Mounjaro falsificado: o perigo que a demanda
Análise · Dra. Camila Torres A notícia de que a Anvisa determinou a apreensão de lotes falsificados do Mounjaro não surpreende quem acompanha…
Análise · Dra. Camila Torres
A notícia de que a Anvisa determinou a apreensão de lotes falsificados do Mounjaro não surpreende quem acompanha o mercado de medicamentos de alto custo no Brasil. Surpreende, talvez, que tenha demorado tanto para acontecer.
O Mounjaro — cujo princípio ativo é a tirzepatida — é um agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1, aprovado para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. Seu preço, sua escassez relativa e o apetite midiático em torno das chamadas "canetas emagrecedoras" criaram uma equação previsível: demanda explosiva, oferta insuficiente, mercado paralelo pronto para preencher o vácuo. Falsificadores não agem por acaso. Agem onde o lucro é alto e a fiscalização, difícil.
O que a Eli Lilly relatou à Anvisa é tecnicamente revelador. Entre as irregularidades identificadas nos lotes apreendidos estão números de série ausentes nos sistemas da fabricante, lotes não reconhecidos, incompatibilidade entre serial e lote informado, dispositivo físico diferente do original e, detalhe que não é menor, um erro de grafia na rotulagem — "soluction" no lugar de "solution". Esse último ponto merece atenção. Erros ortográficos em rótulos de medicamentos injetáveis são, na literatura de vigilância sanitária, um marcador clássico de falsificação artesanal. Quem falsifica com sofisticação industrial geralmente acerta a grafia. Quem erra assim opera com pressa e sem controle de qualidade — o que, do ponto de vista de segurança, é ainda mais inquietante: não sabemos o que está dentro do dispositivo.
Um medicamento injetável falsificado pode conter desde solução salina inócua até substâncias contaminadas com endotoxinas bacterianas. O dano, nesses casos, vai do simples não-tratamento à sepse.
A tirzepatida age em dois receptores hormonais simultaneamente e sua dosagem é calibrada com precisão. Um paciente diabético que injeta um produto sem princípio ativo não está apenas desperdiçando dinheiro — está deixando de tratar uma doença que, sem controle glicêmico adequado, evolui silenciosamente para complicações cardiovasculares, renais e neurológicas. Um paciente que injeta substância desconhecida corre risco imediato. As duas hipóteses são igualmente inaceitáveis.
Há uma dimensão estrutural aqui que a notícia não nomeia, mas que precisa ser dita. O fenômeno das "canetas emagrecedoras" foi amplificado por redes sociais, influenciadores e uma cobertura jornalística que frequentemente tratou uso off-label e indicações clínicas como equivalentes. Isso não é julgamento moral sobre quem usa o medicamento — é epidemiologia básica: quando a percepção pública de um produto supera sua disponibilidade regulada, o mercado informal ocupa o espaço. Sempre.
A determinação da Anvisa — proibindo comercialização, distribuição e uso dos lotes identificados — é a resposta correta dentro dos instrumentos disponíveis. Mas a fiscalização de rótulos e seriais em um mercado que inclui farmácias de manipulação, revendedores online e importações informais é, por definição, reativa. Chega depois do produto já circular.
Quem usa tirzepatida prescrita deve verificar os números de lote junto à farmácia e, em caso de dúvida, acionar a Anvisa. Quem adquiriu o produto fora de canais regulados deve suspender o uso e consultar o médico que acompanha o tratamento. Isso não é alarmismo — é o protocolo mínimo diante de uma adulteração confirmada.
Camila Torres é médica (USP) e epidemiologista (Harvard T.H. Chan). Assina a coluna de Saúde da Xaplin.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Anvisa determina apreensão de lotes falsificados do Mounjaro
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.