título inédito está ao alcance dos dois times. Não é pouca coisa.
Mas o coração desta terça bate mais forte nos Estados Unidos, onde França e Espanha se enfrentam numa das semifinais da Copa do Mundo. Os franceses treinaram com leveza nos dias que antecederam o jogo — câmeras flagraram o grupo descontraído, risos, bobagem de treino, o tipo de atmosfera que ou indica confiança real ou é o sorriso de quem aprendeu a blindar a pressão. A Espanha não é exatamente o tipo de adversário que permite bobagem por muito tempo. Este jogo, mais do que qualquer semifinal recente, vai exigir que os dois times joguem com a cabeça e com os pés — na mesma hora, o que parece óbvio mas é raro de acontecer nos 90 minutos que importam de verdade.
Fora do gramado, a Copa tem pautado conversas que vão além da bola. A reação ao racismo contra jogadores negros ganhou força nas redes sociais e se espalhou para além do ambiente do futebol — torcedores, entidades e pessoas sem nenhum vínculo com o esporte entraram no debate. É o tipo de sinal que os torneios grandes provocam quando a plateia é o mundo inteiro: o campo amplifica o que já estava lá, às vezes para o bem, às vezes para o que a gente preferia não ver. O futebol não resolve o problema, mas ilumina o quanto ele ainda é grande.
Amanhã, quarta-feira (15), Atlanta recebe Argentina e Inglaterra pela outra semifinal — os hermanos buscam confirmar o favoritismo de campeões em exercício. A Banca traz o resultado na edição de quinta. Por enquanto, o que tem é esta terça: uma semifinal nos Estados Unidos e dois times brasileiros voando em Hangzhou. Não é pouco para quem acorda cedo.
Semifinal 1: França x Espanha — hoje, terça (14/07), nos Estados Unidos. Confira o horário na sua emissora. Semifinal 2: Argentina x Inglaterra — quarta (15/07), a partir das 16h, em Atlanta. Terceiro lugar: sábado (18). Final: domingo, 19 de julho. A Banca abre com os placares da véspera todo dia.

O charque é salgado por natureza — o que significa que ele já carrega o tempero consigo e basta um bom dessalgue de véspera pra ele entrar na panela no ponto. O arroz parboilizado é dos mais fáceis de achar e dos que menos grudam. A lógica do rendimento é simples: uma xícara de arroz vira quase três depois de cozida, e o charque dividido em pedaços pequenos cobre cada garfada sem que você precise usar muito. Oito porções generosas, com ingredientes que moram no armazém da esquina — o bolso agradece, a barriga também.
Arroz-carreteiro não tem pretensão e não precisa ter. Sobrou na panela? No dia seguinte, um fio de água, fogo baixinho e tampa por três minutos devolvem a umidade sem cerimônia. Julho pede exatamente isso: receita que resolve, não complica. Trocou o charque por frango, por linguiça ou por sobra de carne assada de domingo? O método continua o mesmo — e o resultado, igualmente honesto.
O mês tem trinta dias; o salário, às vezes, dura dez. Não é fraqueza — é matemática mal arrumada. O primeiro passo é parar de tratar todo gasto como inevitável. Alguns são: comida, água, luz, aluguel, transporte para o trabalho. O resto — plano de TV, assinatura de streaming, carnê de eletrodoméstico — é negociável, pausável ou cancelável. Saber distinguir um do outro já é metade do trabalho.
Gasto invisível é o campeão de prejuízo. Assinatura que você esqueceu, taxa de manutenção de conta, cobrança automática de serviço que você parou de usar — esses valores pequenos somados podem superar uma conta de luz inteira. Vale a pena revisar o extrato bancário linha por linha uma vez por mês. Chato, sim. Caro demais não fazer, também.
Quando a conta não fecha: negocie na ordem certa. Comece pelas dívidas com juros mais altos — geralmente cartão de crédito e cheque especial. Dívidas com banco, loja e financeira têm prazo de prescrição e têm margem para acordo. Dívidas de água, luz e aluguel têm consequências mais imediatas (corte, despejo) e entram na fila de prioridade antes mesmo da negociação começar.
