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O Preço Escondido da Instabilidade

Economias integradas globalmente não têm fronteiras quando o assunto é preço de commodities.

Coluna de Ricardo Mendes — Economia & Finanças

Quando a geopolítica chega na sua fatura

A Europa acaba de gastar US$ 28 bilhões a mais com energia por causa da guerra no Irã. Parece um problema europeu, certo? Errado. Você está prestes a pagar essa conta também—de forma indireta, mas real. Aqui está o incômodo que ninguém gosta de admitir: economias integradas globalmente não têm fronteiras quando o assunto é preço de commodities. O que acontece em Teerã afeta sua geladeira em São Paulo.

Deixe-me ser direto: esse gasto europeu não desaparece. Ele se redistribui. Quando a Europa paga mais caro por petróleo e gás no mercado internacional, reduz sua demanda por outras fontes ou compra menos de outros produtos. Isso cria efeitos cascata. Alguns países vendem menos, investem menos, crescem menos. E quando o mundo cresce menos, o Brasil—como exportador de commodities e importador de tecnologia—sente na carteira.

A conta chegará, mas demorará um tempo

A inflação de energia europeia não aparecerá imediatamente na sua conta de luz. Primeiro passa por: (1) aumento de preços ao consumidor lá fora; (2) redução do consumo europeu de energia; (3) desaceleração econômica relativa; (4) menor demanda por importações brasileiras; (5) pressão cambial no real. Estamos falando de um processo que se desenrola em meses, não dias.

Mas aqui está o ponto crucial que economista nenhum gostaria de destacar publicamente: o Brasil é vulnerável demais a choques de energia internacional. Não porque importa muito petróleo—importa menos do que costumava—, mas porque o sistema energético nacional depende de hidrologia previsível, que não é garantida. Quando chove menos, usamos mais termelétricas (caras). Quando o mundo paga mais por energia, as termelétricas ficam ainda mais caras. Simples assim.

O Irã é só a ponta do iceberg

A verdade incômoda: vivemos em um mundo onde conflitos geopolíticos viraram variáveis econômicas permanentes. Não é uma novidade desde 2022—é uma tendência que não vai embora tão cedo. Enquanto isso, decisões de política econômica doméstica (taxa de juros, investimentos em energia renovável, eficiência de distribuidoras) ganham importância relativa ainda maior, porque são as únicas que podemos controlar.

A Europa gastou US$ 28 bilhões a mais. Número grande, abstrato. Mas sabe o que significa em termos práticos para você? Significa que cada euro gasto em energia é um euro que não entra em compras de máquinas brasileiras, não financia projetos de infraestrutura que poderiam demandar aço nosso, não se transforma em investimento. E quando a Europa desacelera, o Brasil desacelera também—não instantaneamente, mas inexoravelmente.

O que fazer com essa informação?

Primeiro: entenda que sua conta de luz pode subir não porque o governo foi incompetente, mas porque o mundo ficou mais caro. Isso não o absolve de responsabilidade, mas ajuda você a não cair na armadilha de culpar apenas causas domésticas. A realidade é mais complexa.

Segundo: diversifique. Se você tem renda em real, considere que inflação importada é um risco real. Se tem dívida em dólar, saiba que ciclos geopolíticos tendem a fortalecer moedas-refúgio. Se depende de energia cara (seja para negócio ou consumo), comece agora a pensar em eficiência, não quando a fatura chegar.

Terceiro: acompanhe. Essa guerra no Irã não vai simplesmente resolver-se. Conflitos geopolíticos modernos têm tendência a se cronificarem, criando incerteza permanente nos preços. Você precisa estar atento não para especular, mas para se proteger.

O chamado final

A Europa pagou US$ 28 bilhões. Você pagará menos em números absolutos, mas em termos relativos (percentual da renda), pode acabar pagando mais. É assim que funciona quando você está mais para baixo na cadeia econômica global. Não é justo, mas é realidade. Agora que você sabe, comece a agir.