Existe um tipo de semana que não pede análise. Pede travessia. Esta foi uma dessas. Ninguém na casa quis escrever sobre o que estava no noticiário — havia o noticiário, havia o ruído de fundo, havia aquela sensação de que o mundo se repete em ciclos cada vez mais curtos. Mas os cronistas da Bica. fizeram o que sempre fazem quando o mundo grita: baixaram a voz. Foram para as ruelas, para os bares de canto, para os cômodos pequenos onde a vida acontece quando ninguém está vendo.
André Cavalcanti me mandou a crônica dele no fim da tarde de terça-feira com a seguinte mensagem: "Roberta, escrevi algo sobre um cara que riu sozinho no metrô. Não sei se é Bica. ou se é nada." É Bica.. Está nesta edição. Adelaide Fontes me mandou um ensaio sobre o silêncio que existe entre uma conversa e outra na mesa do almoço — algo que ela vinha pensando há semanas. Maíra Calazans, que está mais para a prosa lírica nesta fase, mandou três fragmentos curtos sobre coisas que envelhecem em silêncio. Está tudo aqui.
O Jazigo do Amadeu — nome interno desta casa para o nosso encontro semanal de fechamento — abriu de novo, como abre todas as quintas há quarenta e duas edições. Décio Saldanha conduziu a Mesa Permanente como sempre conduz: sem pressa, sem grandiosidade, sem deixar ninguém com a palavra travada. Maíra co-curou comigo. Adelaide, André e os outros vinte e dois cronistas trouxeram o que havia. Saiu o que está aqui.
O ensaio mais longo, que normalmente ocuparia o miolo desta edição, ficou para a Ed.43. É um texto que ainda não chegou ao ponto. Quando isso acontece, a casa segura. A Bica. é semanal, mas a obra não tem prazo: tem ponto. Quando o ponto não chega, a gente publica o que está pronto e espera o resto.
Boa quinta a todos. A próxima sai daqui a sete dias — ou quando.
Eu estava no canto da janela, com a mochila no colo, fingindo ler uma coisa no celular. O cara entrou em Maracanã. Cinquenta e poucos anos. Camisa de algodão branca, calça cinza, sapato gasto mas limpo. Sentou em frente a mim, do outro lado do corredor. Encostou a cabeça na vidraça do vagão. Fechou os olhos. Eu achei que ele tinha dormido.
Aí ele riu. Sozinho. Uma risada pequena, contida, mas inequívoca — daquelas que escapam de quem está lembrando de alguma coisa que aconteceu há muito tempo e voltou agora, sem aviso. A mulher do lado dele olhou de canto. Ele não percebeu. Tinha os olhos ainda fechados.
O metrô andou três estações em silêncio. Em Estácio, ele riu de novo. Mais um pouco mais alto. Dessa vez, dois ou três passageiros olharam. O cara abriu os olhos por um segundo, olhou pra ninguém, fechou de novo. Riu uma terceira vez, agora franco, sem segurar. Eu estava encantado.
Eu sei o que aconteceu com ele porque eu já fui ele. Você vai pro trabalho de manhã, dormindo de pé, sem vontade nenhuma de chegar onde está indo, e do nada o cérebro vai num gaveteiro antigo e tira de lá uma cena de quinze anos atrás. Uma piada de amigo morto. Uma idiotice que fizeram numa festa. O dia em que você se ferrou em público e foi tão absurdo que ficou engraçado depois.
O cara da camisa branca tinha encontrado uma dessas. E em vez de fingir compostura matinal carioca, ele simplesmente riu. Três vezes em vinte minutos. Riu sozinho, sem dever satisfação a ninguém. Foi a coisa mais saudável que eu vi na semana inteira.
Em São Cristóvão, ele desceu. Antes da porta fechar, eu vi: ele estava sorrindo ainda, agora discretamente, e tinha esse jeito de quem desce do metrô já levando algo que valia mais do que o dia ia dar. Foi embora.
Eu fiquei pensando o resto da viagem: a gente perde o hábito de rir sozinho. A gente acha que rir sem motivo aparente em público é coisa de doido. Mas o motivo está lá dentro, no fundo da memória, e às vezes ele sobe sem permissão. E quando sobe — meu Deus, quando sobe e a gente não segura — a gente fica vinte minutos mais leve. O dia inteiro fica mais leve.
O homem da linha 1 tava trabalhando nisso quando eu cruzei o caminho dele. Ele me ensinou. Eu fui pro trabalho rindo de uma piada minha, de 2009, que eu tinha esquecido que sabia. Cheguei na sala mais bem disposto do que merecia estar. Não contei pra ninguém.
É esse o ponto. Tem coisa que a gente não precisa contar. Basta lembrar.
Almoço de domingo na casa da minha tia. Vinte pessoas. Crianças no chão, adultos na mesa, idosos no sofá esperando o feijão acabar de apurar. Conversa atravessada — três temas diferentes rolando ao mesmo tempo, ninguém se ofendendo, ninguém pedindo silêncio. Minha prima querendo saber se o seguro saúde da prima da prima dela cobre dentista, meu tio falando do conserto do carro, minha mãe contando pela quinta vez aquela história do verão de 1987. Ruído familiar, sem hierarquia, sem pauta.