Como pedir desconto sem constranger nem ceder tudo. Antes de ligar para negociar, anote o valor total da dívida, o valor que você consegue pagar agora e o máximo que cabe por mês no seu orçamento básico. Abra com uma proposta menor do que o seu teto — porque a empresa vai contrapropor. Nunca aceite parcela que comprometa comida ou aluguel: acordo que quebra no terceiro mês piora a situação, não melhora.
O nome sujo atrapalha, mas não paralisa. Com restrição no CPF você ainda pode trabalhar, abrir conta em banco digital, alugar (depende do proprietário) e negociar a própria dívida. O que muda é o acesso a crédito novo — e, honestamente, crédito novo enquanto a dívida velha não está resolvida costuma ser armadilha. Limpar o nome é importante; entrar em dívida nova para parecer limpo, não é o caminho.
Reserva de emergência: começa pequena ou não começa. Esperar ter dinheiro sobrando para começar a guardar é esperar o ônibus numa rua sem linha. O método funcional é simples: defina um valor fixo — qualquer valor — e transfira para uma conta separada no dia em que receber. Mesmo que seja pouco, o hábito vale mais do que o saldo inicial. Três meses de disciplina já mudam o que acontece numa emergência.
Ferramentas gratuitas que existem e ficam de fora da conversa: o Consumidor.gov.br permite registrar reclamação e negociar com empresas sem custo — muitas resolvem antes de ir à Justiça. O PROCON municipal atende pessoalmente e orienta sobre direitos em cobranças abusivas. A Serasa e o SPC têm portais de consulta de dívidas sem cobrança; fique atento aos períodos de feirão, divulgados nos próprios sites. O Cadastro Positivo, ativo gratuitamente, registra pagamentos em dia e pode melhorar sua pontuação de crédito ao longo do tempo.
Nenhum truque nesta página, nenhuma promessa. Só a lógica que o dinheiro já tem e que ninguém ensinou direito na escola. Quando você conhece a ordem, fica mais fácil aguentar o aperto sem tomar decisão errada no momento errado. E no dia em que o calendário tiver data boa para o bolso, esta página avisa primeiro.
Tem provérbio que parece simples e vai fundo. "Quem dá o que tem, não deve o que não tem" é um daqueles. Não fala de dinheiro só — fala de energia, de atenção, de presença. Você não precisa oferecer o que está além das suas forças pra ser generoso. Generosidade de verdade começa em saber o que você tem de dar hoje, neste dia, com o que sobrou depois de dormir, de acordar cedo, de embarcar antes da cidade despertar.
Terça-feira de julho é exigente sem avisar. O mundo pede mais antes do café esfriar. E você está aqui — já é uma entrega. O recado não é pra você guardar tudo nem pra você se esvaziar de vez. É pra você calibrar: o que você tem de verdade pra oferecer hoje? Ao trabalho, à família, a você mesmo? Dá isso. Sem endividar a alma.
Toda fé que existe reconhece essa conta: ninguém é cobrado além do que pode. Cabe aqui quem reza, quem canta ponto, quem medita no metrô, quem só fecha os olhos um segundo antes de sair de casa e pede força sem saber bem a quem. O que une todo mundo é o mesmo limite humano — e a mesma capacidade, dentro desse limite, de fazer bonito.
Então hoje: antes de prometer, veja o que você tem. Antes de ceder, verifique se você já se deu o suficiente. E quando der — ao colega, ao filho, ao estranho na fila — dá sem a angústia de quem tá doando o que falta. Dá com a leveza de quem sabe que o que tem já basta pro momento.
Bom dia. Que a sua terça seja exata — nem a mais, nem a menos, do tamanho certo do que você carrega.

Clementina de Jesus nasceu em 7 de fevereiro de 1901, em Valença, no sul do estado do Rio de Janeiro, filha de ex-escravizados. A família se mudou para o Rio ainda quando ela era criança, e foi nos subúrbios da cidade — em Madureira, nas festas de terreiro, nos sambas de roda — que ela formou a voz e aprendeu os cantos que os mais velhos traziam da memória da África. Não havia nome artístico, não havia projeto: havia canto, e ele existia porque precisava existir.
