O Viés Invisível nos Bastidores

todas as empresas que cobrimos com entusiasmo tinham um detalhe em comum — seus fundadores eram ex-alunos do mesmo acelerador de inovação…

Coluna de Sebastião Leal — Ombudsman

A Confissão que Ninguém Quer Fazer

Há três semanas, recebi uma reclamação que me deixou acordado até tarde. Uma leitora apontava um padrão incômodo em nossas reportagens sobre startups: todas as empresas que cobrimos com entusiasmo tinham um detalhe em comum — seus fundadores eram ex-alunos do mesmo acelerador de inovação que patrocina nossos eventos. Achei que fosse coincidência. Peguei os últimos seis meses de cobertura e comecei a contar.

Ela tinha razão. E foi humilhante descobrir isso.

O Problema que Nem Vemos

Viés de confirmação é aquele inimigo que age na sombra. Não é corrupção — ninguém tomou dinheiro embaixo da mesa. Não é mentira descarada — os números dos artigos estavam corretos. É algo mais insidioso: escolhemos repetidamente as histórias que confirmam nossas preferências, sem sequer perceber que estamos fazendo seleção enviesada.

"A verdadeira credibilidade não nasce de reportagens perfeitas. Nasce de admitir quando erramos de forma sistêmica."

Conversei com nosso editor-chefe, Marina. Ela confirmou o que já suspeitava: ninguém fez isso propositalmente. Mas justamente por isso é pior. Quando a tendência é inconsciente, ela se perpetua. A pauta que chega sobre uma startup "desconhecida" recebe menos entusiasmo porque não se encaixa na narrativa que já construímos. O pitch de um jornalista sobre tecnologia no interior recebe uma resposta mais fria porque não é "conectado ao ecossistema".

O Que Fizemos Errado (e o que Vamos Corrigir)

Primeiro, vou ser honesto: a Xaplin fez reportagens boas sobre essas startups. Não foram matérias ruins. Mas foram matérias selecionadas por um filtro invisível que privilegiava histórias de um universo específico. Isso é fracasso editorial, mesmo que disfarçado de competência.

Segundo, nossos leitores merecem saber como funciona a cozinha. Vamos começar a publicar, mensalmente, um relatório de transparência sobre as fontes que mais aparecem em nossas reportagens. Quem financia quem. Quais setores recebem mais cobertura. Quais empreendedores aparecem repetidamente. Que o leitor veja o padrão junto conosco.

Terceiro — e isto é o mais importante — precisamos aprender a dizer "não sei" com mais frequência. Quando um tema cai fora do nosso radar habitual, isso não significa que é menos relevante. Significa que precisamos trabalhar mais para entendê-lo.

Por Que Estou Falando Disso Agora

Porque ombudsman que só elogia é agência de marketing disfarçada. Meu trabalho não é defender a Xaplin contra críticas externas. É trazer as críticas para dentro, ampliá-las, tornando-as vulgares e visíveis. Se eu apenas aplaudisse, estaria participando da mesma ilusão que quase nos levou ao descrédito.

O jornalismo respeitável se constrói em três pilares: reportagem rigorosa, transparência sobre limitações e humildade quando erros são descobertos. Temos o primeiro e o segundo em bom nível. O terceiro, precisávamos exercitar mais.

"Qualidade não é sinônimo de perfeição. É a coragem de enxergar suas próprias manchas e nomeá-las em voz alta."

Uma Palavra Aos Leitores que Nos Apontam Os Espelhos

Obrigado. Mesmo quando dói. Especialmente quando dói. Vocês não estão sendo injustos quando apontam padrões em nossa cobertura — estão fazendo o trabalho que nós devíamos estar fazendo sozinhos.

A confiança é um contrato que se renova a cada semana. Não é suficiente ter publicado boas reportagens no passado. É necessário merecer sua atenção hoje.

Estamos trabalhando para isso.

Sebastião Leal é Ombudsman da Xaplin desde 2023

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