O gol contra a Noruega e a pergunta que o Santos teme
Análise · Marcos Tibúrcio Existe uma cena que o futebol conhece bem.
Análise · Marcos Tibúrcio
Existe uma cena que o futebol conhece bem. O jogador sai de campo depois de uma derrota importante, desaparece nos vestiários e, quando volta à luz, já é outro. A pergunta que o Santos faz agora, em silêncio, é se Neymar voltará de vez — ou se o gol contra a Noruega, aquele que selou a derrota por 2 a 1 e encerrou a Copa do Mundo do Brasil nas oitavas de final, não foi a última cena de um longo drama.
A data está marcada. Dia 17 de julho, CT Rei Pelé, reapresentação. No papel, é o passo seguinte de um contrato que vai até dezembro. Internamente, há quem confie no compromisso do camisa 10. Mas a data num calendário nunca foi garantia de presença — e o clube sabe disso melhor do que ninguém. Nos últimos anos, Neymar tornou-se, para o Santos, uma figura mais ausente do que presente. O clube ainda lhe deve mais de 90 milhões de reais em direitos de imagem e fez um acordo para estender o pagamento até 2030. Essa dívida, curiosamente, é o único laço entre os dois que tem prazo concreto.
A fonte que descreveu Neymar como "de saco cheio" resume um estado que não nasceu no estádio de Atlanta ou onde quer que o Brasil tenha sido eliminado. É o acúmulo de anos. Lesões que voltavam quando a forma chegava. Uma carreira construída sob uma pressão que o país inteiro colocou sobre um único par de pernas. E a Copa do Mundo de 2026 que terminou do pior jeito para quem precisava de redenção.
O pai de Neymar foi às redes sociais pedir ao filho que continue. Quando o pai vai a público pedir ao filho que continue, é porque não sabe se o filho vai continuar.
O Santos tem três competições pela frente. O Brasileirão retorna no dia 16. A Copa do Brasil e a Sul-Americana também aguardam. E é justamente o torneio continental que os bastidores santistas tratam com esperança — a Sul-Americana é analisada como possibilidade real de título, o que seria conquista inédita para Neymar. A ideia é sedutor do ponto de vista narrativo: o craque de 34 anos, depois de tudo, erguendo uma taça que nunca levantou. O futebol gosta dessas histórias. Mas elas exigem que o protagonista apareça.
O primeiro compromisso pela Sul-Americana é no dia 21, fora de casa, contra a Universidad Central da Venezuela. A presença de Neymar na viagem já é incerta — e o jogo está quatro dias depois da reapresentação. O clube mantém relação cordial com a NR Sports, empresa da família. Relação cordial é o que existe quando ninguém quer fazer a pergunta em voz alta.
O que há, no fundo, é uma carreira que chegou à sua encruzilhada mais honesta. Não a encruzilhada do mercado, não a do contrato. A encruzilhada do jogador que olha para o espelho depois de uma Copa e precisa decidir se ainda quer o que o futebol exige de quem o pratica. O Santos marcou o dia 17 de julho. O que Neymar vai fazer com esse dia, só ele sabe.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Santos marca reapresentação de Neymar para 17 de julho
Fonte: ge