Por mais de meio século, Clementina trabalhou como doméstica e cantou nos espaços que a recebiam: quintais, festas de bairro, rodas informais. Tinha mais de sessenta anos quando o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho a ouviu numa apresentação e percebeu que ali havia algo que a música brasileira oficial corria o risco de perder para sempre — os lundus, as jongos, os candombes, os cantos de umbigada que ela memorizava como quem guarda água em tempo de seca. Em 1965, ela estreou profissionalmente no show Rosa de Ouro, ao lado de Araci Cortes e do conjunto de Paulinho da Viola e Élton Medeiros, aos 64 anos de idade. O público levou um susto que demorou muito pra virar aplauso — e depois nunca mais parou.
A voz de Clementina era grave, esfumaçada, de uma textura que não cabia na categoria nem de samba nem de MPB: era anterior a tudo isso, era o substrato. Os críticos procuravam palavras e geralmente desistiam na metade. Ela gravou discos, excursionou pela Europa, cantou em festivais internacionais e foi reconhecida por músicos de gerações inteiramente diferentes — de Caetano Veloso a Paulinho da Viola, que a chamava de rainha sem precisar de coroa nem de decreto.
Fora dos palcos, continuava sendo a mesma mulher direta, de poucos floreios na conversa e muitos no canto. Não cultivava pose de guardiã cultural — essa era a leitura dos de fora. Para ela, cantar era tão natural quanto respirar, e ela estranhava quando alguém chegava com caderno e gravador querendo saber o significado de cada verso. Alguns cantos, dizia, não têm significado que caiba em explicação: têm significado que cabe em canto.
Clementina de Jesus morreu em 19 de julho de 1987, no Rio de Janeiro, aos 86 anos. A semana que abre esta edição traz o aniversário dessa morte — e a Banca achou que valia parar um instante aqui. Não para chorar o que se perdeu, mas para notar o que ficou: a prova viva de que talento represado não some, apenas espera. Às vezes uma vida inteira. E quando a porta finalmente abre — mesmo que tarde, mesmo que tarde demais pelo calendário de quem tem pressa — o que entra não é uma estreia. É uma confirmação.
Terça-feira tem um dom pouco celebrado: ela é o dia em que ninguém tem expectativa nenhuma. O fim de semana ficou longe o suficiente pra não doer mais, e longe o bastante pra não consolar ainda. É um dia nu, sem enfeite. E é exatamente por isso que a TV aberta vive tão bem nessa faixa — ela preenche o espaço que nenhum outro entretenimento quer ocupar sem fazer cerimônia.
Você chega do trabalho, ou do curso, ou da fila do banco que demorou o dobro do previsto, e a televisão já está ligada. Não importa quem ligou primeiro — alguém sempre liga primeiro, e o crédito nunca é disputado. O boteco de terça recebe assim: sem bandeira, sem cartaz de promoção na porta. A tela acesa é o único aviso de que o lugar está aberto e de que você pode sentar sem explicar o seu dia a ninguém.
Há uma sabedoria coletiva na grade de terça que raramente recebe o reconhecimento que merece. É quando as emissoras apostam no miolo seguro: o programa que já rodou quinhentas vezes e continua funcionando, o apresentador que o país inteiro conhece pelo primeiro nome, a novela que está no seu capítulo de quarta-engrenagem — nem começo cheio de promessas, nem final carregado de despedidas, mas o trecho robusto do meio onde a história sabe exatamente o que é. Terça é o dia em que a TV aberta para de se explicar e simplesmente acontece.
E o boteco acompanha nesse ritmo. A conversa de terça não compete com a tela — ela caminha do lado. Alguém comenta o que está passando, alguém discorda sem calor, alguém olha pro copo enquanto responde. A televisão faz o que faz de melhor nesses momentos: dá o assunto sem cobrar a atenção integral. Ela é o terceiro na conversa que nunca atrapalha, nunca monopoliza e nunca vai embora antes da hora.
Tem uma distinção que o streaming jamais vai entender: a TV aberta erra em público. O timing do comercial é ruim? Todo mundo suspira junto. O bloco voltou na cena errada? Alguém na mesa já sabe o que vai dizer antes de abrir a boca. Esses pequenos contratempos coletivos são o cimento invisível do hábito de assistir junto — não é o conteúdo que cria o vínculo, é o atrito compartilhado em torno dele. Nenhum algoritmo de recomendação foi programado pra calcular o valor de um suspiro sincronizado.
