Trump quer Putin em Miami
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende convidar Vladimir Putin para a cúpula do G20 marcada para dezembro em Miami.
O Fato
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende convidar Vladimir Putin para a cúpula do G20 marcada para dezembro em Miami. A informação foi divulgada pelo jornal "The Washington Post" nesta quinta-feira, 23 de abril de 2026, e representa uma mudança significativa na diplomacia americana em relação ao conflito russo-ucraniano que persiste há mais de dois anos.
O G20 é o fórum das maiores economias mundiais, integrando países como Brasil, Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá, Coreia do Sul, Austrália, México, Argentina, Indonésia, Arábia Saudita, Turquia, África do Sul e União Europeia. Esse grupo é responsável por coordenar políticas econômicas e comerciais globais, sendo crucial para discussões sobre inflação, crescimento econômico e estabilidade financeira.
A proposta de Trump marca uma posição distinta de seu primeiro mandato. Em 2022, durante a administração Biden, a Rússia foi praticamente isolada dos organismos internacionais após a invasão da Ucrânia em fevereiro. Na época, as nações do G20 divergiram profundamente, com pressão para excluir Moscou de reuniões. A Indonésia, então presidência rotativa do grupo, permitiu a participação de Putin via vídeo em algumas sessões, evitando um rompimento total.
O encontro entre Trump e Putin no Alasca em agosto de 2025 sinalizava uma reaproximação. Agora, a possibilidade de um convite direto para a cúpula em Miami amplifica essa mudança de postura. A decisão coloca em xeque a coesão entre aliados ocidentais, especialmente europeus e o próprio Brasil, que como presidente anterior do G20 (2022) apoiou uma condenação explícita à invasão russa.
Segundo o "Washington Post", Trump acredita que reintegrar a Rússia nas estruturas multilaterais pode facilitar negociações sobre a guerra na Ucrânia e outros temas globais. No entanto, a medida não é automática: a aceitação de Putin dependeria de consentimento dos demais membros do G20, e há forte resistência esperada de países como Reino Unido, França, Alemanha e possivelmente do Brasil, que mantém posição diplomática equilibrada no conflito.
A Análise de Beatriz Fonseca
Esse movimento de Trump é menos sobre inclusão diplomática e mais sobre reconfiguração de poder global. O convite a Putin em Miami não é um gesto de generosidade geopolítica; é uma afirmação clara de que o novo establishment americano opera em lógicas diferentes das prioridades que orientaram a resposta ocidental ao conflito ucraniano.
O que nos preocupa aqui não é apenas o isolacionismo americano crescente, mas a mensagem que envia: a de que as regras internacionais são negociáveis quando convêm a quem detém poder. Trump pragmaticamente acredita que ter Putin "à mesa" favorece seus objetivos de negociação sobre a Ucrânia. Pode estar certo. Mas essa lógica transacional mina o sistema que permitiu, por décadas, que países médios como Brasil tivessem voz em estruturas globais.
O dilema brasileiro é espinhoso. Nosso governo historicamente se posiciona como ponte entre blocos, evitando alinhamentos rígidos. Mas essa flexibilidade tem limites: a legitimidade das instituições multilaterais depende de mínimos éticos compartilhados. Aceitar Putin sem condições é sinalizar que a invasão de 2022, com seus 600 mil mortos, ficou perdoada.
"A diplomacia sem princípios não é pragmatismo; é capitulação mascarada de realismo."
O que Trump não calcula—ou deliberadamente ignora—é que essa reaproximação com a Rússia fragmentará ainda mais o G20. Se Putin vier, países europeus podem questionar sua legitimidade. Se não vier por pressão conjunta, o grupo terá fracassado em manter seu principal membro americano alinhado. Ou seja, perdemos em ambos os cenários.
A questão não é simplesmente se Putin virá. É se estamos dispostos a permitir que um fórum econômico global se converta em palco para legitimação de agressões territoriais. Porque hoje é a Ucrânia; amanhã pode ser qualquer democracia vizinha a uma potência regional.
Esse jogo de cadeiras geopolíticas nos convida a pensar: em que tipo de ordem internacional queremos participar—uma onde regras importam, ou outra onde apenas o poder prevaleça?Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.
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