O Seu Arnaldo, que todo dia me vende o pão na padaria da Voluntários da Pátria, tem uma teoria sobre o mês de julho: "Caco, julho não é frio, não. Julho é teimoso." Ele disse isso hoje de manhã, colocando a sacola no balcão com a mesma precisão de sempre, o vapor do café subindo entre a gente como se o mundo tivesse pressa de esquentar. Pensei: tem razão, Arnaldo. Julho é teimoso. E quem madruga com ele também é.
É 15 de julho de 2026. Dia 15 é daqueles que chegam no meio do mês como um prego no sapato — não é começo, não é fim, é o miolo de tudo. A conta vence ou já venceu, o salário some ou ainda não veio, a semana já tem peso mas ainda tem comprimento. E você está aqui, acordado antes dos outros, com a edição na mão. Isso não é pouca coisa. É, aliás, uma escolha que a maioria do mundo não faz.
Esta edição não chega com gritaria. Chega com o noticiário passado a ferro: o que se mexeu na economia, o que rolou no esporte, o que o Brasil acordou falando. O nosso trato com você é esse desde a primeira edição — nada de tabloidão rasgando a camisa, nada de manchete que você depois descobre que era menos do que parecia. Informação no ponto, linguagem que respeita quem lê de pé no ônibus ou sentado na soleira.
Julho tem essa qualidade rara nos meses brasileiros: ele é honesto. Não promete verão, não fingia outono. Chega com seu frio miúdo e sua luz branca de fim de tarde e diz: sou o que sou. Há um certo alívio nisso. O mês não mente, e você pode planejar sem ilusão de temperatura. Quarta-feira de julho tem um ritmo próprio — nem a ansiedade da segunda, nem o cansaço da sexta. É o dia em que o trabalho fala mais alto, e quem trabalha sabe que isso não é insulto, é vocação.
O Seu Arnaldo já virou pro próximo cliente, o café já esfriou um grau, e Julho continua teimoso lá fora. Mas você já está no seu dia — com a edição lida, a cabeça um pouco mais arrumada e o passo um pouco mais firme. Vai lá. O miolo do mês não se resolve sozinho.
Semana passada uma mulher sentou aqui perto das sete da noite e pediu um café. Não quis açúcar, não quis bolachinha do lado, não quis conversa. Fiquei quieto, respeitei. Mas ela mesma abriu: disse que estava bem de saúde, bem de emprego, bem de família — tudo bem, tecnicamente. E que não conseguia entender por que acordava todo dia com a sensação de que já tinha feito tudo aquilo antes e que isso não ia mudar. Cansaço, eu disse. Ela olhou pra mim com aquela cara de quem esperava uma palavra mais bonita. Cansaço, repeti. Do tipo que dorme e continua lá de manhã.
Esse cansaço é diferente do cansaço de corpo. O de corpo você trata com travesseiro, com um fim de semana, com uma folga que chega. O outro não tem folga, porque não é de músculo — é de sentido. É o cansaço de fazer as mesmas coisas pelos mesmos motivos sem ter certeza de que os motivos ainda são seus. Acontece devagar, feito chumbo que vai aumentando de peso sem você perceber que está carregando mais. Num dia você notou que o peso estava diferente. Mas já faz tempo.
Eu conheço esse cansaço de perto. Lá pelos meus quarenta anos, depois de portaria, garçom, volante de aplicativo, faculdade noturna que parei na metade — eu tinha uma vida que funcionava. Nada quebrado. Só que eu acordava e ficava um tempo olhando pro teto sem pressa de sair dele. O Édipo pulava na cama, eu colocava o pé no chão, e o dia começava. Mas começava por inércia, não por vontade. Tem diferença. Inércia te move, vontade te dirige. E quando você só se move sem se dirigir, chega um ponto que nem sabe mais onde está indo.
O que aprendi aqui, servindo café e ouvindo gente de todo tipo, é que esse cansaço pede uma coisa só: que você pare de confundi-lo com fraqueza. Pessoa forte cansa. Pessoa organizada cansa. Pessoa que deu certo cansa. O cansaço de sentido não escolhe quem vive bem ou quem vive mal — ele aparece quando alguém ficou tempo demais respondendo às expectativas dos outros sem parar pra perguntar quais são as suas. É honesto? É. Bonito de ouvir? Não muito. Mas de balcão eu aprendi que o que alivia de verdade não costuma ser bonito de ouvir logo de cara.
A mulher do café sem açúcar ficou em silêncio por uns dois minutos depois que eu falei tudo isso. Depois disse que tinha uma coisa que queria fazer há três anos e ficava adiando porque não era o momento certo. Perguntei qual coisa. Ela disse que não importava qual — importava que ela sabia que era aquela. Eu concordei. Porque quem tem cansaço de sentido, no fundo, já sabe de onde ele veio. O trabalho não é descobrir: é parar de fingir que não sabe. Ela foi embora com o café na metade e uma leveza que não estava aqui quando ela entrou. Isso é o máximo que um balcão pode fazer.