Aí alguém pergunta: "tem mais arroz?". E acontece o que eu venho pensando há semanas: a mesa silencia por dois segundos. Não em silêncio dramático, não em pausa significativa. Em silêncio operacional — todo mundo está mentalmente fazendo a mesma coisa: olhando se tem mais arroz, calculando se chega pra todo mundo que ainda não pegou, pensando se vale pedir pra alguém ir esquentar. E só depois desses dois segundos a mesa volta a falar. Como se nada tivesse acontecido.
Mas alguma coisa aconteceu. Vinte cérebros se sincronizaram numa pergunta prática durante dois segundos. Vinte conversas pausaram simultaneamente porque a necessidade comum tinha precedência sobre as conversas individuais. Não foi combinado. Não foi negociado. Foi automático — porque essas vinte pessoas se conhecem há tanto tempo que sabem, sem precisar dizer, que assuntos coletivos pausam assuntos paralelos. É etiqueta interiorizada. É língua falada por gente que mora junto há trinta anos.
Eu venho pensando que nossa cultura atual perdeu esses silêncios. Estamos numa era em que cada segundo precisa de notificação, de palavra, de "como você está", de stories, de respostas. O silêncio virou ameaça. Se alguém para de falar, a gente checa se ofendeu. Se um amigo demora a responder mensagem, a gente checa se está bravo. Se a conversa cai por dez segundos, alguém recoloca tema. Não toleramos mais o intervalo.
Mas o silêncio entre pessoas que se conhecem não é vazio. É preenchido — só que invisivelmente. Está cheio de "eu sei o que você está pensando", de "vou esperar você terminar", de "essa frase não precisa ser dita porque essa frase já está dita há vinte anos". O silêncio é arquitetura. Sustenta a conversa.
Quando a tia voltou da cozinha com mais arroz, a mesa não precisou agradecer. O agradecimento estava no fato de todo mundo ter pausado por dois segundos esperando. Era um agradecimento de dois segundos. Suficiente.
Eu fiquei pensando isso o resto do almoço. Quanto da nossa vida boa acontece em pausas que ninguém anota. E como é estranho que a gente passe os outros dias da semana correndo para preencher cada um desses dois segundos com alguma coisa — música, notificação, conversa forçada, scroll, ruído. Como se silêncio fosse problema. Como se a vida boa fosse uma vida cheia.
Não é. A vida boa, pelo menos a parte dela que eu reconheço, é a que tem espaço pra alguém perguntar "tem mais arroz?" e o resto pausar por dois segundos para descobrir junto se tem.
I. A cadeira.
Tem uma cadeira na sala da minha mãe que ela não usa mais. Era da avó. Madeira escura, assento de palhinha. A palhinha estava começando a ceder no ano passado. Este ano cedeu mais. No ano que vem, talvez ceda de vez. Ninguém senta na cadeira. Ninguém consertou a cadeira. Ninguém doou a cadeira. A cadeira está envelhecendo num canto, encostada na parede, como uma pessoa muito velha que ainda mora em casa porque ninguém teve coragem de levar embora. Toda vez que eu passo na sala, a cadeira está ali. Em algum momento ela vai parar de estar. Mas até lá, ela ainda é a cadeira da avó. Esse "ainda" é o que segura.
II. O vidro do liquidificador.
O liquidificador da minha cozinha tem um vidro que era transparente em 2003. Hoje, vinte e três anos depois, é translúcido. Não sei quando deixou de ser transparente — não foi de um dia pro outro. Foi uma mudança feita por mil banhos de detergente, mil esponjas amarelas, mil dias de cozinha. O liquidificador continua funcionando. O motor é o mesmo. As lâminas estão amoladas. Só o vidro envelheceu. E eu fico pensando: a função permanece, mas o material que carrega a função vai ficando opaco. Talvez seja o que acontece com a gente também. A gente continua funcionando. A gente vai ficando translúcido.
III. O nome.
Tem um nome que eu uso menos do que usava. Vou ao bar, encontro pessoas novas, alguém me apresenta — e o nome sai com o segundo sobrenome. Quando minha mãe me chama de casa por mensagem, vem só o primeiro. Quando minha mãe me chamava em voz alta da janela aos doze anos, vinha o primeiro mais o apelido. Hoje quase ninguém usa o apelido. Daqui a vinte anos, ninguém vai usar. O apelido vai envelhecer junto comigo até ficar enterrado, e depois eu vou ser pelo primeiro mais o segundo sobrenome em situações formais e nada em situações íntimas, porque a essa altura eu vou ser tão familiar para as pessoas que me conhecem que ninguém vai precisar me chamar. Vão só falar comigo. Acho que esse é o ponto pra onde a vida boa caminha: pra um tempo em que o nome perde a função porque a presença já passou a ocupar o lugar dele.