Porto Alegre, dois anos depois: a cidade que a água não devolveu

O que ficou debaixo da lama Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior catástrofe climática de sua história.

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O que ficou debaixo da lama

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior catástrofe climática de sua história. O rio Guaíba ultrapassou a cota de 5,33 metros — a maior já registrada, superando a enchente de 1941. Em Porto Alegre, 160 mil pessoas foram diretamente afetadas. Bairros inteiros ficaram submersos por semanas: Sarandi, Humaitá, Navegantes, Farrapos, Marcílio Dias. O aeroporto Salgado Filho fechou por meses. O sistema de proteção contra cheias, projetado nos anos 1970, falhou em pelo menos sete pontos.

Quase dois anos depois, em abril de 2026, a pergunta que Porto Alegre não consegue responder é simples: o que foi reconstruído?

Os números da destruição

Segundo o governo do estado, a enchente de 2024 provocou R$ 22,3 bilhões em prejuízos em todo o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, a estimativa é de R$ 6,8 bilhões em danos diretos — infraestrutura viária, rede elétrica, saneamento, prédios públicos, comércio. O IBGE registrou queda de 8,7% no PIB municipal no segundo semestre de 2024.

Foram 39 mortes confirmadas na capital. Mais de 80 mil pessoas passaram por abrigos temporários. O Departamento Municipal de Habitação (Demhab) cadastrou 12.400 famílias como desalojadas permanentes.

Reconstrução: o que andou

O aeroporto Salgado Filho reabriu para operações comerciais em outubro de 2024, após cinco meses fechado. A reconstrução custou R$ 850 milhões, com recursos federais e do concessionário Fraport. A pista foi elevada em 1,2 metro.

O sistema de comportas do Muro da Mauá recebeu investimento de R$ 145 milhões para automação e reforço. Onze das quatorze comportas foram substituídas. As casas de bombas do sistema de drenagem foram modernizadas com geradores independentes — foi a falha nas bombas que agravou a inundação do centro em 2024.

No bairro Sarandi, 2.400 unidades habitacionais do programa Reconstruir RS foram entregues até março de 2026. O Hospital de Pronto-Socorro (HPS) teve a ala de emergência reformada.

Reconstrução: o que parou

Mas o quadro geral é de lentidão. Segundo levantamento do jornal Zero Hora publicado em fevereiro de 2026, apenas 38% das obras emergenciais prometidas pelo governo federal foram concluídas. Das 12.400 famílias cadastradas como desalojadas, 4.800 ainda vivem em situação precária — aluguel social atrasado, imóveis cedidos por parentes, ocupações irregulares.

"A gente perdeu tudo em maio de 2024. Casa, móvel, documento. Recebi o aluguel social seis meses. Depois cortaram. Estou com meus três filhos na casa da minha sogra, num quarto. Faz quase dois anos." — Rejane da Silva, 42 anos, moradora do bairro Humaitá.

O comércio da Rua Voluntários da Pátria, coração econômico do bairro Navegantes, opera a 55% da capacidade pré-enchente, segundo a CDL Porto Alegre. Muitos comerciantes não conseguiram acessar linhas de crédito do BNDES — a burocracia exigiu documentação que a própria água levou.

O medo que não seca

Em novembro de 2025, chuvas fortes fizeram o Guaíba subir novamente, atingindo 3,60 metros. Não houve inundação, mas o pânico foi real. A Defesa Civil registrou 14 mil ligações em 48 horas. Pesquisa da PUCRS com moradores das áreas afetadas mostrou que 67% apresentam sintomas de estresse pós-traumático.

Porto Alegre não é a mesma cidade. E talvez nunca volte a ser. A enchente expôs o que já estava rachado: a infraestrutura defasada, o planejamento urbano negligente, a ocupação irregular de áreas de risco que décadas de governo permitiram. Reconstruir prédios é uma coisa. Reconstruir a confiança de quem viu a casa desaparecer debaixo d'água é outra.

A água desceu. As perguntas ficaram.

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