A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta enquanto o café esfria: esse cansaço que você carrega hoje — você tem evitado nomeá-lo porque ainda não sabe o que fazer com ele, ou porque nomeá-lo tornaria impossível continuar fingindo que ele não existe?
A pele avisa antes de machucar: coceira, descamação e vermelhidão no rosto e nos braços são os primeiros sinais de que o ar seco de julho está cobrando seu preço. Hidratante corporal depois do banho — enquanto a pele ainda está levemente úmida — absorve melhor e rende mais. Não precisa ser caro: a vaselina sólida e o creme de ureia encontrados em farmácias populares fazem o serviço.
Olhos secos e tela acesa: quem trabalha o dia todo na frente de computador ou celular pisca menos do que deveria — estudos de oftalmologia chamam isso de síndrome do olho seco digital. No inverno, o ar mais seco piora o quadro. O hábito de piscar conscientemente a cada poucos minutos e manter o ambiente ventilado sem corrente direta de ar nos olhos já alivia bastante. Colírio lubrificante sem conservante pode ser indicado pelo médico — e o SUS oferece consulta oftalmológica nas UBSs e AMAs.
Criança com nariz sangrando: epistaxe é comum em julho por causa da mucosa ressecada. Incline a cabeça levemente pra frente (nunca pra trás), comprima a narina por dez minutos e mantenha a criança calma. Se o sangramento passar de vinte minutos ou se repetir várias vezes na semana, leve ao posto: pode ser sinal de pressão alta mesmo em crianças, e tem solução simples.
Leitura errada acontece mais do que parece: o medidor pode ser lido com erro, estimado sem aviso ou até trocado com o do vizinho. Se o valor da fatura veio muito acima do habitual sem mudança no consumo, você tem direito a pedir revisão de leitura — é gratuito e a distribuidora é obrigada a responder em até quinze dias úteis. Guarde as últimas três faturas: a comparação é seu argumento mais forte.
Como reclamar: primeiro passo é ligar ou acessar o site da distribuidora da sua cidade e abrir protocolo de contestação. Se a resposta não vier no prazo ou não satisfizer, o caminho é a agência reguladora estadual de energia ou a ANEEL — que recebe reclamações pelo site aneel.gov.br ou pelo telefone 167, gratuito. Com protocolo em mãos, a distribuidora não pode cortar a energia enquanto a reclamação estiver aberta.
Tarifa Social de Energia: famílias inscritas no CadÚnico com renda per capita de até meio salário mínimo têm direito a desconto na conta de luz — que pode chegar a 65% no primeiro bloco de consumo. Se você se encaixa e ainda não recebe, procure o CRAS do seu bairro ou ligue pro 156: o cadastro é feito ali mesmo, sem custo e sem intermediário.
Nome sujo não é sentença: o Procon municipal e estadual oferece atendimento gratuito para renegociação de dívidas — e em muitos estados a própria plataforma Consumidor.gov.br permite negociar diretamente com a empresa sem sair de casa. O acesso é pelo site consumidor.gov.br, sem cadastro pago e sem precisar de advogado. Empresas cadastradas são obrigadas a responder em até dez dias.
Negativação indevida tem conserto rápido: se o seu nome foi parar no SPC ou Serasa por uma dívida que você já pagou ou que não reconhece, você pode pedir exclusão diretamente ao órgão de proteção ao crédito — e a empresa que fez a negativação tem até cinco dias úteis para retirar o registro após a quitação comprovada, conforme o Código de Defesa do Consumidor. Boleto quitado? Guarde o comprovante por pelo menos cinco anos.
Feirão de renegociação: ao longo do ano, o Serasa e o Governo Federal promovem mutirões de negociação com descontos maiores que os do cotidiano. O 156 da sua prefeitura informa se há parceria local. Enquanto isso, o atendimento presencial do Procon não cobra nada e orienta sobre os seus direitos antes de você assinar qualquer acordo — assinar pressado, como diz o ditado, é casar sem conhecer a sogra.
Existe uma cena que não sai da cabeça de quem cresceu ouvindo futebol pelo rádio: o locutor anuncia o placar, a multidão explode, e você imagina cada rosto na arquibancada — o homem de camisa desbotada, a mulher com o filho no colo, o grupo de amigos que foi de metrô porque estacionamento não cabe no bolso. O futebol é isso: um encontro de gente que não se conhece, mas que por noventa minutos divide o mesmo suspense. É lindo, e na maioria das vezes termina bem. Mas esta semana a Copa do Mundo trouxe uma notícia que nenhuma torcida deveria ter de carregar.
Pedro Ely Cordeiro dos Santos, advogado de 43 anos, foi assistir ao jogo entre França e Marrocos na Vila Madalena, em São Paulo, na sexta-feira (10). Sua família e amigos não tiveram mais notícias dele. Nesta terça-feira (14), o corpo foi identificado no IML da capital paulista. As circunstâncias seguem sob apuração das autoridades. Não há como escrever sobre essa Copa sem parar aqui um instante. Pedro não é dado estatístico nem nota de rodapé: era uma pessoa que foi a um jogo, como tantos de nós iríamos. O esporte que a gente ama acontece em cidades, entre pessoas — e às vezes a cidade falha de um jeito que dói fundo. Que a família encontre respostas, e que as autoridades façam o trabalho.
