Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O Brasil perdeu. O fim do mundo, ainda não chegou

Análise · Marcos Tibúrcio A Noruega eliminou o Brasil no domingo, 5 de julho, e nas próximas horas as redes sociais fizeram o que sempre fazem…

O Brasil perdeu. O fim do mundo, ainda não chegou
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A Noruega eliminou o Brasil no domingo, 5 de julho, e nas próximas horas as redes sociais fizeram o que sempre fazem com dor que ainda sangra: transformaram uma derrota em profecia. "Nunca mais vamos ganhar uma Copa do Mundo", decretaram. "A seleção está totalmente despreparada", soluçaram. Um levantamento da Orbit Data Science capturou 7.855 conversas no X, no Instagram e no TikTok logo após o apito final — e em 41% delas a descrença era absoluta, sem apelação, sem recurso. Mais 12% flertavam com o mesmo abismo, só que em tom mais baixo. Apenas 17% acreditavam que o hexacampeonato viria já em 2030.

É curioso, e um pouco assustador, como a dor do futebol revela tanto sobre nós. Não sobre a bola, não sobre o técnico, não sobre o esquema tático — sobre nós. O brasileiro não torce para uma seleção. Ele empresta a ela uma parte de si. Quando perde, não é o time que falhou: é ele, é sua geração, é o país inteiro que de algum modo escorregou numa casca de banana cósmica.

A neuropsicóloga Maria Carolina Fontana Antunes, pesquisadora da Universidade Paris Cité, tem uma imagem para isso. Ela fala em óculos. Depois de uma derrota dessa magnitude — e ela cita, ela também, o 7 a 1 de 2014 — vestimos óculos de negatividade e passamos a superestimar cada sombra no horizonte. O psicólogo Lucas Freire completa a metáfora com precisão clínica e quase poética: o cérebro frustrado, diz ele, estica o presente doloroso até o infinito. É o mesmo mecanismo que convence alguém, às três da manhã depois de um término, de que jamais voltará a amar.

E sabe o que acontece? A pessoa se apaixona de novo. Sempre.

O problema não é o pessimismo — que tem razões legítimas, porque esta foi uma das piores campanhas da Seleção na história do torneio, e isso merece análise dura, não consolo barato. O problema é confundir o diagnóstico com a sentença. Uma coisa é dizer que esta seleção chegou despreparada a esta Copa. Outra, muito diferente e muito menos honesta, é decretar que o Brasil nunca mais levantará uma taça. A segunda afirmação não é futebol: é luto mal elaborado.

O que as redes sociais capturam nos minutos que seguem uma eliminação não é pensamento — é ferida. O psicólogo Sérgio Freire, da Universidade Federal do Amazonas, chama isso de pensamento catastrófico combinado ao pensamento dicotômico: ou campeão ou condenado, sem meio-termo, sem segunda-feira. É compreensível. É humano. Mas não é análise.

O Brasil tem um problema real de futebol para resolver — estrutural, técnico, geracional. Esse problema precisa ser encarado sem anestesia e sem o melodrama das redes. A arquibancada que veste preto e jura nunca mais acreditar é a mesma que vai encher o estádio na próxima convocação. Sempre foi assim. A memória da dor é curta, e a da esperança, teimosamente longa. O Brasil perdeu a Copa de 2026. Que doa. Que ensine. Mas a frase "nunca mais" — essa, o futebol já demonstrou muitas vezes que não sabe pronunciar.

*Marcos Tibúrcio — Esporte*

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil eliminado da Copa gera onda de pessimismo nas redes sociais

Fontes: g1 · BBC News Brasil