A diplomacia brasileira na trincheira

admitir que está lá, presenciando, e não apenas transmitindo comunicados.

Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade

O relato de André Veras Guimarães não é turismo político

Há um incômodo bem-vindo na entrevista do embaixador André Veras Guimarães à BBC. Não é o dramático — "explosões, tremor de paredes, mortes" — que naturalmente impressiona. É a franqueza de um diplomata de carreira que, ao descrever a apreensão da população iraniana, faz algo que a diplomacia tradicional frequentemente evita: admitir que está lá, presenciando, e não apenas transmitindo comunicados.

A questão que ninguém quer fazer é simples: por que o Brasil tem embaixador em Teerã enquanto se comporta como espectador silencioso do conflito? Não há aqui uma defesa ingênua de intervenção militar — seria absurdo. Há uma crítica ao vácuo diplomático que o Brasil criou para si mesmo.

O Brasil desapareceu do tabuleiro médio-oriental

Quando Lula retornou à presidência, havia esperança real de que o Brasil ressurgisse como ator relevante em negociações internacionais. A diplomacia presidencial brasileira nos anos 2000 tinha peso. Lula conversava com todos — chineses, russos, americanos, iranianos. Havia uma estratégia, ainda que discutível. Hoje? Hoje enviamos embaixadores para registrar explosões como um jornalista, mas não articulamos uma posição clara que possa contribuir minimamente para desescalada.

O fracasso das negociações entre EUA e Irã é um dado. Mas é também uma oportunidade perdida. Países como Catar, Oman e até a Indonésia têm tido papéis de mediadores menores mas reais. O Brasil? Assistiu. E pior: quando eventualmente a ONU chamar para alguma discussão relevante, o Brasil entrará na sala sem credibilidade acumulada, sem ter participado das conversas difíceis quando elas aconteciam.

A falsa escolha entre "tomar partido" e "não tomar partido"

Há um medo paralisante na chancelaria brasileira — o pavor de "ofender alguém". Como se a abstenção fosse uma posição neutra. Não é. Ficar calado enquanto populações sofrem bombardeios é uma escolha. É um voto a favor da ordem vigente, da aceitação das coisas como estão. E convenhamos: o Brasil não é tão fraco internacionalmente que precise se tornar invisível por segurança.

Não se trata de o Brasil se alinhar a Washington ou a Teerã. Trata-se de o Brasil articular uma posição clara: defesa do direito internacional, demanda por investigação independente de violações, pressão por canais de negociação. Isso não é radicalismo — é o mínimo que se espera de um país com assento no Conselho de Segurança (ainda que como membro não permanente).

"Há uma crítica ao vácuo diplomático que o Brasil criou para si mesmo. Quando enviamos embaixadores apenas para registrar crises, abdica-se do papel que caberia a uma potência média com ambições maiores."

O embaixador vira repórter porque falta diplomacia

André Veras Guimarães está fazendo exatamente aquilo que deveria fazer — informar ao governo brasileiro sobre o que vê. Mas a entrevista à BBC revela uma assimetria preocupante: um diplomata brasileiro está contando ao público britânico o que sente sobre a crise porque o Brasil não tem uma posição pública robusta sobre ela. Se tivéssemos, estaríamos em Genebra propondo resoluções, em Nova York costurando coalizões, em conversas bilaterais com atores relevantes.

Enquanto isso, o Itamaraty continua operando como se o século 21 fosse igual ao 20 — como se a proeminência internacional caísse do céu para países que apenas cumprem agenda. O Brasil precisa de uma diplomacia que tome risco, que aposta em posições defensáveis mesmo que controversas, que entende que poder brando é também poder.

O relato do embaixador é valioso. Mas é também um indício de que o Brasil delegou ao acaso o que deveria ser estratégia. E isso, sim, é negligência geopolítica.

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