Tite na encruzilhada: quando escalar vira ato de resistência
Na sexta-feira 15 de maio de 2015, o técnico Tite divulgou a escalação do Corinthians para enfrentar a Chapecoense no sábado seguinte, pela Arena…
BANCA DE JORNAL
O Fato
Na sexta-feira 15 de maio de 2015, o técnico Tite divulgou a escalação do Corinthians para enfrentar a Chapecoense no sábado seguinte, pela Arena Fonte Luminosa em Araraquara, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro. A escolha dos 11 titulares, porém, não foi um ato simples de comunicado técnico. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, a definição ocorreu "sob protesto" — palavra que carrega peso quando sai da boca de um treinador experiente como Tite.
Tite, à época com trajetória consolidada no futebol brasileiro e já com passagens por clubes importantes, enfrentava pressões que extrapolavam o campo de jogo. O contexto era de turbulência administrativa no Corinthians. A escalação não era apenas uma decisão técnica sobre quem jogaria melhor ou pior. Era, fundamentalmente, uma escolha política dentro de um clube atravessado por conflitos internos. Quando um técnico define uma formação "sob protesto", está sinalizando que existe desalinhamento entre o que ele considera ideal e o que lhe foi imposto ou consentido fazer.
A Fonte Luminosa em Araraquara não é Itaquera. Jogar fora de casa, em um estádio menor, com pressões políticas internas refletindo na escalação — essa é a realidade cotidiana de técnicos em clubes grandes brasileiros. Não é glamour. É resistência. Tite conhecia essa lógica desde muito tempo. A reportagem da Folha captou um momento em que o técnico, aparentemente, precisava esclarecer publicamente: "Olhem, eu protesto. Mas vou cumprir meu trabalho."
Não há registro de quais eram especificamente os pontos de discordância. Talvez fosse sobre a inclusão de um jogador pressionado pela diretoria. Talvez fosse sobre a exclusão de alguém em quem Tite confiava. O silêncio das fontes é tão barulhento quanto o protesto anunciado.
Quando a Escalação Vira Confissão de Impotência
Um técnico que precisa explicar sua escalação sob protesto é um técnico que já perdeu metade da partida antes do apito inicial.
Aqui está a verdade que ninguém gosta de ouvir nos bastidores do futebol: o melhor time técnico nem sempre é aquele com os melhores jogadores no campo. É aquele onde técnico, elenco e diretoria caminham na mesma direção. Quando isso não acontece, quando há "protesto", temos uma estrutura rachada.
Tite não é qualquer um. É um homem que estudou, que pensa o jogo, que tem método. Quando ele diz que escalou "sob protesto", está confessando — e isto é importante — que o Corinthians daquele momento não era um projeto coeso. Era um barco com vários capitães puxando o leme para lados diferentes. O técnico em uma situação dessas vira quase um mediador diplomático: precisa atender pressões, manter a paz interna, honrar contratos, lidar com egos — tudo isso enquanto tenta fazer um time jogar futebol.
A história do futebol moderno está cheia de treinadores que perderam seus empregos não por incompetência técnica, mas por não conseguirem navegar essas águas políticas. Tite sempre foi mais sábio que a maioria. Mas saber que você está em uma encruzilhada e conseguir sair dela são coisas diferentes.
O "protesto" dele em maio de 2015 era, na verdade, um aviso. Uma mensagem cifrada para quem quisesse entender: "Eu posso dirigir o barco, mas alguém precisa parar de mexer na bússola." Ninguém ouviu. Ou ouviram e fizeram de conta que não ouviram. No futebol de clube grande brasileiro, essa é a melhor parte do jogo: a encenação de normalidade enquanto tudo desaba por dentro.
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