No campo, a notícia do dia foi a Espanha. Ao bater a França por 2 a 0 nesta terça (14), a seleção espanhola se tornou a sétima da história da Copa do Mundo a chegar à final com apenas um gol sofrido em toda a fase de classificação. A defesa espanhola joga como quem aprendeu que manter a bola fora é tão elegante quanto colocá-la dentro. Quem está do outro lado na final ainda será definido — mas a Espanha já avisou que não veio para decorar o placar alheio. Já tem um título em 2010; quer o segundo.
Também nesta terça (14), a CBF apresentou suas metas para o ciclo até 2030: vencer a Copa América de 2028 e terminar as Eliminatórias em primeiro lugar. São objetivos concretos, mensuráveis, que comprometem a entidade perante torcedores e imprensa. Metas escritas valem mais do que promessas de microfone — e cobrar o cumprimento delas é exatamente o que uma torcida exigente faz. A Banca vai lembrar.
E enquanto a Copa do Mundo de futebol se encaminha para a final, o vôlei entra em cena com a sua própria batalha. Nesta quarta-feira (15), em Chicago, a seleção brasileira masculina de vôlei abre a terceira e última semana da fase preliminar da Liga das Nações contra a França — a mesma França que é bicampeã olímpica. O técnico Bernardinho anunciou os convocados nesta terça. É o primeiro de quatro jogos decisivos na semana. O vôlei brasileiro vive um momento em que cada partida é uma declaração de propósito. Chicago vai ouvir o hino.
Copa do Mundo · Final: domingo, 19 de julho. A Espanha está confirmada; o adversário sai da outra semifinal. Terceiro lugar: sábado (18). Liga das Nações (vôlei masculino): Brasil x França — hoje, quarta (15/07), em Chicago (EUA). Primeiro de quatro jogos da semana decisiva. A Banca abre com os placares da véspera todo dia.

O feijão-preto é dos grãos mais baratos do armazém e, depois de uma noite de molho, ele cozinha mais rápido e ainda fica mais cremoso — dois por um sem esforço. Os cortes de carne que fazem a feijoada cantar (pé, orelha, rabo, costelinha salgada) são exatamente os que o açougue vende mais em conta, porque têm osso e gordura suficientes pra transformar o caldo em algo que parece ter cozinhado a semana inteira. A gordura do toucinho vai se dissolvendo aos poucos e envolvendo cada grão: é ela que dá aquela cor escura e brilhante que avisa, já de longe, que a panela está pronta. Dez porções generosas, sem conta que doa. O rendimento é o argumento.
Feijoada feita no almoço melhora no jantar e fica ainda melhor no dia seguinte — o caldo aprofunda o sabor enquanto descansa. Pra requentar: fogo baixíssimo, um pouquinho de água se o caldo tiver secado, e mexe com carinho. Nada de microondas na feijoada. Isso ela não perdoa.
Ninguém acertou as seis dezenas ontem à noite. O Concurso 3.031 da Mega-Sena, realizado na terça-feira (14), sorteou os números 20, 28, 32, 35, 40 e 54 — e nenhuma aposta levou o prêmio principal. O acumulado agora está estimado em R$ 30 milhões para o próximo sorteio. Quem acertou cinco dezenas foram 24 apostadores: cada um recebe R$ 63.791.
Sonhar custa pouco; apostar em consciência custa ainda menos. Se o prêmio acumulado entrou nos seus planos desta semana, vale lembrar a regra básica: loteria é entretenimento, não investimento. O valor aplicado precisa estar no orçamento de lazer — não no de alimentação, nem no de transporte. Aposte o que você perderia sem drama. O resto fica guardado.
O governo brasileiro chamou de "injusta" a possível imposição de novas tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. A reunião aconteceu na terça-feira (14) entre representantes do Brasil e o negociador comercial americano Jamieson Greer. Ainda na mesma data, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, adiantou que o governo poderá editar uma nova Medida Provisória para apoiar empresas brasileiras caso o tarifaço seja confirmado.
O que isso tem a ver com a sua feira? Tarifas sobre exportações brasileiras afetam primeiro as indústrias — suco de laranja, aço, calçados, carne. Se as empresas vendem menos lá fora, o impacto aparece cá dentro na forma de desemprego e pressão sobre preços. Não é automático nem imediato, mas já é hora de prestar atenção: quem tem dívida indexada ao dólar ou parcela de produto importado no orçamento merece acompanhar o noticiário nas próximas semanas.
O que fazer agora, na prática? Nada de pânico — e nada de comprar dólar no impulso. A medida ainda não foi confirmada. O que cabe ao bolso doméstico neste momento é o básico de sempre: evitar dívida nova em moeda estrangeira, não antecipar compra grande financiada achando que vai ficar mais barato depois, e manter a reserva de emergência funcionando — mesmo que pequena — para não ser pego de surpresa se o cenário piorar.
