A Gente Paga Duas Vezes
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) divulgou, em 14 de abril de 2026, um relatório inédito sobre a composição das tarifas…
BANCA DE JORNAL
O Fato
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) divulgou, em 14 de abril de 2026, um relatório inédito sobre a composição das tarifas de ônibus urbano no Brasil. O documento, coordenado pela pesquisadora Dra. Mariana Souza da Universidade Federal de Minas Gerais, mapeou 87 cidades e encontrou algo intrigante: apenas 34% do valor que você paga na catraca vai para combustível, manutenção e salários. Os outros 66% se dispersam em categorias nebulosas: "custos administrativos", "depreciação de frota", "seguros especiais" e uma linha misteriosa chamada "margem operacional".
O relatório da ANTT foi publicado no portal oficial em 15 de abril e repercutiu em O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e nos canais da TV Brasil. O que chocou não foi o preço da passagem em si — que varia de R$ 4,50 a R$ 7,80 dependendo da região —, mas a impossibilidade de qualquer cidadão comum rastrear para onde vai seu dinheiro depois que cai naquela máquina de catraca que apita.
Dra. Mariana explicou que empresas de transporte justificam o custo alegando "segurança de frota", "sistemas de rastreamento GPS", "treinamento de motoristas" e "contingenciamento para dias de greve". Tudo muito sensato. Tudo muito invisível. Um executor de ônibus, quando pressionado sobre a tarifa, geralmente responde: "Meu filho, é tudo regulado lá em cima". Ninguém aponta para um lugar específico. É como rezar para uma divindade sem templo.
A Confissão que Dona Carmem Faz na Porta da Padaria
Eu tenho 63 anos e pego ônibus todo dia. Toda maldita manhã, acordo, tomo meu café, e coloco na bolsa uma nota de R$ 10 sabendo que vou gastar R$ 6,40 em duas passagens — ida e volta. R$ 6,40 que sai do meu bolso e desaparece num buraco negro com o nome de "gestão operacional".
"A gente paga duas vezes: uma com o dinheiro que entrega, outra com a ignorância que carrega de volta pra casa."
Porque aqui está o pior: ninguém — e falo sério, ninguém mesmo — consegue explicar o que acontece com meu dinheiro. Você pergunta pro cobrador, ele aponta pro chefe. Pergunta pro chefe, ele aponta pra uma pasta na rodoviária. Abre a pasta, tem quinhentas páginas de planilha que nem Deus consegue entender.
O Privilégio da Transparência que Só Tem para Quem Tem Acesso
A gente vive num país que consegue rastrear imposto de renda de mendigo mas não consegue explicar a composição de uma tarifa de ônibus. Tem gente no congresso que fiscaliza quanto o pobre gasta com medicamento, mas ninguém — absolutamente ninguém — senta com a empresa de ônibus e exige um recibo, um papel, um documento que diga: "Seu dinheiro foi aqui, aqui e aqui".
Eu acho que isso é uma falta de respeito. Não é nem sobre o preço ser alto ou baixo. É sobre a dignidade de quem trabalha, pega ônibus todo dia, alimenta esse sistema e não merecia ser tratado como um idiota que não vai nem perguntar onde vai seu dinheiro.
Na minha época — e agora vou parecer chata, sei — na minha época, a gente ia na padaria e o padeiro explicava por que o pão subiu de preço. "Dona Carmem, o trigo subiu", ele dizia. Pronto. Você sabia. Agora a gente não sabe nada de nada. A gente só paga, entra, senta e cala a boca.
A Lição que Toda Democracia Deveria Aprender
O relatório da ANTT é importante, sim. Mas sabe o que seria realmente importante? Um adesivo dentro de cada ônibus. Um adesivo simples que dissesse: "Sua tarifa de R$ 6,40 foi distribuída assim: 2,18 para combustível, 1,92 para salários, 1,30 para manutenção, 1,00 para custos administrativos". Simples. Honesto. Respeitoso.
Porque quando a gente não sabe para onde vai o dinheiro, a gente começa a desconfiar. Quando a gente desconfia, a gente para de achar legítimo. Quando a gente para de achar legítimo, a gente para de respeitar. E um país que perdeu o respeito das pessoas que pegam ônibus — gente honesta, trabalhadora, que acorda cedo — esse país está perdendo o respeito pela gente inteira.
Então deixa eu ser clara: não é sobre ônibus. É sobre a gente merecer saber. É sobre a gente não ser criança. E é sobre viver numa democracia que funciona quando alguém, em algum lugar, tem coragem de dizer a verdade simples.
Quer ir mais fundo?