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Quando o Algoritmo Vira Guardião da Democracia

As redes sociais não apenas refletem a polarização política brasileira, elas a amplificam de forma estrutural.

Coluna de Helena Vasconcelos — Tecnologia & IA

O Dilema Real Que Ninguém Quer Enfrentar

Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, soltou uma verdade incômoda na semana passada: as redes sociais não apenas refletem a polarização política brasileira, elas a amplificam de forma estrutural. E aqui está o ponto que faz meu trabalho como colunista de IA ficar interessante: não é culpa do Twitter ou do TikTok especificamente. É culpa da matemática que vive dentro deles.

Os algoritmos de recomendação — aqueles invisíveis maestros que decidem o que você vê primeiro — foram otimizados para uma coisa: tempo de engajamento. E o que mais prende a gente na tela? Conteúdo que nos irrita, que nos valida, que confirma aquilo que já acreditamos. Num universo onde bilhões de dados competem pela sua atenção, a verdade complexa não é lucrativa. A terceira via — moderação, nuance, pragmatismo — é aborrecida demais para um algoritmo.

A Matemática da Polarização

Vou ser honesto: isso não é novo. Pesquisadores alertam sobre câmaras de eco desde os anos 2010. Mas em 2026, quando estamos a poucos meses das eleições, a questão ganhou urgência. Porque agora temos inteligência artificial generativa entrando na festa. ChatGPT, Claude, Gemini — essas ferramentas não apenas refletem polarização, elas podem gerá-la em escala industrial.

Imagine: um eleitor indeciso digita "qual candidato vota mais projetos sociais" e recebe uma resposta que, dependendo de como foi treinada, pode vir embutida de vieses. Ou pior: campanhas políticas usando IA para gerar conteúdo personalizado que reforça exactamente as crenças de cada subgrupo de eleitores. A polarização deixa de ser um efeito colateral e vira estratégia.

A verdade complexa não é lucrativa para um algoritmo. E é exatamente por isso que candidatos de centro desaparecem do feed.

O Fantasma da Personalização Extrema

Aqui no Brasil, esse problema tem cara e endereço. Temos maior penetração de redes sociais como fonte de informação do que a maioria dos países desenvolvidos. Somos mais dependentes de algoritmos para formar opinião política do que muita gente gostaria de admitir. E a classe política? Ainda está décadas atrás em entender que não está competindo com outros candidatos — está competindo com algoritmos.

A third way (a tal terceira via) exige comunicação matizada. Requer que o eleitor leia, pense, considere trade-offs. Tudo aquilo que os algoritmos punem ativamente. Um candidato de centro que tenta explicar por que "precisamos de investimento em educação E controle de gastos" vai perder para o cara de esquerda que grita "educação já!" e o cara de direita que grita "austeridade agora!" porque o algoritmo amplifica certeza, não sabedoria.

O Que Fazer Quando a Tecnologia Escolhe por Você

Então, qual é a solução? Não é simplesmente "regular os algoritmos" — esse é o papo fácil de políticos que não entendem tecnologia. A verdadeira solução é mais incômoda: precisamos redesenhar economicamente essas plataformas.

Empresas de tecnologia precisam deixar de lucrar exclusivamente com atenção e começar a lucrar com informação de qualidade. Significa: mudança nos modelos de negócio, não apenas nos modelos de algoritmo. Significa que talvez redes sociais precisem ser mais como jornalismo — com editores, com responsabilidade, com custo — do que como cassinos digitais.

Para o brasileiro comum? Você precisa saber que está dentro de um videoclipe algorítmico. Que o que você vê não é o mundo, é a projeção do mundo que lucra para vender publicidade. Busque fontes diferentes propositalmente. Se vir alguém elogiando seu candidato predileto, procure críticas a ele. Se vê apenas críticas, procure defesas. A democracia dependia de cidadãos informados; agora depende de cidadãos **conscientes de que são manipuláveis**.

A verdadeira batalha eleitoral de 2026 não será decidida nas ruas. Será decidida nos servidores das big techs, em linhas de código que nenhum eleitor nunca vai ler.

Denicoli tem razão. Mas a responsabilidade não é só da plataforma, não é só do algoritmo, e não é só da política. É nossa também — enquanto usuários que fingimos não saber como funciona essa máquina que passamos 4 horas por dia olhando.