O governo federal deverá recorrer ao Supremo Tribunal Federal para barrar o impacto fiscal da PEC que cria regras especiais de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias. A informação foi dada pelo ministro Dario Durigan nesta terça-feira (14).
Por que isso aparece na página do bolso? Gastos não planejados do governo têm nome técnico — impacto fiscal — e consequência prática: quando o orçamento público estoura sem cobertura, a pressão sobre juros e inflação aumenta. Não é pauta de economista; é pauta de quem paga prestação, compra gás e renova contrato de aluguel. Acompanhar o debate fiscal não é entender política; é entender o próprio dinheiro.
O que esses agentes fazem, afinal? São os profissionais que visitam domicílios em áreas vulneráveis, monitoram casos de dengue, hipertensão e diabetes e são a primeira linha do SUS fora das unidades de saúde. A discussão sobre aposentadoria especial envolve condições de trabalho reconhecidamente pesadas — o ponto de atrito é quem paga a conta e quanto.
Tarifas, dólar, discussão fiscal — muita coisa ao mesmo tempo. Em períodos de incerteza econômica, o erro mais comum não é não entender o noticiário: é reagir com pressa. Comprar dólar no pico, antecipar parcelas de crediário com medo de juros futuros, cancelar tudo de uma vez — essas decisões tomadas no susto costumam custar mais caro do que a crise em si.
A ordem de prioridade não muda com a manchete. Comida, moradia, água, luz e transporte para o trabalho ficam sempre no topo. Dívidas com juros altos — cartão de crédito e cheque especial — vêm logo depois, porque cada dia parado custa mais. O resto é negociável, pausável ou adiável conforme a situação. Essa hierarquia vale em tempo de calmaria e vale em tempo de tarifaço.
Informação boa protege mais do que pressa. Fique de olho nos canais oficiais — Banco Central, Ministério da Fazenda, Procon do seu município — antes de tomar qualquer decisão financeira grande baseada no que ouviu no ônibus. E se surgir dúvida sobre dívida ou direito do consumidor, o Consumidor.gov.br e o Procon atendem sem custo e sem papelada complicada.
O bolso não precisa entender de geopolítica para se proteger. Precisa de ordem, de calma e de informação verificada. A Banca traz os fatos; você decide o que fazer com eles. Amanhã tem mais.
A montanha não vai a lugar nenhum. Fica parada enquanto o vento passa, enquanto a chuva bate, enquanto a névoa sobe e some. E justamente por isso ela permanece. O Hexagrama 52 do I Ching — Ken, a Montanha — não é símbolo de preguiça nem de recuo com medo. É símbolo de quem sabe o momento exato de parar de se mover pra não desperdiçar o passo.
Quarta-feira de julho tem um peso particular. Você já atravessou metade da semana carregando o que trouxe de segunda. Hoje o recado não é pra você acelerar — é pra você reconhecer quando o movimento certo é ficar firme onde está. Isso tem nome em toda tradição que existe: discernimento. O momento de avançar pede clareza, e clareza pede silêncio interno, mesmo que você esteja no meio do barulho do mundo.
Quem reza reconhece isso como espera em Deus. Quem canta ponto reconhece como firmeza do orixá que segura antes de agir. Quem medita reconhece como a pausa entre dois pensamentos — onde a resposta costuma aparecer. Quem não tem fé nenhuma declarada também conhece essa sensação: aquela hora em que você para, respira fundo e o caminho fica mais nítido do que estava quando você corria.
Então hoje, se uma decisão estiver pressionando: não precisa resolver enquanto o café esfria. Se uma conversa difícil estiver esperando: não precisa começar antes de você estar firme. Se alguém pedir mais do que você tem de dar agora: a montanha não se move porque alguém mandou. Ela espera a hora certa, e isso não é fraqueza — é a força mais honesta que existe.
Há dias em que o maior ato de coragem é não reagir de imediato. É respirar, se pousar, esperar a poeira baixar antes de dar o próximo passo. A montanha não chega atrasada a lugar nenhum — ela simplesmente está onde precisa estar, quando precisa estar.
Bom dia. Que a sua quarta seja sólida — do tamanho da montanha que você já é, antes mesmo de sair de casa.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 13 de dezembro de 1912, em Exu, no sertão de Pernambuco, filho de Januário dos Santos Gonzaga — o Januário sanfoneiro, que ensinou ao menino que a música não era ornamento mas necessidade, a mesma necessidade da água e do pão em terra de seca. Aos dezasseis anos, depois de uma desavença com o pai motivada por ciúme de namoro, Gonzaga foi embora a pé, enfiou-se no Exército e passou anos tocando nas festividades dos quartéis, aprendendo que audiência é audiência em qualquer latitude.
Chegou ao Rio de Janeiro em 1939, já com mais de vinte e cinco anos, e foi bater na Rádio Nacional com a sanfona debaixo do braço. Os músicos do Rio ouviam baião como quem ouve chuva de outro estado — com curiosidade distante. Gonzaga percebeu isso rápido e fez o que todo artista esperto faz diante de um público que não te conhece: tocou o que o público queria ouvir, esperou a confiança, e quando a confiança chegou, tocou o que ele queria tocar. Em 1945, em parceria com o compositor e letrista Humberto Teixeira, gravou Baião, a música que batizou um ritmo e colocou o Nordeste no centro da festa nacional.
