Lula aprofunda parceria estratégica com Espanha em minerais críticos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se na sexta-feira, 17 de abril, com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez em um encontro…
O Fato
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se na sexta-feira, 17 de abril, com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez em um encontro que marcou o início de sua agenda de negociações com líderes europeus. Durante o encontro em Madri, Brasil e Espanha selaram acordos que abrangem três setores-chave para a economia contemporânea: transporte aéreo, telecomunicações e minerais críticos, conforme informado pela G1.
O memorando de cooperação na área de minerais críticos é o ponto de maior relevância desta reunião diplomática. Os minerais críticos – compostos como lítio, cobalto, níquel e terras raras – são insumos fundamentais para a fabricação de smartphones, computadores, baterias de veículos elétricos e tecnologias de energia renovável. A disputa por esses recursos se intensificou nos últimos anos, com potências globais como Estados Unidos, China e União Europeia buscando garantir suas cadeias de suprimento. O Brasil, detentor de reservas significativas de muitos desses minerais, passa a ocupar posição estratégica nesta nova geometria econômica mundial.
Os acordos em transporte aéreo visam facilitar a circulação de passageiros e cargas entre os dois países, reduzindo barreiras regulatórias e ampliando rotas comerciais. Já o setor de telecomunicações, afetado por disputas globais sobre infraestrutura 5G e soberania digital, ganha com os compromissos bilaterais de aproximação tecnológica entre as nações ibérica e sul-americana.
Este movimento faz parte de uma estratégia maior do governo Lula de reposicionamento do Brasil no cenário geopolítico. Após quatro anos de distanciamento das instituições multilaterais durante a gestão anterior, o presidente busca reconstruir laços com a Europa – bloco que permanece como grande mercado consumidor e parceiro em inovação tecnológica. A Espanha, porta de entrada natural para negociações com a União Europeia, oferece a Lula uma plataforma de legitimidade internacional.
A Análise de Beatriz Fonseca
Há algo de simultaneamente esperançoso e preocupante nestes acordos. Esperançoso porque o Brasil, enfim, reconhece seu peso geopolítico real – não como potência militar, mas como detentor de ativos naturais decisivos para a transição energética global. Preocupante porque vimos este filme antes: o país se comporta como fornecedor de matéria-prima enquanto outros agregam valor e tecnologia.
Os minerais críticos brasileiros valem muito. Valem tanto que China, EUA e Europa estão em uma corrida silenciosa, porém feroz, por garantir acesso a eles. Quando Lula assina um memorando com Sánchez nesta área, não está apenas fazendo comércio; está posicionando o Brasil em uma negociação sobre quem controla a economia do século XXI. Isso é relevante. Mas – e aqui mora a questão crucial – estamos negociando apenas a venda de minério bruto, ou também estamos construindo capacidade de industrialização local?
"O Brasil não pode se contentar em ser a mina do mundo. Precisa ser a fábrica. Caso contrário, continuaremos ricos em recursos e pobres em soberania tecnológica."
Os acordos em telecomunicações e transporte aéreo são importantes, sim. Facilitam fluxos e reduzem custos. Mas são naturalmente secundários diante do tabuleiro de minerais críticos. A questão que precisamos fazer aos negociadores é: em troca de acesso a esses minerais, que transferência de tecnologia o Brasil conseguiu? Que compromisso com pesquisa e desenvolvimento local foi estabelecido? Ou simplesmente concordamos em continuar exportando produtos brutos a preços internacionais?
Lula entende diplomacia. Entende que poder não vem apenas de armas, mas de ter aquilo que outros precisam. O problema é que precisamos garantir que os benefícios desses acordos não sejam capturados integralmente por elites ligadas ao agronegócio e à mineração tradicional, sem que chegue ao desenvolvimento regional equitativo e à criação de empregos qualificados nas regiões produtoras.
Há uma oportunidade real aqui. Há também o risco habitual: ser parceiro estratégico e continuar periférico.
Qual será nossa escolha como nação? Que mecanismos de accountability garantirão que esses acordos trabalhem para o Brasil integral, e não apenas para seus setores mais tradicionais?Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.
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