O espelho que a CPI vê no STF não reflete o próprio rosto

Crítica aos ministros mascara incapacidade de uma comissão que preferiu investigação política a apuração técnica.

Coluna de Beatriz Fonseca — Política & SociedadeDek: Crítica aos ministros mascara incapacidade de uma comissão que preferiu investigação política a apuração técnica.

Quando a acusação vira espelho

O presidente da CPI do INSS acusa o Supremo Tribunal Federal de politização. A denúncia ressoa com naturalidade entre quem já desconfia das instituições. Mas há uma inversão silenciosa nessa queixa que merecia exame — e ela diz muito mais sobre a própria comissão do que sobre os ministros.

Uma CPI politizada é aquela que escolhe seus alvos segundo lealdades partidárias, que alterna o rigor investigativo conforme o padrinho de quem está na mira, que conclui antes de investigar. O STF, ao apreciar decisões da comissão, examina justamente se houve deslizes processuais, invasão de competências, violação de direitos. Isso não é politização: é limite constitucional.

O detalhe incômodo que ninguém menciona

A CPI do INSS nasceu sob suspeita. Não pela origem — comissões parlamentares nascem sempre de alguma pressão — mas pelo método. Grupos de deputados e senadores com históricos diferentes, que nunca investigavam juntos nada, mobilizaram-se simultaneamente em torno de uma instituição. O INSS tornou-se refém de uma narrativa pré-fabricada: a do roubo, da corrupção sistêmica, da gestão criminosa.

Isso não é investigação. É encenação com pretensão de inquérito. E quando o Supremo toca nesses limites — quando pede fundamentação consistente, documentação, nexo causal — a comissão grita que está sendo cerceada. Como se evidência fosse censura.

A diferença que importa

Um ministro do STF pode estar errado. Pode votar conforme preferências ideológicas encobertas. Mas quando o faz, deixa rastro: voto fundamentado, argumentação pública, possibilidade de crítica institucional registrada. Um parlamentar em CPI pode fazer o mesmo — escolher o culpado de antemão — e chamar de "trabalho investigativo".

O STF ao menos é obrigado a justificar. A CPI não. Tem poder de polícia, acesso a documentos, prerrogativa de ouvir. Se erra, não presta contas — presta relatório que ninguém lê. O discurso de que ministros "politizam" enquanto comissões apenas "investigam" inverte a realidade dos incentivos institucionais.

A crise real que ninguém quer nomear

O INSS de fato enfrenta problemas. Perícias atrasadas, fila de processos, servidores defasados. São questões que mereceriam investigação competente — técnica, prospectiva, sem vencedor predeterminado. Em vez disso, o que se viu foi captura por narrativa: encontrar o culpado faz parte do script antes de qualquer apuração séria.

O STF ao questionar achados da CPI não está sendo "político". Está exercendo função de freio, ainda que com falhas, ainda que tarde. A comissão, ao atacar o Supremo, revela só isso: que preferiu acusação a rigor, que quer apuração sem rédea.

Nenhuma dessas instituições merece crédito automático. Mas quando uma delas acusa a outra de fazer exatamente o que faz dela mesma, há engano em jogo. E o leitor merecia saber qual.

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