A parceria com Humberto Teixeira e depois com Zé Dantas rendeu um cancioneiro que atravessou décadas sem envelhecer: Asa Branca, Vozes da Seca, A Vida do Viajante, Algodão. Cada música era um documento e uma festa ao mesmo tempo — denunciava a seca, a migração forçada, o abandono do sertanejo, mas com uma ginga rítmica que fazia o corpo se mover antes que a cabeça processasse o peso da letra. Gonzaga entendeu, antes de qualquer teórico, que a alegria pode ser forma de resistência sem deixar de ser alegria de verdade.
No fim dos anos 1950 e ao longo dos anos 1960, a Jovem Guarda e a bossa nova deslocaram o baião das paradas, e Gonzaga enfrentou um período de ostracismo nos grandes centros. Voltou para o Nordeste, tocou nos interiores, não abandonou o chapéu de cangaceiro nem a roupa de couro, não mudou de dicção para agradar quem havia mudado de gosto. Quando a geração tropicalista o redescobriu — Gilberto Gil gravando com ele, Caetano Veloso o chamando de mestre em entrevistas — Gonzaga recebeu o reconhecimento com a tranquilidade de quem nunca achou que havia sumido: eu tava aqui o tempo todo, disse, sem mágoa e sem ironia.
Com o filho Gonzaguinha, a relação foi longa e tensa — separados quando a criança era pequena, reencontrados quando os dois já eram músicos consagrados — e a reconciliação virou uma das histórias mais honestas que a música popular brasileira guardou sobre paternidade, tempo perdido e o jeito torto que o amor tem de se arrumar quando não encontra caminho direto.
Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989, em Recife, aos 76 anos. A edição desta quarta-feira de julho chega perto do mês em que ele foi embora, e a Banca achou justo parar aqui um instante. Não para lamentar a saudade — ele próprio já havia musicado a saudade melhor do que qualquer nota de rodapé conseguiria. Mas para notar o que a trajetória dele ensina sem moralismo: que identidade não é obstáculo à chegada, é o próprio bilhete de entrada. Gonzaga não virou grande artista apesar de ser do sertão. Virou grande artista porque era do sertão, e nunca fingiu outra coisa.
Quarta-feira é o dia mais honesto da semana. Ela não vende promessa de segunda, não embala a melancolia de domingo, não carrega a expectativa de quinta — que todo mundo já trata como véspera de fim de semana antes de ser. A quarta simplesmente é. E a TV aberta, que entende de gente mais do que qualquer ciência humana, sabe exactamente o que fazer com essa honestidade: ela passa o programa e pronto.
Você chega em casa — ou no boteco, que é a extensão do corredor de quem mora longe do trabalho — e a tela já está no ponto. Não tem que procurar nada, não tem que escolher em qual catálogo de streaming você vai perder vinte minutos antes de desistir e dormir. A TV aberta tomou a decisão por você às seis da manhã, quando a grade foi fechada, e agora só entrega o combinado. Há um conforto subestimado nisso. Quem quer escolher tudo o tempo inteiro na vida não conhece o prazer de, às vezes, ser levado.
A quarta também tem o seu próprio ritmo de novela. É quando os capítulos entram na faixa de combustível — nem o calor do plot twist de segunda, nem o gancho dramático de sexta que vai deixar o Brasil em polvorosa até o próximo episódio. O capítulo de quarta trabalha por dentro: desenvolve relação, planta detalhe, deixa uma cena que você vai lembrar na quinta-feira sem saber bem por quê. É a escrita de bastidor, a que aparece quando a novela confia que você vai continuar mesmo sem explosão.
E a mesa do boteco processa assim também. Quarta é conversa de manutenção — não é barraco nem grande revelação, é o papo que sustenta a semana. Alguém comenta a cena de ontem. Alguém discorda da posição do personagem com mais convicção do que teria a respeito do próprio chefe. A TV entra na conversa sem ser chamada e sai sem se despedir. Faz parte da mobília sem ser invisível — essa é uma habilidade que pouquíssimas companhias têm.
Há também o fenômeno específico da quarta no horário de programa de auditório: a plateia aparece mais solta. Talvez seja porque metade da semana já passou e o cansaço virou uma espécie de liberdade. O apresentador percebe isso. A câmera percebe. O programa que vai ao ar no meio da semana carrega uma leveza diferente da do domingo — menos grandioso, mais de verdade. É quando a televisão para de performar e, por alguns minutos, respira junto com quem assiste.
Então deixa a quarta acontecer. Não precisa ser um barraco histórico, não precisa ser o capítulo que vai repercutir no dia seguinte. Precisa ser você no seu lugar, a tela no dela, e o hábito silencioso de compartilhar o mesmo horário com desconhecidos que, em algum ponto da grade, vão reagir igual a você — sem saber que você existe, mas completamente sincronizados. A TV aberta construiu esse milagre barato toda noite há muitas décadas. Quarta-feira só é o dia em que ela faz isso sem nenhum esforço aparente.