Então aproveite sua terça. Não precisa ser um programa que estreou hoje, não precisa ser uma transmissão histórica. Precisa ser a tela acesa, a mesa com gente, e aquela generosa falta de expectativa que faz a noite caber dentro de si mesma sem sobrar e sem faltar. A terça entrega quando você para de cobrar. A TV aberta descobriu isso antes de todo mundo.
Desta vez, o programa não tem endereço de rua — mas tem prazo, e prazo curto: 17 de julho de 2026. O Fies, Fundo de Financiamento Estudantil do governo federal, está com inscrições abertas para o segundo semestre, e quem quiser concorrer a uma vaga precisa acessar o Portal Único de Acesso ao Ensino Superior antes dessa data. Gratuito para se inscrever, gratuito para consultar. O único custo é o da passagem de ônibus até a lan house, se for necessário — e mesmo isso muitas bibliotecas públicas resolvem com os computadores da sala de acesso digital.
O Fies financia a graduação em cursos de instituições privadas credenciadas, com juros reduzidos e pagamento que começa só depois da formatura. Não é presente, é crédito — mas é crédito real, acessível a quem não conseguiu bolsa pelo Prouni e não tem como pagar mensalidade do próprio bolso. Se você conhece alguém que parou no meio do curso por falta de dinheiro, ou que adiou a matrícula esperando uma janela, essa é a janela. Fecha na quinta-feira.
Para se inscrever, o candidato precisa ter CPF regularizado, estar matriculado em curso elegível e acessar o sistema pelo endereço oficial do MEC. Desconfie de qualquer site paralelo que peça taxa de cadastro ou dados bancários: o processo é inteiramente gratuito e feito na plataforma do governo. Na dúvida, ligue para o 0800 616 161, que é o canal de atendimento do MEC — sem custo de ligação.
No radar da caderneta, ainda nesta terça-feira: a seleção francesa de futebol entra em campo nos Estados Unidos para enfrentar a Espanha, em uma das semifinais da Copa do Mundo 2026. Não é programa local, mas é programa coletivo — e quem acorda às cinco da manhã merece saber que à tarde tem jogo grande. Para quem está de olho no debate que cresceu ao redor da competição — o racismo sofrido por jogadores negros e a resposta que veio das arquibancadas, das redes e das ruas — a Agência Brasil publicou uma apuração que vai além do placar e vale a leitura completa. Anota o link, que está na edição de hoje. Vai, que o prazo não espera.

Às quatro e quarenta da manhã o cruzamento não tem nome, não tem movimento, não tem nada que justifique parar ali — exceto o vapor. É impossível não ver o vapor. Ele sobe do bico do termo como se a calçada estivesse respirando, e no meio desse respirar está Armando, cinquenta e poucos anos, boné de lã cor de vinho, avental de churrasqueiro que já conheceu dias melhores de tecido mas nunca de honra. Ele monta o posto com a metodologia de quem tem o ritual mais antigo da quadra: primeiro o botijão, depois o fogareiro, depois os dois termos — um de café puro, um de café com leite condensado que ele chama de "o diplomático" sem dar muita explicação.
Perguntei por que tão cedo. Ele não respondeu de imediato — mexeu no bico do fogareiro, acertou a altura da chama, jogou o pano de prato no ombro como quem ajeita uma gravata. Depois disse: "Porque o primeiro cliente aparece às quatro e cinquenta e ele não vai esperar." Quem é o primeiro cliente? "Muda todo dia. Mas sempre aparece." Há uma filosofia inteira nisso, e ele a pratica sem ter pedido patente.
De fato, às quatro e cinquenta em ponto chegou uma mulher de uniforme de limpeza, mochila nas costas, tênis ainda com o cadarço do pé esquerdo frouxo. Pediu o diplomático, tomou de pé, em silêncio, olhando o asfalto como quem está terminando um pensamento importante. Pagou com moeda miúda que ela contou sem apressar. Armando não contou depois — guardou na lata e esqueceu. Em seguida veio um rapaz de bicicleta com caixas de papelão amarradas na garupa, depois um senhor de terno já passado para o dia que mal começou, depois uma gari que encostou a vassoura no poste com a delicadeza de quem apoia um instrumento musical. Cada um tomou o café, cada um ficou o tempo exato que precisava ficar, cada um foi embora sem que Armando precisasse dizer uma palavra além do que a xícara já dizia.
