O Sermão de Lula sobre Redes Sociais Revela a Verdadeira Crise
Expõe o desespero de uma classe política que perdeu o monopólio da narrativa e agora quer recuperá-lo através do Estado.
Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade
Quando o Presidente Descobre a Internet em 2026
Lula descobriu as redes sociais. Depois de dez anos convivendo com a realidade digital, após duas passagens pelo Palácio do Planalto e uma condenação que circulou obsessivamente por grupos de WhatsApp, o presidente finalmente se viu compelido a reclamar publicamente sobre "muito ódio, promiscuidade, sexo e jogatina" nos algoritmos. A declaração em solo espanhol, entre líderes de esquerda, tem o sabor típico do indignado tardio que acaba de abrir uma rede social aos 78 anos.
Não é curiosidade ociosa. O discurso presidencial sobre regulação global das redes revela algo muito mais profundo que uma crítica tecnológica: expõe o desespero de uma classe política que perdeu o monopólio da narrativa e agora quer recuperá-lo através do Estado. Quando Lula fala em regulação global, não fala para técnicos. Fala para quem o ouve — e sabe que perderá.
A Ilusão da Culpa Digital
Aqui está o problema: Lula atribui ao "ódio" das redes sociais uma responsabilidade que é fundamentalmente política. As redes não criaram o ódio. Amplificaram o que já existia. Tornaram visível o que estava em sussurro nas famílias, nas filas, nas comunidades. Um país que elegeu Bolsonaro não sofria de excesso de algoritmos tóxicos — sofria de crise representativa profunda, de desemprego, de desigualdade brutal.
O presidente quer regulação global como quem quer tampar um vulcão em erupção com papel de presente. A "promiscuidade" que o incomoda não nasceu no TikTok. Nasceu de uma geração que não se vê representada nas instituições. O "sexo" que o ofende não é problema de plataforma — é problema de uma sociedade que criminaliza a sexualidade enquanto a política brasileira segue dominada por homens que falam de "valores familiares" enquanto negociam com traficantes de influência.
O Conserto do Espelho Quebrado
Chama a atenção que Lula escolha justamente uma visita internacional para fazer esse discurso. Lula em casa, cercado de ministros e deputados, não fala em regulação global. Lula em Madri, rodeado de líderes de esquerda que enfrentam exatamente os mesmos problemas nas urnas, encontra coragem para um diagnóstico que soa conservador.
Porque é isso que é: conservador. Quem governa quer que as redes sejam reguladas porque as redes expuseram a fragilidade do seu discurso. Não é à toa que o apelo vem acompanhado de críticas a "senhores da guerra" — EUA, China, Rússia, França, Inglaterra. Lula fala como quem quer recuperar um mundo que existiu antes das redes, quando a política era feita em salas fechadas, quando o povo não tinha voz porque não tinha plataforma.
"As redes não criaram nossos problemas. Apenas tornaram impossível fingir que não existem."
O Verdadeiro Vício
Se Lula quer falar em "jogatina", que comece em casa. Há quantos anos a política brasileira é um jogo de cassino onde os mesmos nomes alternam poder? Quantos anos levamos elegendo variações do mesmo roteiro — promessas de reforma, escândalos de corrupção, mais promessas, mais escândalos? Os algoritmos não inventaram esse ciclo. Apenas deixaram evidente que ele existe.
A regulação global das redes é uma distração conveniente. Faz parecer que a solução vem de cima, do Estado, de líderes reunidos em Madri falando sobre "controle". Mas o problema real não é tecnológico. É que uma geração nascida na internet não acredita mais em intermediários. Quer falar direto, sem filtro de jornalista ou porta-voz. E essa mudança fundamental de comunicação aterroriza quem construiu carreira na opacidade.
O Que Lula Não Quer Admitir
Se as redes desaparecem amanhã, o Brasil continua com seus problemas estruturais intactos. O desemprego não era digital. A desigualdade não é um algoritmo. A falta de representatividade não vem de influenciadores. Vem de uma máquina política que não consegue resolver nada porque está ocupada resolvendo para si mesma.
Então sim, regule. Mas regulação é cirurgia cosmética enquanto o tumor cresce. O verdadeiro ódio nas redes é sintoma, não doença. E enquanto a política brasileira não enfrentar suas causas — desigualdade, corrupção, falta de projeto futuro —, nenhuma regulação global vai silenciar a raiva de quem não tem mais esperança nas instituições.
Lula descobriu a internet. Agora precisa descobrir por que as pessoas a usam para gritar.