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A Padaria do Seu Waldir Agora Tem Wi-Fi

O Rio muda sem pedir licenca. Cronica do Cronista Urbano na Intermezzo #01.

Intermezzo — Crônica

A padaria do Seu Waldir fica na esquina da Rua Voluntários da Pátria com a Rua Conde de Bonfim, em Tijuca. Existe há 37 anos. Sobreviveu a 6 planos econômicos, 8 presidentes, uma pandemia e duas reformas de calçada. O pão francês custa R$ 1,20 a unidade. O café, R$ 4,50. O conselho, é de graça.

A novidade é que a padaria do Seu Waldir agora tem Wi-Fi.

Parece pouco. Não é. Wi-Fi na padaria do Seu Waldir é como ar-condicionado no Saara: muda a paisagem. Antes, o balcão era território de conversa — Seu Waldir, a dona Neide (que trabalha ali desde 1994 e sabe o nome de todo mundo), e os quatro ou cinco habitués que sentavam nos banquinhos de fórmica para reclamar do governo, do trânsito e do Flamengo (nessa ordem).

Agora, os banquinhos têm gente olhando para telas. Adolescentes fazendo TikTok com o pão francês como cenário. Motoboys esperando pedido do iFood enquanto assistem a vídeos no YouTube. Um freelancer de camiseta preta que trocou o coworking da Barra pelo balcão da Tijuca ("aqui é R$ 4,50 com café; lá é R$ 80 sem café").

"Seu Waldir colocou Wi-Fi na padaria. Dona Neide colocou a senha no quadro: 'PAOFRANCES'. Com letras maiúsculas, sem acento. 'Se não sabe digitar, não merece internet', disse ela."

Seu Waldir não usa internet. Não tem smartphone. Tem um celular da Nokia que liga e recebe ligação — e que, segundo ele, "faz o que celular tem que fazer: falar com gente". Mas cedeu ao Wi-Fi porque o filho disse que "atrai cliente jovem" e porque a conta da Vivo veio com uma promoção de banda larga que "não dá para recusar".

O resultado é agridoce. O movimento aumentou 30%. Mas a conversa diminuiu 60%. Seu Waldir, que passava as manhãs discutindo futebol com o Toninho (aposentado, corinthiano, hipertenso), agora olha para uma fileira de cabeças baixas iluminadas por telas. "Antes, o pessoal vinha aqui para ficar junto", disse. "Agora vem para ficar junto e sozinho ao mesmo tempo. Não sei como pode, mas pode."

A padaria mudou. Não de endereço, não de dono, não de pão. Mudou de função. Antes era ponto de encontro. Agora é ponto de acesso. Antes era lugar de presença. Agora é lugar de conexão — que, como Seu Waldir desconfia e todos sabemos, nem sempre é a mesma coisa.

Na próxima semana, Seu Waldir vai instalar tomadas USB nos banquinhos. "Se é para fazer, faz direito", disse, com a resignação de quem sabe que o futuro não pede licença. Dona Neide já atualizou a senha do Wi-Fi: "PAOFRANCES2026". "Ano que vem mudo de novo", avisou. "Se o mundo muda, a senha muda."

O pão francês continua o mesmo. R$ 1,20. Crocante por fora, macio por dentro. Pelo menos isso não precisa de atualização.

A redação da Intermezzo