O Dólar Que Oscila Demais
O dólar fechou abaixo de R$ 3, e isso deveria ser uma boa notícia. Mas a realidade é mais complexa.
Coluna de Ricardo Mendes — Economia & Finanças
A Volatilidade que Ninguém Pediu
Vou ser direto: o dólar fechou abaixo de R$ 3, e isso deveria ser uma boa notícia. Mas a realidade é mais complexa. Essa oscilação maluqueta durante o pregão de sexta-feira — queda pela manhã, recuperação à tardinha — revela um problema muito mais profundo que está destruindo a previsibilidade financeira do brasileiro comum.
A manchete fala em "operações pontuais" e "cautela em relação às atuações do Banco Central". Traduzindo para o português claro: alguns grandes operadores compraram dólar no fim do dia, e todo mundo fica de olho em cada fôlego do BC. Isso não é normalidade. Isso é um mercado nervoso, frágil e completamente refém de decisões de última hora que ninguém consegue prever.
O Problema Real: Ninguém Planeja com Certeza
Imagine que você quer comprar um carro em dólares em 30 dias. Na segunda-feira passada, estava R$ 2,95. Sexta estava abaixo de R$ 3. Mas durante o dia oscilou como um pêndulo. Como você faz um orçamento? Como a indústria que depende de importação calcula seus preços? Como uma empresa exportadora sabe quanto vai ganhar?
"Essa volatilidade cambial não afeta só o dólar: ela encarece produtos importados sem aviso prévio, desestimula importadores a fazer grandes pedidos e cria um estado de paranoia permanente nos negócios."
O problema é que essa instabilidade cambial acaba refletindo no supermercado, na farmácia, nas parcelas do financiamento do seu carro importado. Quando o dólar sobe e desce várias vezes por semana, as empresas não sabem se devem repassar o preço ou não — então repassam antes de arriscar.
O Verdadeiro Vilão da História
A coluna menciona que operadores estão "cautelosos em relação às atuações do Banco Central no câmbio". Aqui está o nó: o mercado não confia em qual será a próxima decisão. O BC intervém? Não intervém? Quanto? Quando? Essa incerteza sobre as próprias ações da autoridade monetária é combustível para especulação.
Quando grandes operadores ficam constantemente analisando se o BC vai fazer algo no câmbio, eles passam a agir defensivamente — comprando dólar como proteção, como que dizendo "não sei o que vem aí, mas vou me guardar". É um ciclo perverso que realimenta a volatilidade.
E Seu Bolso Nesse Meio-Termo?
Enquanto isso, quem sofre é o trabalhador comum. Você que ganha em real não controla em qual moeda suas despesas estão "indexadas". Roupas, eletrônicos, combustível, remédios — muita coisa tem alguma componente dólar embutida. A oscilação cambial, especialmente quando é tão errática, é uma forma silenciosa de redução de poder de compra.
Se você está pensando em viajar para o exterior em 2026, essa volatilidade atrapalha seu planejamento. Se é pequeno empresário que importa insumos, essa incerteza aumenta seu risco. Se trabalha em exportação, a oscilação faz você perder negócios por não conseguir dar preço firme.
O Que Fazer Enquanto Isso?
Não tenho bola de cristal — ninguém tem. Mas enquanto o mercado fica nesse estado de nervosismo constante, algumas ações fazem sentido: diversificar sua renda em moedas (se tiver capacidade), evitar decisões grandes que dependam de câmbio estável no curto prazo, e acompanhar não só o preço do dólar, mas as sinalizações do BC sobre política cambial.
"A verdadeira notícia não é o dólar fechar abaixo de R$ 3. A notícia é que ninguém consegue prever com segurança em qual patamar estará amanhã."
Isso não é saúde econômica. Saúde econômica é previsibilidade. E previsibilidade é o que mais falta nesse momento. O dólar oscilando por causa de "operações pontuais" é apenas o sintoma de uma moeda brasileira que ainda não conquistou a confiança nem do mercado nem dos investidores.