Cessar-fogo no Oriente Médio

gerencia seus restos mortais. Um cessar-fogo de dez dias não é paz.

Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade

O acordo que ninguém pediu

Joseph Aoun elogia. Benjamin Netanyahu chama de histórico. A imprensa internacional celebra. E enquanto isso, o cessar-fogo de dez dias entre Israel e Líbano entra em vigor como um respiro que não resolve nada — apenas adia o colapso. Não há razão para otimismo aqui, e é importante dizer isso em voz alta enquanto o mundo inteiro tenta fingir que viu um milagre diplomático acontecer.

O que temos, na verdade, é um exemplo perfeito de como a comunidade internacional opera quando já perdeu toda a capacidade de evitar conflitos: gerencia seus restos mortais. Um cessar-fogo de dez dias não é paz. É uma pausa contratada, com data de vencimento marcada no calendário, como um aluguel que vai vencer e ninguém sabe se será renovado.

A ilusão da diplomacia sob pressão

Netanyahu classificou o acordo como "oportunidade histórica para a paz". Vamos ao ponto: quando você precisa chamar de histórico um cessar-fogo de dez dias, é porque o seu histórico diplomático real não deixa margem para celebrações. A declaração do primeiro-ministro israelense é menos um sinal de força diplomática e mais um pedido desesperado por legitimidade internacional — exatamente o que falta a Israel neste momento.

O Líbano, por sua vez, recebe o acordo como quem recebe esmola: com gratidão forçada e esperança frágil. Joseph Aoun pode elogiar à vontade, mas governa um país onde a infraestrutura está destruída, a economia em colapso, e metade da população deslocada. Um cessar-fogo sem garantias de reconstrução, sem responsabilidades claramente definidas sobre reparações, sem mecanismos de verificação que funcionem de verdade, é apenas o intervalo entre duas catástrofes.

O padrão que ninguém quer nomear

Há um padrão perigoso aqui que deveria preocupar qualquer pessoa interessada em estabilidade internacional: quando a diplomacia fracassa em sua função preventiva, ela se reinventa como gestora de crises já consumadas. E para isso, precisa criar a ilusão de vitória onde há apenas derrota compartilhada.

Observe: nenhuma das partes alcançou seus objetivos declarados. Israel não neutralizou completamente a ameaça que alegava combater. O Líbano não conseguiu proteção garantida contra futuras incursões. Os mediadores internacionais — porque sempre há mediadores — não resolveram nenhuma das questões estruturais que causaram o conflito. Mesmo assim, todos anunciam vitória. Todos fotografam o acordo como quem coleciona prêmios de consolação.

Por que isso importa para a política brasileira

Aqui está o incômodo que precisa ser dito: o Brasil observa este padrão de muito perto. Quando um governo celebra acordos cosméticos como vitórias estruturais, quando a imprensa internacional aplaude gestos enquanto ignora a substância, quando a diplomacia se torna performance para câmeras — estamos vendo o mesmo mecanismo que funciona na política doméstica.

A diferença é que no palco internacional, as consequências do fracasso da diplomacia real são medidas em vidas destruídas e cidades arrasadas. No palco doméstico, são medidas em direitos perdidos e instituições esvaziadas. O cessar-fogo no Líbano deveria ser um espelho para qualquer democracia que pensa conseguir governar apenas through comunicação de crise em crise.

O que deveria acontecer — e não vai

Um acordo real envolveria garantias verificáveis, responsabilidade claramente atribuída, compensação por danos e, fundamentalmente, resolução dos conflitos de interesses que originaram a guerra. Em vez disso, temos dez dias. Dez dias para fingir que o mundo aprendeu algo.

O cessar-fogo entre Israel e Líbano não é história. É apenas mais um capítulo em um livro que ninguém tem coragem de fechar. E enquanto a diplomacia internacional celebra sua própria incompetência como se fosse progresso, a credibilidade de qualquer instituição internacional que prometa paz cai um pouco mais.

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