O número chegou à caderneta por dois caminhos diferentes — G1 e CNN Brasil, cada um com a própria apuração — e os dois bateram na mesma conta: o investimento anual em saneamento básico no Brasil cresceu 51% desde que o Marco Legal do Saneamento foi aprovado, há seis anos. Cinquenta e um por cento é muito. É também, dependendo do ponto de partida, ainda pouco. O próprio estudo diz que o ritmo atual segue abaixo do necessário para cumprir as metas da lei. Água tratada e esgoto coletado para todos até 2033 — essa é a promessa no papel. A torneira seca que você conhece, ou que alguém da sua família conhece, é a distância entre o papel e a rua.
A notícia não é programa de fim de semana, mas vira programa quando você sabe onde bater. Se o seu endereço sofre com abastecimento irregular ou sem esgoto tratado, o ponto de partida é a Ouvidoria da concessionária local — pública ou privada — e, se não houver resposta, o canal da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a ANA, acessível pelo site gov.br. Cadastrar reclamação não resolve a obra na semana seguinte, mas alimenta o mapa que decide onde o dinheiro vai primeiro. Reclamação que não existe não aparece em nenhum estudo.
Para quem quer entender melhor o que o Marco Legal mudou e o que ainda falta, a reportagem do G1 está linkada na edição de hoje e não exige cadastro para ler. A da CNN Brasil também. As duas valem o tempo do ônibus. Se você mora numa cidade com concessão recente e quer saber o que o contrato garante — prazo de conexão, multa por descumprimento, canal de denúncia — o lugar certo é o site da Secretaria Municipal de Infraestrutura ou Obras, que por lei deve publicar os contratos. Acesso gratuito, sem login, sem taxa.
O programa de hoje, então, é esse: ler, saber onde está o contrato da sua cidade e, se for o caso, registrar a reclamação que ainda não foi registrada. Não tem endereço de rua, não tem horário de portão. Tem só um link e a disposição de clicar. Equipamento público mais subestimado do Brasil: a caixa de reclamação que ninguém usa porque ninguém acredita que adianta. Joaquim acredita — e anota.
Às cinco da manhã a avenida tem menos gente do que culpa. A culpa é de quem jogou copo na calçada às onze da noite e foi dormir certo de que o problema havia sumido. Não sumiu: está ali, no canteiro entre o ponto de ônibus e a banca de jornal fechada, esperando. Dona Conceição já sabe disso. Por isso ela chega antes do problema ganhar plateia.
Ela tem a vassoura grande, de cabo longo, daquelas que parecem um instrumento de orquestra quando você não está olhando direito. Chapéu de aba larga cor de caqui, colete laranja fluorescente — que de noite seria prudência e de manhã é presença. Ela varre em arcos largos, com um ritmo que não é pressa nem preguiça, é outra coisa: é o ritmo de quem aprendeu que apressar não adianta e parar também não resolve. O meio-termo é o arco. O arco é tudo.
Perguntei como ela se chama. Ela disse Conceição, sem sobrenome, com a naturalidade de quem entende que o sobrenome fica para os documentos e a madrugada não é burocrática. Perguntei se incomoda acordar antes dos outros. Ela parou, apoiou o cabo da vassoura no ombro — exatamente como o exemplo da gari que apoia a vassoura no poste, só que ao contrário: ela não estava descansando, estava me olhando. "Eu não acordo antes dos outros", disse. "Eu acordo na minha hora. Os outros é que dormem errado." Guardei a frase no bolso onde guardo as coisas que não quero perder.
Em dez minutos passou um rapaz de capacete carregando marmita para uma entrega que começa antes que o restaurante abra o salão. Passou uma senhora puxando carrinho de feira vazio — já ia, portanto já viria cheia. Passou um homem de terno que dobrava o jornal com aquela eficiência de quem treinou o gesto numa época em que jornal era dobrado, não deslizado. Conceição varreu na frente de cada um deles sem interromper a conversa que o arco da vassoura tinha com o asfalto. Ninguém agradeceu. Ninguém precisava: agradecer o ar também não é costume, e o ar não fica ofendido.
Antes de ir, ela apontou para um trecho de calçada que eu havia atravessado havia três minutos. "Ali você pisou no canto que eu ainda não tinha feito." Não era acusação — era informação técnica, entregue sem rancor, com a precisão de engenheira de obra que nota uma junta mal feita e só quer que você saiba, não que você se sinta mal. Eu me senti mal assim mesmo. Paguei o meu café no boteco da esquina, deixei troco, e voltei pela outra calçada só pra não sujar de novo. Tem dignidades que o troco não cobre — mas pelo menos o troco a gente pode deixar. O resto é só andar com mais cuidado amanhã.
