Lula aposta na jornada de seis horas mas esquece de perguntar quem
Governo envia ao Congresso projeto contra jornada 6x1, mas ignora como financiar direitos sem comprometer o orçamento.
Coluna de Beatriz Fonseca — Política & SociedadeDEK: Governo envia ao Congresso projeto contra jornada 6x1, mas ignora como financiar direitos sem destruir pequenas empresas.
O dilema que ninguém quer nomear
O governo Lula enviou ao Legislativo uma proposta para abolir a jornada 6x1. A medida será analisada em 45 dias. Todos os atores envolvidos — sindicalistas, empresários, parlamentares — têm pressa em declarar vitória ou derrota antes mesmo de conhecer os detalhes do projeto. O que falta, porém, é a pergunta mais elementar: quem paga?
Não é cinismo. É aritmética. Um trabalhador que passa de cinco para seis dias de folga por mês não ganha direito novo apenas por disposição legal. Ele ganha porque alguém deixa de receber o equivalente àquele trabalho não realizado, ou porque o custo da produção é redistribuído em outro lugar da cadeia econômica. Governos que fingem ignorar essa equação fazem política de promessa, não política de Estado.
O mapa da divisão
Setores de alta margem — tecnologia, finanças, alguns segmentos de varejo premium — absorvem aumento de custos sem estrondo. Uma multinacional de software distribui o impacto entre investidores globais. Uma instituição financeira repassa parcela aos clientes. Não é bonito, mas é viável.
Agora pense em padaria, restaurante, salão de beleza, oficina mecânica no bairro. São negócios que rodam com margem de 10% a 15% em boa fase. Adicionar um sexto dia de folga obrigatório equivale a reduzir receita ou ampliar custos em 16,6%. Não há tecnologia que absorva isso. Não há cliente que pague 16,6% mais caro de forma pacífica. O que sobra? Desemprego ou informalidade.
Por que a esquerda evita esse debate
A esquerda brasileira construiu narrativa segundo a qual direitos são extraídos do "excedente de exploração" do capitalismo. Premissa bonita, empiricamente frágil em economia de baixa produtividade como a nossa. Quando a margem é apertada — e é para a maioria do setor de serviços — direito conquistado por lei se converte em redução de postos.
O governo poderia, hoje, dizer: "Vamos financiar transição via redução tributária para pequenas e médias empresas durante 18 meses" ou "Vamos reformar a previdência do setor de serviços para fazer caixa". Não diz. Prefere decretar direito e esperar que o mercado absorva como mágica.
Direito conquistado por lei se converte em redução de postos quando a margem é apertada.
O que a direita não consegue articular
Empresariado brasileiro, por sua vez, grita "falência" e "destruição de empregos" sem apresentar simulação setorial ou proposta contraposta. Se achasse que a 6x1 é inviável, teria apresentado modelo alternativo: redução de jornada para cinco dias de 8,5 horas, por exemplo, com manutenção de salário e escalonamento de horários. Não fez. Preferiu o papel de vilão recusador.
Uma direita política competente entraria no Congresso com cálculo: quanto custa, para cada setor, absorver essa mudança sem destruir emprego? E qual modelo de financiamento torna isso factível? Ausência dessa proposta técnica revela apenas despreparo.
O que Lula não quis ver
Presidente sabe que propostas sociais que não enfrentam o "como financiar" viram problema em 18 meses, quando o desemprego sobe e a informação vira responsabilidade sua. Mandou projeto para o Congresso porque é gesto, não porque resolveu a equação.
Nos próximos 45 dias, haverá teatro parlamentar. Sindicatos dirão que é pouco, empresários dirão que é tudo, governo dirá que encontrou "ponto de equilíbrio". E a padaria do bairro continuará abrindo seis dias porque precisa, com o mesmo funcionário, agora tecnicamente fora da lei.
Política de verdade — que Lula já fez outras vezes — começa aqui: na pergunta incômoda sobre quem paga, e na resposta honesta antes de celebrar.