O isolamento de Lula na esquerda europeia expõe a fragilidade
Estar cercado por pares, debater o avanço da direita radical, trocar ideias sobre resistência democrática. Bonito no papel. Problemático na prática.
Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade
Quando a solidariedade de esquerda vira luxo que o Brasil não pode pagar
Lula desembarcou na Espanha com o mesmo entusiasmo de quem retorna ao clube de amigos após anos na geladeira. A reunião da esquerda europeia é aquela coisa que faz bem ao ego presidencial: estar cercado por pares, debater o avanço da direita radical, trocar ideias sobre resistência democrática. Bonito no papel. Problemático na prática.
O incômodo não está em Lula participar de encontros internacionais. Está no timing, no contexto e na ilusão que esses eventos alimentam. Enquanto o presidente brasileira se envolve em discussões abstratas sobre o futuro da esquerda global, sua base política doméstica desmorona sob seus pés. E ninguém quer falar sobre isso em Madrid.
A crise que não cabe no comunicado final
Vamos aos fatos. O arcabouço fiscal que Lula prometeu entregar como solução para a inflação e a credibilidade externa está sendo desconstruído pelo próprio governo. O Banco Central, que deveria ser blindado da pressão política, recebe ataques públicos do Palácio do Planalto. A reforma tributária avança em ritmo de lesma. E o presidente passa a semana conversando com socialistas europeus sobre como barrar Bolsonaro 2.0 no continente.
Isso não é apenas um problema de agenda. É um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade de Lula de manter simultaneamente dois compromissos que ele mesmo criou. De um lado, o reformista que faz concessões ao mercado. Do outro, o esquerdista que quer se solidarizar com movimentos progressistas globais. Os europeus adoram a segunda versão. O Brasil precisa da primeira.
"A solidariedade internacional é luxo de quem tem casa em ordem. Lula não tem."
O espelho que a esquerda europeia não quer olhar
Há algo profundamente desconfortável nessa reunião que ninguém menciona nos press releases. A esquerda europeia convida Lula para debater como resistir à extrema-direita enquanto ignora que o modelo econômico que ele está tentando implementar no Brasil é exatamente o que falhou na Europa. Austeridade fiscal disfarçada de responsabilidade. Contenção de gastos sociais em nome da credibilidade. É o mesmo receituário que alimentou os votos em Marine Le Pen, Viktor Orbán e Giorgia Meloni.
Lula está prestes a assinar um pacto com forças que historicamente se alimentam de decepção. Quando você promete transformação e entrega ajuste, quando fala em direitos e executa congelamento, você cria exatamente o terreno fértil para que a direita radical prospere. E a esquerda europeia, por alguma razão, acha que isso é "pragmatismo".
O preço de ficar com os dois sapatos
O verdadeiro campo minado aqui não é diplomático. É político. Cada dia que Lula gasta em reuniões internacionais sobre a defesa da democracia é um dia em que ele não está no Brasil explicando por que seu governo não consegue controlar a inflação, por que está rebaixando servidores públicos ou por que o Banco Central precisa continuar independente — justamente porque essa independência o protege de pressões como as que ele mesmo está fazendo agora.
A contradição é visceral. Você não pode ser o presidente que defende instituições autônomas em Madri enquanto as desrespeita em Brasília. Você não pode ser o guardião da esquerda contra o fascismo enquanto implementa políticas que historicamente preparam o terreno para ele. E você definitivamente não pode oferecer solidariedade internacional quando sua própria solidariedade doméstica — com a base que o elegeu — está em frangalhos.
O que deveria estar na agenda
Se Lula voltasse para Brasília e gastasse meia dúzia de segundas-feiras resolvendo os problemas reais do país em vez de trocar abraços com Pablo Iglesias e amigos, talvez a esquerda tivesse algo real para celebrar na próxima reunião internacional. Talvez pudesse dizer: "Conseguimos estabilizar a economia mantendo a distribuição de renda. Conseguimos defender instituições enquanto as respeitávamos. Conseguimos unir pragmatismo com compromisso".
Enquanto isso não acontecer, esses encontros continuarão sendo o que sempre foram: catarses para quem já perdeu a guerra e ainda não admitiu. E Lula, apesar de toda sua experiência política, parece preso nela também.