SINE (Sistema Nacional de Emprego): é a porta oficial. Qualquer trabalhador com carteira ou sem pode ir pessoalmente a uma unidade do SINE no município e cadastrar o currículo sem pagar nada. O atendimento é presencial e gratuito — leve RG, CPF, carteira de trabalho (física ou digital) e comprovante de endereço. O site nacional é o empregabrasil.mte.gov.br, mas o cadastro presencial costuma ter mais vagas regionais do que a versão online.
Portal Emprega Brasil: o mesmo Ministério do Trabalho mantém o portal empregabrasil.mte.gov.br com vagas filtradas por cidade e função. Nenhum cadastro pago, nenhum aplicativo de terceiro necessário. Basta CPF e e-mail.
Catho e Vagas.com: as duas maiores plataformas privadas permitem cadastro de currículo sem custo. A candidatura a vagas também é gratuita — o que é pago é o plano de destaque, que coloca o currículo no topo da lista dos recrutadores. Você não precisa pagar para candidatar: só para aparecer antes dos outros. Avalie se faz sentido no seu momento.
LinkedIn: crie o perfil completo, com foto profissional (pode ser tirada com celular numa parede clara), resumo em três linhas e ao menos duas experiências listadas. Recrutadores buscam ativamente por candidatos no Brasil — e o algoritmo favorece perfis com foto e com "aberto para trabalhar" ativado.
Senai e Senac: as duas instituições oferecem cursos técnicos e de qualificação com turmas gratuitas ou subsidiadas pelo Pronatec. Os calendários variam por estado — procure a unidade mais próxima e pergunte pessoalmente sobre vagas gratuitas. A lista online costuma estar desatualizada; o balcão de atendimento, não.
Coursera e Fundação Bradesco Escola Virtual: plataformas digitais com certificados reconhecidos pelo mercado. A Escola Virtual da Fundação Bradesco (ev.org.br) é 100% gratuita — informática, finanças, atendimento ao cliente, gestão de equipes. O Coursera permite auditar a maioria dos cursos sem pagar; só o certificado tem custo.
Google Ateliê Digital: cursos de marketing digital, presença online e ferramentas do Google, com certificado emitido pela própria empresa. Procure por "Ateliê Digital Google" no buscador — o acesso é direto, sem intermediário.
Quanto tempo por dia basta: trinta minutos de estudo consistente valem mais do que uma maratona de quatro horas no fim de semana. Defina uma hora fixa — no ônibus, no intervalo do almoço, depois do jantar — e respeite. Hábito pequeno e constante bate talento esporádico toda vez.
Hoje a Mega-Sena acumulou para R$ 30 milhões — ninguém acertou as seis dezenas do concurso 3.031, sorteado nesta terça (14), e o próximo sorteio promete fila. Mas enquanto todo mundo sonha com o número redondo, a Porta Aberta prefere lembrar que o único prêmio que não acumula é o que você constrói no currículo: vai chegando, dezena por dezena, sem sorteio.
Procurar emprego tem método. Não é dom, não é sorte e não depende de quem você conhece — embora conhecer gente ajude muito. Depende de aparecer no lugar certo, na hora certa, com um currículo que diz o que você faz sem rodeios. Uma linha direta, sem adjetivo, vale mais do que três parágrafos cheios de "profissional comprometido com resultados". Diga o que você já fez. Deixe o recrutador tirar as próprias conclusões.
O alerta que esta coluna não cansa de repetir: qualquer oferta que chega por WhatsApp com salário generoso, sem entrevista e pedindo seus dados bancários antes de qualquer processo seletivo é fraude. Não importe o quão profissional pareça o logo, o quão formal seja a linguagem ou quantas estrelas tem o perfil de quem enviou. Empresa séria não contrata por Telegram, não pede Pix de "uniforme" e não garante emprego em 24 horas. Desconfie, feche a conversa e denuncie.
Na próxima edição, voltamos com vagas verificadas — salário na cara, endereço na cara, prazo em destaque. Enquanto isso, o método está aqui, a porta está aberta e o caminho é gratuito.
Quatro edições. Quatro manhãs de quarta saindo da gráfica enquanto a cidade ainda decide se vai acordar bem ou mal. Já dá pra sentir o que ficou girando na cabeça de quem leu — não o que aplaudiu, mas o que franziu a testa, dobrou o jornal na página errada e ficou com a pulga atrás da orelha. A Banca leu essas dobras. Responde a elas.
Carta boa não precisa começar com elogio. Pode começar com "errei de entender" ou "vocês erraram de contar" — as duas aberturas têm o mesmo valor aqui. O que a Banca não aceita é o silêncio satisfeito de quem leu, teve a sua opinião e guardou no bolso junto com o troco.
Quando a carta real chegar, ela vai ocupar este espaço com nome, bairro e a frase exata do leitor — sem corte que mude o sentido, sem adorno que enfeit demais. O jornal que edita a carta do leitor pra parecer mais bonita está editando a si mesmo pra parecer melhor do que é. Esta Banca não faz isso.
Escreva errado se precisar. A redação lê o argumento, não a gramática. Bairro periférico, andar de cima, mesa de bar, banco de ônibus — o lugar onde você leu esta edição já é informação suficiente pra começar.
