Trump anuncia "Dia da Libertação" com tarifas recíprocas globais

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Internacional — Estados Unidos

Donald Trump assinou, nesta quarta-feira 2 de abril, a ordem executiva que estabelece o que seu governo batizou de "Dia da Libertação": um pacote de tarifas recíprocas sobre importações de 58 países, com alíquotas que variam de 10% a 50%. É a medida protecionista mais abrangente adotada pelos Estados Unidos desde a lei Smoot-Hawley de 1930 — e as comparações com aquele episódio, que agravou a Grande Depressão, não são gratuitas.

O que está na ordem executiva

As tarifas são estruturadas em três faixas: 10% (tarifa base para todos os países que têm superávit comercial com os EUA); 25% (para setores considerados "estratégicos" — aço, alumínio, semicondutores, veículos); e 50% (para a China, em adição às tarifas já existentes, totalizando 104% em alguns produtos chineses).

Para o Brasil, os impactos diretos são: aço e alumínio (de 10% para 35%); soja processada (nova tarifa de 20%); suco de laranja (nova tarifa de 15%); calçados (de 8% para 20%); e etanol (de 2,5% para 15%). Commodities agrícolas in natura (café, açúcar bruto) foram isentas — uma concessão que analistas atribuem ao lobby de importadores americanos, não a benevolência diplomática.

"'Dia da Libertação' é marketing. O nome correto é 'Dia em que os americanos passaram a pagar mais por tudo' — porque quem paga tarifas é o consumidor do país importador, não o exportador."

A reação global

A União Europeia anunciou retaliação "proporcional e imediata": tarifas sobre bourbon, Harley-Davidson, tabaco e produtos agrícolas americanos. O Canadá, já em disputa sobre automóveis, elevou tarifas sobre lácteos e madeira americanos. A China, sem surpresa, prometeu "contramedidas firmes e abrangentes", incluindo restrições à exportação de terras raras — materiais essenciais para a indústria eletrônica e militar dos EUA.

Os mercados reagiram com volatilidade: o Dow Jones caiu 2,8% no dia do anúncio, recuperou 1,2% no dia seguinte e oscila desde então. O petróleo subiu 3% (preocupação com cadeias de suprimento). O ouro bateu recorde histórico de US$ 3.150/onça — o termômetro clássico de medo global.

O impacto no Brasil

O Brasil exportou US$ 36,2 bilhões para os EUA em 2025. As tarifas afetam diretamente cerca de US$ 12 bilhões desse total — um terço. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima perda de competitividade de 15% a 20% nos setores atingidos, com impacto potencial de R$ 18 bilhões na balança comercial.

O governo brasileiro adotou postura de negociação: o chanceler Mauro Vieira viajou a Washington na sexta-feira para reuniões com o representante comercial americano. A estratégia é obter exceções setoriais, oferecendo em troca abertura de mercado para produtos americanos (gás natural liquefeito, etanol de milho, serviços financeiros). É um jogo de concessões mútuas em que o Brasil, como economia menor, tem menos cartas na mão.

Redação Xaplin