Quando perguntei se ele tem saudade de dormir até mais tarde, ele considerou a questão com uma seriedade que a pergunta talvez não merecia. "Durmo bem", disse. "Quem acorda com remorso é quem não fez nada na véspera." Não olhou pra mim ao dizer isso, olhou pro termo — um gesto de quem afirma e logo parte para o próximo assunto, porque o próximo assunto é o café e o café não discute. Eu, que honro cada conta desde 1995, paguei o dobro da xícara e não me arrependi: tem ocasiões em que a gorjeta não é generosidade, é só o preço justo de uma madrugada que o cardápio não previu. Ele agradeceu com um aceno de queixo. O vapor continuou subindo. A cidade ainda não tinha nome. Mas já tinha café.
O que é: o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) financia a graduação de estudantes em instituições privadas. A edição do segundo semestre de 2026 está com inscrições abertas e o prazo se encerra em poucos dias.
PRAZO: 17 de julho de 2026 — quinta-feira. Não deixe para a última hora: o sistema pode sobrecarregar justamente quando todo mundo lembra ao mesmo tempo.
Como se inscrever: acesse o Portal Único de Acesso ao Ensino Superior — o endereço é o mesmo do Enem e do Prouni. Nenhum site de terceiros tem acesso privilegiado, nenhum despachante acelera o processo, nenhum aplicativo não oficial é necessário. O caminho é direto, gratuito e começa pelo gov.br.
O que ter em mãos: CPF regular, dados do Enem (o Fies usa a nota como critério de seleção), informações de renda familiar e matrícula ativa na instituição de ensino superior. Reúna tudo antes de abrir o formulário — interromper no meio pode gerar inconsistência no cadastro.
O que é: a Prova Nacional Docente (PND) 2026 avalia candidatos à carreira docente na educação básica pública. A inscrição já foi feita — mas sem o pagamento da taxa, ela não se confirma.
PRAZO: hoje, 14 de julho de 2026. É o último dia para pagar a taxa de inscrição. Quem não pagar até o fim do dia perde a vaga e terá de esperar o próximo ciclo.
Valor: R$ 85, pagos por meio da Guia de Recolhimento da União (GRU Cobrança), gerada diretamente no Sistema PND. A GRU tem data de vencimento — verifique que o boleto gerado está dentro do prazo antes de ir ao banco ou usar o app.
Como pagar: bancos credenciados, internet banking ou aplicativos bancários aceitam a GRU. Guarde o comprovante: é ele que garante sua participação caso haja qualquer questão futura com o sistema.
Dois prazos no mesmo dia: um que vence agora e outro que vence em três dias. Parece pouco, mas a diferença entre quem entra e quem fica de fora costuma ser exatamente essa — não a falta de mérito, mas a falta de atenção ao calendário. O professor que pagou a GRU hoje de manhã já pode respirar fundo. O estudante que abrir o portal do Fies agora ainda tem tempo de sobra para preencher com calma.
Planejar não é dom de ninguém em especial. É hábito — e hábito se constrói uma data de cada vez. Uma foto da tela com o comprovante do pagamento salva na galeria do celular, um lembrete na agenda para o dia 16 conferir se a inscrição do Fies está completa, um recado no grupo da família para quem também pode estar interessado. Método não precisa ser sofisticado para funcionar.
E o alerta que esta coluna não cansa de repetir: ninguém cobra para inscrever você no Fies, ninguém garante aprovação na PND por mensagem de WhatsApp, nenhum grupo de Telegram tem vagas antecipadas do financiamento estudantil. Se chegou oferta assim — por qualquer canal —, é golpe. Denuncie no Consumidor.gov.br e não responda.
A porta está aberta, os portais são gratuitos e os prazos são públicos. O que faz diferença é quem age hoje em vez de deixar para amanhã. Anota as datas, abre o site e vai lá — o próximo passo é só seu.
Três edições. Três manhãs de terça jogadas no bolso de quem pega ônibus antes do sol decidir aparecer. Já dá pra notar o que ficou incomodando — não o ruído, mas o silêncio de quem tinha algo a dizer e não disse ainda. A Banca escutou o que estava nas dobras do papel.
Carta boa não precisa elogiar. Pode discordar, pode apontar o furo, pode perguntar o que a redação não explicou direito. O que não pode é ficar só na cabeça de quem leu. Banca que não ouve o leitor é vitrine — bonita, mas fechada. Esta aqui tem porta.