Quarta-feira, quinze de julho. Julho já passou da metade e o ano está descendo a ladeira do segundo semestre em velocidade que ninguém pediu autorização. Você acorda, e antes de qualquer decisão consciente, algo em você já esperou que o dia fosse melhor do que o de ontem. Isso não é ingenuidade — é o funcionamento básico de quem ainda está aqui, de pé, antes do sol terminar de subir. O provérbio é antigo e não tem dono porque pertence a todo mundo que já acordou exausto e mesmo assim colocou o pé no chão. A esperança que morre por último é a esperança épica, a da grande virada, do reconhecimento merecido, do placar que muda no último minuto. Mas existe outra — menor, mais teimosa — que acorda antes de você e aquece a água do café sem pedir elogio. É ela que faz o ônibus ser suportável, a fila andar, o turno terminar. Não precisa de nome bonito nem de citação de filósofo: basta que você a reconheça quando ela aparecer, que é agora, que é hoje, que é nessa quarta-feira que ainda tem tudo por decidir. O dia está aberto. Leva essa frase no bolso — e quando alguém te perguntar como você está indo, fala a verdade: indo.
A tirinha ainda está no forno — e forno bom não abre antes da hora.
Todo quadrinho começa com uma pergunta que ninguém ousou fazer em voz alta. No caso do Pedrinho, a pergunta costuma escapar pela boca antes que o bom senso possa segurar — e é justamente aí que a Vó Olga entra, com aquela voz de quem já viu o Brasil mudar de nome várias vezes sem perder o endereço.
A tirinha Pedrinho na Banca é um quadro da casa. Pedrinho tem oito anos, curiosidade de adulto e paciência de... bem, oito anos. Vó Olga tem setenta e tantos, memória de elefante e o dom raro de explicar o país sem precisar mentir pra nenhuma das duas partes.
Toda segunda, quando você dobrar esta página, vai encontrar os dois no mesmo lugar: ele com a pergunta, ela com a resposta que o Brasil merecia ter recebido faz tempo.
A arte definitiva está a caminho. Enquanto o lápis do desenhista termina o serviço, fica aqui o convite: se você tem um Pedrinho em casa — filho, sobrinho, vizinho que não para de perguntar por quê — guarda a edição. Na semana que vem, eles se reconhecem na página.
— Um quadro da casa
Ontem um rapaz chegou aqui depois do expediente e pediu uma água com gás. Só água. Fiquei olhando. Perguntei se tinha acabado de engolir sapo. Ele deu uma risada curta, daquelas que não chegam ao olho, e disse: engolei, mas foi na reunião das dez da manhã. Já tinha passado o dia inteiro carregando aquilo. A chefia falou uma coisa errada sobre o trabalho dele na frente de todo mundo, ele ficou quieto, agradeceu até, e passou o resto do dia repetindo a cena na cabeça igual fita emperrada. Pedi que sentasse. A água com gás podia esperar um pouco.
Porque essa raiva engolida é das mais traiçoeiras que eu recebi aqui no balcão. Ela não avisa que chegou. Você não nota no momento — nota três horas depois, quando buzina no trânsito por coisa que não merecia, ou quando responde torto pra quem não tem nada a ver com a história. A raiva engolida não some: ela viaja. Muda de endereço e vai aparecer na primeira porta destrancada que encontrar. E aí a conta chega pra quem menos devia receber.
Tem gente que confunde engolir com superar. Não são a mesma coisa. Superar exige que você olhe pro negócio, mastigue devagar e decida o que fazer com ele. Engolir é diferente: é tampar o pote e empurrar pra baixo da pia pra ninguém ver. O pote não some. E debaixo da pia, sem luz e sem ar, o que estava dentro só apodrece mais. Já vi casamento acabar, amizade trincar e emprego pedir demissão por raiva que começou pequena e não teve onde pousar.
Não estou pregando que você saia por aí destampando pote em cima de chefe, vizinho e fila de banco. Isso não é sabedoria, é confusão. O que eu aprendi aqui nesse balcão é que a raiva precisa de trânsito interno antes de virar palavra ou atitude. Trânsito interno é simples: você para, reconhece — isso me irritou, e eu tinha razão de me irritar — e daí escolhe se vai falar, como vai falar ou se vai só largar. Mas largar de verdade, não enfiar debaixo da pia. Tem diferença entre soltar e sufocar. Uma alivia; a outra só adia.
O rapaz da água com gás foi embora com uma tarefa que ele mesmo criou enquanto conversávamos: antes de dormir, escrever em uma frase o que aconteceu de manhã — sem florear, sem justificar a chefia, sem diminuir o que sentiu. Uma frase. Não pra mandar pra ninguém. Só pra dar um endereço fixo pra aquela raiva antes que ela continuasse viajando. Pequena coisa. Mas dar nome ao que dói é o primeiro passo pra parar de tropeçar nele no escuro.
A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta enquanto o balcão fecha: quando você sente raiva e decide não dizer nada, você está escolhendo a hora certa — ou está confundindo silêncio com força porque nunca aprendeu que as duas coisas podem não ser a mesma?