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Contos À Meia-Luz — Volume 1

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À MEIA-LUZ APRESENTA

Contos À Meia-Luz

Volume 1 — Abril 2026

"Todo corpo é um livro. Basta saber ler."


I. O Elevador

por Lavínia Duarte

Ela morava no décimo segundo. Ele, no terceiro. Não se conheciam — ou fingiam não se conhecer, como se faz em prédios onde todo mundo sabe quem chega tarde e quem sai cedo.

Começou numa segunda-feira de chuva. O elevador parou entre o sexto e o sétimo andar. Trinta e sete minutos. Ela contou cada um.

No escuro parcial — só a luz de emergência, âmbar e insuficiente — ela percebeu que ele cheirava a café e a roupa limpa. Coisas simples. Coisas que deveriam ser irrelevantes mas que, num espaço de dois metros quadrados, se tornam o mundo inteiro.

"Você está bem?" — ele perguntou, e a voz dele era mais grave do que ela imaginava.

"Estou." — mentiu. O coração acelerado não tinha nada a ver com claustrofobia.

Nos dias seguintes, os horários deles começaram a coincidir com uma frequência que não era coincidência. Ela descia às 8h15. Ele subia às 8h14. Um minuto de elevador. Um minuto em que o ar ficava mais denso, mais quente, mais carregado de coisas não ditas.

Na quinta-feira, os dedos se tocaram no botão do andar. Nenhum dos dois pediu desculpa.

Na sexta, ele segurou a porta para ela. Os olhos se encontraram por dois segundos a mais que o socialmente aceitável. Ela sentiu o rubor subir do pescoço.

No sábado, ela desceu de vestido. Ele estava encostado na parede do elevador como quem espera um trem que já sabe que vai pegar. Sem camisa por baixo do blazer aberto. Como se soubesse.

O elevador parou no sétimo andar. O mesmo andar. Ela pressionou o botão de emergência. Ele não disse nada. Não precisava.

Quarenta e dois minutos. Desta vez, ela não contou.


II. A Carta que Ela Nunca Mandou

por Pedro Augusto

"Eu escrevo porque não consigo dizer. E não consigo dizer porque, se dissesse, seria real. E se fosse real, eu teria que fazer alguma coisa a respeito."

Marina escreveu a primeira carta numa terça-feira de insônia. Três da manhã, a casa em silêncio, o marido dormindo com a boca aberta como dorme há quinze anos. Ela pegou um caderno — daqueles que se compra achando que vai virar diário e acaba guardando receitas — e escreveu.

Não era para o marido. Era para a mulher da padaria.

Clara. Cabelo castanho sempre preso num coque frouxo, avental branco com farinha nas mãos, sorriso que parecia pedir desculpa por ser bonito demais para uma padaria de bairro. Marina ia lá todo dia comprar pão francês. Todo dia. Mesmo quando ainda tinha pão em casa.

"Clara," — começou. "Eu queria te contar que ontem, quando você me deu o troco e seus dedos tocaram os meus, eu pensei nisso o dia inteiro. O dia inteiro. Enquanto lavava a louça. Enquanto respondia e-mails. Enquanto meu marido me perguntava o que tinha para jantar."

A carta tinha quatro páginas. Na última, Marina descrevia um sonho que teve — ou inventou, a fronteira já estava borrada — em que Clara a esperava depois de fechar a padaria, luzes apagadas, cheiro de pão ainda no ar, e a beijava contra o balcão com uma urgência que Marina não sentia há anos. Décadas, talvez.

Ela nunca mandou a carta. Mas continuou escrevendo. Uma por semana. O caderno de receitas virou um arquivo de desejos. E toda manhã, ao comprar o pão francês, Marina sorria para Clara como quem guarda um segredo que é, ao mesmo tempo, a coisa mais triste e mais viva que possui.


III. Banho de Chuva

por Dra. Renata Campos

Não é um conto. É um ensaio sobre como perdemos o corpo.

Quando foi a última vez que você tomou banho de chuva? Não limpou os pés antes de entrar em casa — simplesmente ficou. Sentiu a água escorrer pelo rosto, pelo pescoço, entre os seios ou pelo peito, descendo pelas costas até onde a gravidade decidisse.

A maioria dos meus pacientes chega ao consultório com a mesma queixa, disfarçada de mil jeitos diferentes: "Eu não sinto mais."

Não sentem tesão. Não sentem vontade. Não sentem o próprio corpo. Vivem da cintura para cima — cabeça cheia, corpo vazio. Otimizam o dia, a semana, o trimestre. Dormem com celular na mão e acordam checando mensagens antes de sentir o lençol na pele.

Eu tenho uma prescrição que não está em nenhum manual da APA: tome banho de chuva. Tire os sapatos na varanda. Feche os olhos. Sinta a água que não é morna, não é regulada, não é eficiente. É selvagem, é fria, é inconveniente. É a coisa mais sensual que um corpo pode experimentar sem tocar outro corpo.

Porque prazer não começa no sexo. Começa na permissão de sentir. E sentir exige desacelerar. Exige estar no corpo — não na cabeça, não no celular, não na lista de tarefas.

Antes de desejar o outro, é preciso habitar a si mesmo. E habitar a si mesmo é um ato radical num mundo que nos quer produtivos, não presentes.

Tome banho de chuva. É o primeiro passo.


Contos À Meia-Luz — Volume 1

Publicação quinzenal da Xaplin. Próxima edição: 15 de abril de 2026.

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