A Máquina de Esquecimento

Em março de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados alarmantes sobre a população idosa brasileira que ninguém…

BANCA DE JORNAL

O Fato

Em março de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados alarmantes sobre a população idosa brasileira que ninguém comentou direito nos jornais. Segundo o levantamento — publicado no portal oficial do IBGE em 15 de março — aproximadamente 4,7 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem sozinhos. Desses, 2,8 milhões são mulheres. Mas aqui vem a parte que dói: 62% desse contingente relata não ter qualquer tipo de rede de apoio presencial. Não é abandono deliberado sempre. É abandono por falta de engenharia social, por falta de estrutura, por falta de coragem de olhar nos olhos.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, também divulgada pelo IBGE em 2025, revelou que apenas 18% dos idosos que vivem sozinhos recebem visitas regulares — e "regular" aí significa uma vez por semana ou mais. O dado mais triste? 41% deles nunca ou quase nunca recebem visitas. Ninguém escreve manchete sobre isso. Não vira trending topic. Mas é máquina de solidão rodando 24 horas num apartamento de dois cômodos em Guarulhos, em um sobrado no Recife, numa kitnet em Campo Grande.

O Ministério da Saúde, em relatório de 2025, confirmou que idosos que vivem sozinhos têm 3 vezes mais chance de desenvolver depressão severa. Quedas acidentais — aquelas que ninguém vê, que ninguém ouve — são a segunda causa de morte acidental nessa população. E o silêncio? O silêncio é a primeira.

A Gente Que Faz de Conta que Está Tudo Bem

Sabe aquela coisa de a gente ligar pro pai, pro avô, pra mãe e já começar perguntando de polícia? "Ó, como tá? Tudo bem? Que legal!" — cinco minutos e encerramos a ligação porque "trabalho chama"? Pois é. A gente inventou a velocidade da vida moderna pra não ter que lidar com a solenidade de estar vivo junto de alguém que está envelhecendo.

O que mais dói é que ninguém está sendo ruim propositalmente. Estamos todos correndo. O filho está correndo atrás de promoção. A filha está correndo atrás de dois empregos. O neto está correndo na escola, na faculdade, no Tinder. E a avó fica ali, abrindo a geladeira às três da tarde só pra fazer barulho de que a casa está viva.

"A solidão da nossa avó não é culpa dela ser velha. É culpa nossa de achar que viver é mais importante que estar com as pessoas que a gente ama enquanto ainda dá tempo."

Isso me machuca porque eu vejo. Eu vejo todo dia na parada do ônibus. A mulher de 73 anos que desce devagar, com uma sacola de compras que não pesa nada, só pra ter onde ir. Que conversa com o cobrador porque o cobrador é a única pessoa que a olha nos olhos naquele dia. Que volta pra casa e liga a TV pra ter barulho de gente viva no ambiente.

O Que a Gente Perdeu no Caminho

Nossos avós carregam histórias que vão morrer com eles. Não é exagero poético não. É matematicamente verdadeiro. Cada avó que morre sozinha leva consigo receitas de bolo que nunca foram anotadas, histórias de coragem que nunca foram contadas, sabedoria que se perde porque ninguém estava ali pra absorver.

Mas sabe o pior? A gente sabe disso. A gente sabe, e a gente continua correndo.

Então meu recado simples é esse: liga pro seu idoso hoje. Não liga pra perguntar como tá. Liga pra ouvir. Senta e ouve. Uma hora. Sem pressa. Porque máquina de esquecimento não para por vontade própria. Ela só para quando a gente decide desligar.

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