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Colômbia desafia Washington e expõe a velha fraude da guerra às drogas

Disse não aos Estados Unidos. Na quinta-feira, o governo Petro suspendeu a pulverização aérea de glifosato nas plantações de coca, rejeitando…

Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade

Quando a submissão se torna insustentável

A Colômbia fez algo que poucos países latino-americanos conseguem fazer sem tremer as pernas: disse não aos Estados Unidos. Na quinta-feira, o governo Petro suspendeu a pulverização aérea de glifosato nas plantações de coca, rejeitando uma das principais estratégias da política antidrogas financiada por Washington há décadas. Não é um gesto menor. É o reconhecimento de que uma mentira repetida bilhões de vezes continua sendo mentira.

A reação americana foi previsível: silêncio gelado, ameaças indiretas, comunicados sobre "preocupações com segurança". É o roteiro que conhecemos bem. Mas o mais interessante aqui não é a bravata geopolítica — é o que essa decisão revela sobre a falência de um modelo que os EUA tentou nos vender por mais de 50 anos como solução definitiva para o narcotráfico.

A mentira científica que custou vidas

Vamos ser claros: a pulverização aérea nunca funcionou. Não para reduzir consumo de cocaína. Não para desmantelar cartéis. E definitivamente não para "proteger a saúde pública", como os defensores fingem acreditar. Funcionou, isso sim, para destruir ecossistemas inteiros, contaminar água potável, provocar abortos espontâneos em comunidades indígenas e campesinas, e criar uma cicatriz ambiental que a Colômbia ainda carrega como tatuagem de subordinação.

Os números desmentem toda a narrativa. Enquanto a Colômbia pulverizava — e pulverizou por mais de vinte anos — o cultivo de coca não apenas não desapareceu como se expandiu. Migrou. Mudou de forma. Ficou mais rentável. O que funcionou foi transformar a Colômbia num laboratório para experimentação sem supervisão real, num quintal donde os EUA podiam fazer o que bem entendesse em nome da "segurança hemisférica".

Petro quebra um tabu que outros não ousaram

Gustavo Petro, presidente eleito pela esquerda, fez o que nenhum predecessor conseguiu fazer: colocar em questão o próprio fundamento da relação entre Washington e Bogotá. Não é uma postura radical. É a constatação óbvia de que pulverizar veneno sobre seu próprio território enquanto o problema continua crescendo é, no mínimo, uma estratégia fracassada.

O governante colombiano propõe, em seu lugar, políticas de substituição de cultivos e tratamento do vício como questão de saúde pública — exatamente o oposto do que a guerra às drogas pregou. Soa revolucionário apenas porque vivemos numa região onde questionar a cartilha americana é ainda considerado ousadia.

O custo político da covardia

Aqui entra a questão que deveria interessar a qualquer democracia: por quanto tempo um país continua implementando políticas que prejudicam sua população porque seu vizão poderoso pediu? A resposta não é "indefinidamente". Muda quando surge um líder disposto a pagar o preço político de dizer não.

Os EUA não vão invadir a Colômbia por causa disso. Vão aplicar pressão econômica, vão ameaçar reduzir ajuda militar, vão sussurrar em corredores diplomáticos. Mas não vão romper relações. A Colômbia é importante demais geograficamente, e os EUA sabe que repetir o mesmo fracasso ad infinitum é mais custoso politicamente agora.

Uma lição que outros países fingem não enxergar

O que torna essa decisão particularmente significativa é sua simplicidade: não é uma revolução, é pragmatismo. Petro não está rejeitando a parceria com os EUA — está rejeitando uma ferramenta que não funciona. É exatamente o tipo de argumento que deveria ser irrefutável, mas que na geopolítica latino-americana foi silenciado por décadas em nome da obediência.

Enquanto isso, o Brasil, o México e outros países continuam fazendo concessões sobre pontos ainda mais críticos — segurança alimentar, soberania energética, política externa — sem ao menos questionarem o retorno. A Colômbia mostrou que é possível dizer não e sobreviver. Essa lição deveria incomodar muito mais gente.

A pulverização foi suspensa. Agora o verdadeiro teste começa: se as políticas alternativas funcionarão ou se será apenas substituição de rótulos. Mas pelo menos — finalmente — alguém teve coragem de admitir que o rótulo antigo estava vencido.