US$1,5 trilhão para matar. E o que sobra para viver?

Trump pede US$1,5 trilhão para defesa. O maior orçamento militar da história. E o mundo assiste comendo bacalhau.

Intermezzo — Opinião

Na sexta-feira da Paixão, enquanto boa parte do Brasil descascava bacalhau e tentava fingir que o mundo era um lugar razoável, Donald Trump apresentou ao Congresso americano um pedido de US$1,5 trilhão para defesa no ano fiscal de 2027. Trilhão, com T. O maior orçamento militar da história moderna dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o Irã anunciava ter abatido mais um caça F-35 — o avião mais caro já construído pela humanidade, a US$80 milhões por unidade. Caiu no deserto. Alguém foi resgatado. A guerra entre EUA e Irã, que já dura um mês, virou paisagem no noticiário.

O preço da normalização

O que assusta não é o número. Números dessa escala já perderam a capacidade de provocar espanto. O que assusta é a velocidade com que aceitamos que guerra é rotina. Um mês atrás, quando os primeiros bombardeios começaram, houve comoção. Hoje, a queda de um F-35 divide espaço com memes de astronautas reclamando do Outlook.

Há algo profundamente perturbador quando US$1,5 trilhão em armamento compete com o chocolate amargo pela atenção do leitor — e perde.

O orçamento militar dos EUA para 2027 equivale a aproximadamente 7,7 trilhões de reais. O orçamento inteiro do Brasil — saúde, educação, infraestrutura, tudo — é de cerca de R$5,5 trilhões. Os americanos querem gastar mais em bombas do que o Brasil gasta em existir.

O Irã resiste. E ninguém sabe como isso termina.

A narrativa americana era simples: operação cirúrgica, objetivos limitados, saída rápida. Trump até prometeu em discurso na TV que está "se aproximando da conclusão". Mas a realidade é outra. O Irã derruba aviões. Iranianos relatam desespero — "não temos dinheiro nem para comida básica", diz a BBC. O Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo global, virou zona de risco permanente.

E o Brasil? O Brasil surfa na alta do petróleo. Petrobras bate recorde na bolsa. Acionistas brindam. Mas isso é outra coluna.

A moral é que não há moral

Em algum momento, perdemos a capacidade de nos indignar proporcionalmente. US$1,5 trilhão compra muita coisa: compra sistemas de saúde inteiros, compra vacinas para doenças que a IA está finalmente conseguindo tratar, compra educação, pesquisa, dignidade. Mas não compra paz. Nunca comprou.

Trump demitiu seu principal general horas depois do discurso. A procuradora-geral foi afastada por causa do caso Epstein. O circo gira. E a gente assiste, com um pedaço de bacalhau na mão, tentando entender em que momento o absurdo virou normal.

A resposta é: neste.

Beatriz Fonseca é colunista de Política & Sociedade da Xaplin. Escreve às terças e quando o mundo exige.