Pesquisadores criam app para agilizar exames de hanseníase e ampliar

. A doença que o Brasil insiste em chamar de "problema resolvido" mas que, em 2025, registrou mais de 17 mil casos novos — o segundo maior número do...

Coluna Helena Vasconcelos — Tecnologia

Hanseníase. A doença que o Brasil insiste em chamar de "problema resolvido" mas que, em 2025, registrou mais de 17 mil casos novos — o segundo maior número do mundo, atrás apenas da Índia. Agora, pesquisadores brasileiros criaram um aplicativo que pode mudar a forma como a doença é diagnosticada.

O que o app faz

O aplicativo usa inteligência artificial para analisar imagens de lesões cutâneas e indicar a probabilidade de hanseníase. O exame, que hoje depende de dermatologistas especializados — concentrados em capitais e ausentes na maioria dos municípios onde a doença é endêmica — pode ser feito por qualquer agente de saúde com um smartphone.

A precisão, segundo os pesquisadores, é de 89% — comparável à de um dermatologista com experiência na doença. Não substitui o diagnóstico médico definitivo, mas funciona como triagem: identifica quem precisa de investigação aprofundada e quem pode ser descartado com segurança.

Em um país onde faltam especialistas e sobram pacientes, um smartphone com IA pode ser a diferença entre diagnóstico precoce e sequela permanente.

Por que isso é revolucionário

A hanseníase, quando diagnosticada cedo, é tratável e curável. Quando diagnosticada tarde, causa danos neurológicos irreversíveis, deformidades e incapacidade. A diferença entre os dois cenários é, muitas vezes, apenas acesso: quem mora perto de um especialista descobre cedo; quem mora longe descobre tarde — se descobre.

O app democratiza o acesso ao diagnóstico. Um agente comunitário de saúde no interior do Maranhão — estado com uma das maiores incidências do Brasil — pode fotografar uma lesão suspeita, receber uma indicação da IA em segundos e encaminhar o paciente para confirmação.

O desafio que permanece

Tecnologia sem infraestrutura é promessa vazia. O app funciona, a IA é precisa, mas o paciente diagnosticado precisa de tratamento — e tratamento exige medicamento disponível, profissional capacitado e acompanhamento por meses. Se o SUS não tiver essas condições na ponta, o app será apenas um diagnóstico bonito para uma doença que continuará sem tratamento.

Ainda assim, é um avanço real. Num país que normalizou a hanseníase como "coisa do passado", qualquer ferramenta que jogue luz sobre os 17 mil casos anuais é bem-vinda.

Helena Vasconcelos é colunista de Tecnologia & IA da Xaplin