Tite enfrenta a pressão das ruas
Na sexta-feira 15 de maio de 2015, o técnico Tite anunciou a escalação do Corinthians para enfrentar a Chapecoense no dia seguinte, sábado 16,…
BANCA DE JORNAL
O Fato
Na sexta-feira 15 de maio de 2015, o técnico Tite anunciou a escalação do Corinthians para enfrentar a Chapecoense no dia seguinte, sábado 16, na Arena Fonte Luminosa em Araraquara, pela Série A do Campeonato Brasileiro. Nada de anormal nisso — técnicos fazem escalações todo fim de semana. O que diferencia este caso, porém, é o contexto: a definição aconteceu sob protesto, como nos informa a Folha de S.Paulo.
O termo "sob protesto" carrega peso. Não significa que Tite escalou os jogadores com os braços amarrados ou sob coação física. Significa algo mais delicado e mais corrosivo: significa que havia descontentamento, que a decisão técnica foi tomada num ambiente saturado de tensão, possivelmente com jogadores questionando escolhas, com pressão interna manifestada, talvez com grupos divididos sobre quem deveria entrar em campo.
Tite é um técnico com longa história de sucesso. Passagem vitoriosa pelo Corinthians, títulos conquistados, trabalho reconhecido. Mas em 2015, o clube passava por momento delicado — fase inconsistente, resultados que não satisfaziam, promessas não cumpridas. A Chapecoense era um adversário teoricamente acessível, mas no futebol nada é garantido, especialmente quando há desunião interna.
O que os relatos disponíveis (ainda que escassos nos detalhes) nos mostram é que Tite precisou escalar sua equipe não apenas vencendo a estatística, a tática e o bom senso técnico, mas também navegando pela política do vestiário. Precisou escolher quem jogaria enquanto ouvia ecos de inconformismo, questões implícitas ou explícitas sobre sua autoridade e suas prioridades. Isso não é raro no futebol — acontece em qualquer clube grande. Mas quando vaza para a imprensa, quando ganha o termo "protesto", todos sabem: há problemas maiores que apenas um jogo contra a Chapecoense.
Quando a Autoridade Técnica Encontra a Revolta Corporativa
Aqui está a questão que merece reflexão de verdade: um técnico pode estar absolutamente certo em suas escolhas técnicas e, simultaneamente, estar perdendo a confiança do grupo. São duas coisas diferentes. Uma não invalida a outra.
Um técnico que precisa escalar seu time "sob protesto" já começou a perder a partida muito antes do apito inicial.
Por quê? Porque o futebol não é xadrez. O futebol é ação humana coletiva. Um jogador que entra em campo ressentido, questionador da escalação, sentindo-se injustiçado ou negligenciado, raramente entrega o melhor de si. E aquele que fica no banco, furioso por achar que deveria estar jogando, também não oferecerá seu melhor na hora que for chamado — se for chamado.
Tite enfrenta aqui um dilema clássico da profissão: deve ceder à pressão do vestiário e escalar segundo a "votação" do grupo, corroendo sua autoridade? Ou deve manter suas convicções técnicas, mesmo que isso signifique tocar na ferida do descontentamento? A resposta não é simples, e a própria palavra "protesto" sugere que ele escolheu manter suas convicções. Respeitável. Necessário, até. Um técnico que abdica de sua função em favor da democracia do vestiário virou empresário de jogadores, não mais um gestor técnico.
Mas respeitar a firmeza não exime Tite de enfrentar a consequência: um grupo dividido não joga bem. Um vestiário sob tensão comete mais erros, tem menos sincronismo, sofre de aquele fenômeno que todo torcedor sente quando assiste: a desconexão coletiva. Às vezes isso custa gol. Às vezes custa títulos.
A pergunta que fica, então, não é apenas "Tite escalou certo?". É: "Por quanto tempo Tite consegue manter a confiança de um grupo que protesta contra suas decisões?". Porque autoridade técnica que se sustenta apenas na teimosia, sem base emocional e política no vestiário, é autoridade com prazo de validade curto.
Isso é futebol profissional de verdade. Não é lindo, não é puro, mas é real.
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