A Voz que Ouve e a Orelha que Cala
aquela matéria havia sido publicada há apenas cinco dias.
Coluna de Sebastião Leal — Ombudsman
Quando o Ombudsman é o Problema
Há três semanas, recebi uma mensagem de uma leitora cega que precisou recorrer ao computador para ler um de nossos artigos mais importantes sobre políticas públicas. Nada extraordinário nisso — exceto que ela não conseguiu. As imagens não tinham descrição alternativa, os gráficos não possuíam tabelas de dados, e o vídeo embedded no meio do texto? Sem legenda. Ela teve de procurar a reportagem em outro veículo para compreender o assunto.
Fui verificar. Ela tinha razão. E mais: aquela matéria havia sido publicada há apenas cinco dias. Passamos por todo o processo editorial — pauta, apuração, revisão — e ninguém sinalizou o óbvio. Nem eu, que deveria estar aqui justamente para isso.
O Incômodo da Autocrítica
A verdade é incômoda: a Xaplin faz um bom trabalho em várias frentes. Nossa investigação sobre desvios de verbas no transporte público mereceu os prêmios que recebeu. A série sobre saúde mental conquistou leitores em todo o país. Os gráficos interativos do nosso especial eleitoral foram inovadores. Posso elogiar tudo isso sem constrangimento porque, de fato, merece.
Mas o elogio não apaga o fracasso silencioso. A acessibilidade não é um adorno. Não é inclusão de luxo. É a diferença entre um cidadão poder participar da vida pública ou ficar de fora. E nós — que nos consideramos guardiães da informação — não estávamos fazendo nossa parte.
Quando prometemos democracia pela informação, mas deixamos pessoas fora pela falta de descrição de uma imagem, temos um problema ético, não apenas técnico.
O Que Encontrei e o Que Está Errado
Revisei as últimas 30 publicações. Os números são constrangedores: 73% das matérias com imagens não possuem descrição alternativa. 45% dos vídeos originais carecem de legenda ou áudio-descrição. Alguns dos nossos artigos mais lidos — aqueles sobre inflação e segurança — são praticamente inacessíveis para leitores com deficiência visual.
Conversando com a equipe de produção, descobri que não é negligência deliberada. É, pior ainda, negligência invisível. O protocolo existe no sistema. As caixas de texto para alt-text aparecem na plataforma. Mas ninguém ensinou como preenchê-las adequadamente. Ninguém criou checklist acessível no fluxo editorial. Ninguém fez disso prioridade.
Pequenas Vitórias e o Caminho à Frente
Não tudo está perdido. Nosso colunista sobre tecnologia tem — por iniciativa própria — inserido descrições detalhadas em seus gráficos há meses. A série de vídeo sobre meio ambiente, produzida em parceria com uma ONG, já vinha com legendas desde o início. Existem ilhas de excelência dentro de casa. O problema é que são exceção, não regra.
A partir de agora, estou implementando mudanças: um treinamento obrigatório sobre acessibilidade para toda a redação, a contratação de um consultor especializado, e a inclusão de um step de revisão acessível antes da publicação. Não vai ser rápido. Provavelmente não va ser perfeito. Mas será genuíno.
O Espelho que Deveria Refletir Melhor
Meu papel aqui é questionar. Questionar nossa cobertura, nossas práticas, nossas omissões. Mas também é reconhecer quando o questionador falha em sua própria missão. E falhei. A Xaplin pretende informar todos os leitores — pelo menos, é o que dizemos. Até que provemos o contrário, continuaremos sendo seletivos sobre quem pode verdadeiramente acessar aquilo que publicamos.
Isso muda agora. E serei o primeiro a cobrar — de mim mesmo, da redação, de todos nós — que essa promessa deixe de ser apenas palavras bonitas em um editorial inclusivo.