Recife: quando a água sobra, mata. Quando falta, adoece.

Uma cidade construída sobre mangue e contradição Recife é uma cidade anfíbia.

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Uma cidade construída sobre mangue e contradição

Recife é uma cidade anfíbia. Construída sobre planícies alagáveis, cortada por rios — Capibaribe, Beberibe, Tejipió, Jiquiá —, ela convive com a água como quem convive com um parente imprevisível: ora generoso demais, ora ausente sem aviso.

Em 2026, o Recife tem 1,49 milhão de habitantes, segundo estimativa do IBGE. Desses, 430 mil vivem em áreas de risco de deslizamento ou alagamento, segundo mapeamento da Defesa Civil municipal. São morros ocupados sem planejamento, margens de rios sem contenção, canais a céu aberto que viram rios em 20 minutos de chuva forte.

Quando chove demais

Em maio e junho de 2022, o Grande Recife viveu uma tragédia que matou 133 pessoas em Pernambuco, com deslizamentos de barreiras e inundações que varreram bairros inteiros. Jardim Monte Verde, na divisa com Jaboatão dos Guararapes, ficou irreconhecível. Quatro anos depois, o risco permanece: segundo relatório da Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC), 72% dos pontos críticos identificados em 2022 receberam apenas intervenções paliativas.

"Todo ano é a mesma coisa. Começa a chover em abril, a gente não dorme. Meu vizinho morreu em 2022. A barreira desceu em cima da casa dele às três da manhã. A gente escutou o barulho e não podia fazer nada." — Dona Marlene, 64 anos, moradora do Morro da Conceição.

O sistema de drenagem do Recife tem mais de 400 km de canais, dos quais 60% foram construídos antes de 1970 e nunca receberam ampliação significativa. A impermeabilização do solo urbano — estacionamentos, concreto, construções irregulares — aumentou o volume de escoamento superficial em 35% nas últimas duas décadas, segundo estudo da UFPE.

Quando falta água

O paradoxo é que essa mesma cidade que alaga também tem sede. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) opera com rodízio de abastecimento em 40% da Região Metropolitana do Recife. Bairros como Ibura, Cohab e Jardim São Paulo ficam até 72 horas sem água na torneira. O índice de perdas na distribuição é de 53,7%, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) — mais da metade da água tratada se perde antes de chegar ao consumidor.

A barragem de Jucazinho, principal reservatório do Agreste pernambucano, operou abaixo de 30% da capacidade durante a seca de 2023-2024. O Recife depende do Sistema Pirapama e do Sistema Tapacurá, ambos vulneráveis a estiagens prolongadas que a mudança climática torna mais frequentes.

Saneamento: a vergonha que corre a céu aberto

Apenas 36,2% dos domicílios do Recife são atendidos por rede de esgoto, segundo o SNIS 2024. O restante despeja dejetos em fossas rudimentares, valas, canais e rios. O rio Capibaribe, cartão-postal da cidade, recebe 120 mil metros cúbicos de esgoto não tratado por dia.

A universalização do saneamento, prometida pelo Marco Legal de 2020 para 2033, exigiria investimentos de R$ 4,8 bilhões só na Região Metropolitana do Recife, segundo a ARES-PCJ. O ritmo atual de investimento é de R$ 280 milhões por ano. A conta não fecha antes de 2045.

O que está sendo feito

O programa Recife Resiliente, lançado em 2023, investiu R$ 340 milhões em contenção de encostas e sistemas de alerta. 89 pluviômetros automáticos foram instalados nos morros da cidade. O aplicativo AlertaRecife envia notificações em tempo real para 180 mil cadastrados.

Mas tecnologia não substitui infraestrutura. Enquanto meio Recife não tem esgoto tratado e 40% convive com rodízio de água, a cidade continua sendo refém de cada temporada de chuvas. O problema do Recife com a água não é meteorológico. É político. É histórico. É a cidade que cresceu fingindo que o mangue não estava ali.

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