A Copa de 2026 e o árbitro invisível que comanda tudo
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma figura que não tem nome no boletim oficial, não corre, não sua, não entra em campo — e mesmo assim já decidiu…
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma figura que não tem nome no boletim oficial, não corre, não sua, não entra em campo — e mesmo assim já decidiu mais jogos nesta Copa do Mundo de 2026 do que qualquer centroavante. Chama-se VAR. Ou, dependendo da partida e de quem perdeu, chama-se outra coisa.
O jornal espanhol Marca fez o serviço de memória que todo torneio acumula mas prefere não confessar: reuniu as principais polêmicas de arbitragem da Copa, da fase de grupos até as oitavas. A lista é longa. E o que ela revela não é simplesmente que árbitros erram — árbitros sempre erraram, desde que Mário Filho descreveu o primeiro apito numa tarde de sol no Maracanã. O que ela revela é que o torneio chegou às oitavas de final carregando uma dívida de legitimidade que nenhuma revisão de vídeo vai quitar.
Tome o gol anulado de Vinicius Junior contra a Escócia. O atacante havia roubado a bola do último defensor, num lance de velocidade e instinto que é exatamente o que se vai assistir numa Copa do Mundo. O VAR identificou contato mínimo na recuperação da posse. Contato mínimo. O árbitro foi ao monitor, viu, e apagou o gol. O narrador PC de Oliveira, citado no material, disse que a decisão foi equivocada. Mas o que importa aqui não é quem tem razão — é que um gol que a arquibancada inteira viu entrar foi transformado em abstração jurídica.
Já o lance envolvendo Messi contra a Argélia tem outra textura. Uma entrada por trás em Mandi, sem advertência, sem cartão. Minutos depois, dois gols do camisa 10. A ausência de punição não prova má-fé de ninguém — árbitros interpretam, e interpretação é subjetiva por definição. Mas o contraste com a aplicação da chamada "Lei Vini", que expulsou Miguel Almirón do Paraguai por cobrir a boca ao falar durante a partida contra a Turquia, é perturbador. Almirón recebeu cartão vermelho por um gesto. Messi não recebeu nem amarelo por uma entrada. A régua, evidentemente, não tem o mesmo comprimento para todos.
A "Lei Vini" merece parágrafo próprio, porque é a novidade mais radical deste torneio em termos de regulamento. A ideia de punir jogadores que se comunicam de forma a esconder o conteúdo das palavras tem uma lógica disciplinar compreensível. A execução, no entanto, revelou imediatamente seus riscos: Almirón no Paraguai, Piero Hincapié no Equador. Dois expulsos, dois jogos desequilibrados pela norma antes de qualquer bola dividida decidir o placar.
E então há o gol de Mario Pašalić, anulado nos acréscimos contra Portugal nas oitavas. O VAR detectou toque quase imperceptível. Portugal escapou da prorrogação. A Croácia foi eliminada. Num torneio que se joga uma vez a cada quatro anos, "quase imperceptível" é uma sentença sem recurso.
Não existe Copa do Mundo sem polêmica de arbitragem. Quem buscar nas edições anteriores vai encontrar a mesma lista, com outros nomes, outras bandeiras, a mesma indignação. O que muda em 2026 é a escala da promessa que foi feita ao mundo quando o VAR foi instituído: a promessa de que o erro humano seria extirpado. Não foi. Foi apenas deslocado — do árbitro de campo para a sala de revisão, do instante do lance para os longos minutos de espera que ensinam ao torcedor uma forma nova e clínica de sofrer.
O futebol continua sendo drama. Só que agora o dramaturgo usa fone de ouvido e assiste em câmera lenta.
Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Copa de 2026 acumula polêmicas em arbitragem até oitavas de final
Fonte: ge