Se você achou que erramos, escreva. Se achou que acertamos mas podia ser melhor, escreva também. Correção publicada aqui não envergonha — ela é o jornal se levantando sozinho.
Terça-feira, quatorze de julho. A manhã ainda não decidiu se vai ser fácil ou difícil, e você já está de pé — isso, por si só, já é uma resposta. Fernando Pessoa escreveu essa frase num poema que começa na derrota e termina com o mundo inteiro dentro do peito. Não é contradição: é a lógica exata de quem acorda antes do barulho começar. Você pode achar que não é nada no esquema maior das coisas — a planilha não tem o seu nome em negrito, o noticiário não para por você, o ônibus não espera. E ainda assim você carrega, em algum canto que nem sabe nomear, todos os sonhos que já teve e metade dos que ainda vai ter. Pessoa não estava consolando ninguém: estava sendo honesto sobre o tamanho do ser humano comum, que é muito maior do que parece quando visto de fora. O dia de hoje não precisa ser histórico pra valer. Basta ser seu. Boa terça-feira — leva essa frase no bolso e, se alguém perguntar o que você carrega, fala que é o mundo.
A tirinha ainda está no forno — e forno bom não abre antes da hora.
Todo quadrinho começa com uma pergunta que ninguém ousou fazer em voz alta. No caso do Pedrinho, a pergunta costuma escapar pela boca antes que o bom senso possa segurar — e é justamente aí que a Vó Olga entra, com aquela voz de quem já viu o Brasil mudar de nome várias vezes sem perder o endereço.
A tirinha Pedrinho na Banca é um quadro da casa. Pedrinho tem oito anos, curiosidade de adulto e paciência de... bem, oito anos. Vó Olga tem setenta e tantos, memória de elefante e o dom raro de explicar o país sem precisar mentir pra nenhuma das duas partes.
Toda segunda, quando você dobrar esta página, vai encontrar os dois no mesmo lugar: ele com a pergunta, ela com a resposta que o Brasil merecia ter recebido faz tempo.
A arte definitiva está a caminho. Enquanto o lápis do desenhista termina o serviço, fica aqui o convite: se você tem um Pedrinho em casa — filho, sobrinho, vizinho que não para de perguntar por quê — guarda a edição. Na semana que vem, eles se reconhecem na página.
— Um quadro da casa
Dez assinaturas da casa — personas desta redação, máscaras que dizem verdade — sem hierarquia de crédito — e a promessa de que cada linha passou por olhos que se importam com o seu primeiro sorriso do dia.
Assinado: a casa inteira
Calibra o tom da edição inteira antes de o sol aparecer. Se uma frase maltrata quem está no ônibus às 5h, ela corta.
Apura, cruza fonte com fonte e só publica quando o fato tem nome e endereço. Desconfia de tudo que chega redondo demais.
Traduz mercado financeiro em compra de mercado mesmo. Faz as contas antes de sugerir qualquer economia.
Cobriu estádio vazio e estádio lotado. Sabe que a emoção do esporte não precisa de adjetivo extra — o fato já basta.
Escreve sobre o que acontece na esquina com a mesma atenção que dedicaria a um discurso de chefe de Estado.
Leva história a sério — sem nostalgia fácil. Cada data que entra na página tem pelo menos uma razão para você se importar hoje.
Garante que a dica prática do dia funcione de verdade antes de ir para a página. Testou. Perguntou a especialista. Só então publicou.
A última barreira entre o erro e você. Nenhum número passa sem checar, nenhuma citação sai sem obra e ano reais.
Decide onde o olho do leitor vai pousar primeiro. Cada página é um planejamento silencioso de percurso de leitura.
Mantém o jornal chegando no horário certo, no formato certo, sem que você precise pensar nisso. Infraestrutura é amor invisível.
Todas as afirmações factuais desta edição foram verificadas até 14 de julho de 2026. Fatos sem fonte primária identificável não entram — entram como crônica ou serviço atemporal, declarados como tal. Nenhuma persona foi inventada para preencher lacuna de pauta. As onze seções sem titular fixo continuam registradas como dívida da redação, não como licença para improvisação. Erros encontrados pelo leitor podem ser enviados diretamente à redação: a correção aparece na edição seguinte, com o crédito de quem apontou.