A Volta do Pão de Queijo — Por Que o Brasil Escolhe Não Esquecer
No último levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP), divulgado em março de 2026 pelo jornal Folha…
BANCA DE JORNAL
O Fato
No último levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP), divulgado em março de 2026 pelo jornal *Folha de S.Paulo*, o pão de queijo voltou a ser o produto mais vendido em padarias brasileiras, superando pela primeira vez em 15 anos o pão francês. A pesquisa ouviu 847 padarias em todas as regiões do Brasil e mapeou também o crescimento de pequenas produtoras artesanais de pão de queijo, muitas delas negócios de mulheres acima de 50 anos que abrem seus empreendimentos em garagens e cozinhas. O dado mais tocante: 73% dessas produtoras citaram "voltar às raízes" como motivação principal. O economista-chefe da ABIP, Roberto Santana, afirmou ao *Estadão* que esse movimento reflete "uma busca de autenticidade em tempos de incerteza econômica". O pão de queijo, tradicional de Minas Gerais e do Centro-Oeste, agora é produzido em 28 mil pontos de venda formal e mais de 50 mil informais no Brasil. O crescimento de consumo foi de 34% desde 2020.
Não é só números. As redes sociais explodem com receitas de avó, vídeos de pão de queijo saindo do forno, histórias de mulheres que deixaram o escritório para vender pão de queijo pela rua. A tendência transbordou para o TikTok, Instagram e WhatsApp — aqueles grupos de mãe que antes compartilhavam fake news agora compartilham vídeos de "como fazer pão de queijo crocante por dentro e macio por fora". A indústria responde: as grandes marcas lançaram versões gourmet, com goiabada, cheddar belga, até uma com biomassa de banana — porque, bem, estamos em 2026 e tudo precisa de upgrade de Instagram.
O Que a Gente Escolhe Não Diz Sobre Pão — Diz Sobre a Gente
Sabe aquele papo de boteco que toda filosofia começa quando a gente percebe que a vida não faz sentido? Então. A gente está aqui, em 2026, em cheio caos — inflação, desemprego, TikTok tentando nos convencer de que felicidade é uma sequência de vídeos curtos — e o Brasil inteiro resolve: nós queremos pão de queijo.
Quando a vida fica torta demais, a gente volta pro que é reto: pro que a avó fazia, pro que a gente cheira e reconhece na hora. Pão de queijo não é comida. É memória com fermento.
Isso é profundo. De verdade.
O pão de queijo é a rebeldia mais morna que existe. É dizer "não" ao pão francês — esse aristocrata da padaria — sem gritar. É escolher o humilde, o caseiro, o que gruda na mão. É mulher de 55 anos que passou a vida inteira em banco de dados, em Excel, em reunião de Zoom com câmera desligada, e um dia acorda e pensa: "Quer sabe de uma coisa? Vou vender pão de queijo". E vende. E ganha dinheiro. E fica feliz.
A Revolução do Esquecimento Escolhido
O mais curioso não é que o pão de queijo voltou. É que a gente *precisou* de um sinal para lembrar que ele nunca tinha saído. Ele sempre esteve ali — nas cozinhas das mães, nos fornos das avós, na infância de quem nasceu em Minas. Mas a gente estava ocupado demais, correndo demais, acreditando que felicidade era grande demais.
Quando você escolhe pão de queijo em vez de pão francês, você não está escolhendo um carboidrato. Está escolhendo memória. Está escolhendo simplicidade quando tudo pede complexidade. Está escolhendo a avó em vez do influenciador. E sabe por quê? Porque a avó não decepciona. A avó queija na medida certa.
Em tempos de inteligência artificial e algoritmo, a gente volta pro que não precisa de bateria: pão de queijo. Quente. Do forno. Da mão de mulher que não tem seguidores, mas tem clientes que voltam porque o produto é bom.
Eis a sabedoria: não é preciso mudar o mundo. Às vezes, é preciso apenas lembrar que ele sempre teve pão de queijo. A gente é que estava olhando para o lado errado da padaria.
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