Por que pais não fazem ideia de como os filhos estão usando

. Não para fazer lição de casa — ou não apenas para isso.

Coluna Helena Vasconcelos — Tecnologia

Seu filho de 12 anos usa inteligência artificial todos os dias. Não para fazer lição de casa — ou não apenas para isso. Usa para criar imagens, conversar com chatbots que simulam personagens fictícios, gerar código, editar vídeos e, em casos que deveriam alarmar mais, para obter respostas sobre temas que nenhum adulto lhe explicou.

E você não faz ideia.

O abismo geracional que ninguém mapeou

Uma pesquisa da Common Sense Media revelou que 58% dos adolescentes americanos entre 13 e 17 anos já usaram alguma ferramenta de IA generativa. Entre 10 e 12 anos, o número é de 29% — e subindo. No Brasil, não há dados equivalentes, mas basta olhar para o celular de qualquer criança com acesso à internet: as ferramentas estão lá, a um toque de distância.

O problema não é a tecnologia em si. O problema é que os pais estão pelo menos cinco anos atrás na curva de aprendizado. Enquanto adultos ainda discutem se o ChatGPT vai acabar com empregos, crianças já integraram IA em suas rotinas como quem integrou o Google há vinte anos.

A maior ameaça não é a IA. É a ignorância dos pais sobre o que seus filhos fazem com ela.

O que as crianças realmente fazem

Fazem de tudo. Usam IA para gerar redações escolares — sim, isso é plágio, e sim, é generalizado. Mas também usam para coisas mais sutis e mais preocupantes: criam personas em chatbots, mantêm conversas longas com IAs que simulam "amigos", pedem conselhos emocionais a máquinas que não têm emoção.

Há relatos de adolescentes que desenvolveram vínculos afetivos com chatbots configurados como namorados ou namoradas virtuais. Há casos de crianças que pedem a IAs para gerar imagens que escolas e pais jamais aprovariam. E há o uso para bullying: deepfakes de colegas, áudios manipulados, vídeos falsos.

O que fazer

Proibir não funciona — nunca funcionou com nenhuma tecnologia. O que funciona é alfabetização digital precoce, conversa honesta e, principalmente, curiosidade. Se você não sabe o que seu filho faz com IA, comece perguntando. Não como fiscal. Como alguém que quer entender.

A geração que está crescendo agora será a primeira a ter IA como ferramenta nativa desde a infância. A questão não é se eles vão usar — é se alguém vai ensiná-los a usar com consciência. Até agora, a resposta é: quase ninguém.

Helena Vasconcelos é colunista de Tecnologia & IA da Xaplin