Lula pretende anular leilão de gás de cozinha que teve ágio de 209%
%. Releia o número. Duzentos e nove por cento.
Um leilão de gás de cozinha com ágio de 209%. Releia o número. Duzentos e nove por cento. Se um produto que deveria ser acessível é arrematado com um sobrepreço desse tamanho, alguém está ganhando muito — e não é o cidadão que cozinha com botijão.
O que aconteceu
O leilão em questão foi realizado pela ANP para venda de gás natural liquefeito destinado ao abastecimento de distribuidoras regionais. O vencedor pagou 209% acima do preço mínimo. Em qualquer outro setor, isso seria motivo de celebração: concorrência acirrada, preço maximizado. Mas gás de cozinha não é commodity de especulação. É item de primeira necessidade para 70% das famílias brasileiras.
O governo Lula, ao anunciar a intenção de anular o leilão, reconhece o óbvio: o mecanismo falhou. Mas a pergunta incômoda permanece — como a ANP permitiu que um leilão de produto essencial fosse desenhado de forma a possibilitar um ágio de 209%?
Quando o mercado funciona contra o cidadão, o problema não é o mercado — é quem desenhou as regras.
Anular é suficiente?
Anular o leilão resolve o sintoma, não a causa. O modelo de leilão da ANP para gás de cozinha precisa ser repensado. Não faz sentido tratar um produto essencial com as mesmas regras de um leilão de espectro de telecomunicações. São lógicas diferentes, necessidades diferentes, consequências diferentes.
O governo precisa decidir: gás de cozinha é mercadoria ou é direito? Se é mercadoria, aceite o ágio. Se é direito, regule de verdade. A zona cinzenta entre os dois só beneficia quem navega nela — e esse nunca é o cidadão.
O contexto
Esta decisão não acontece no vácuo. Com a guerra no Irã pressionando preços de energia globalmente, o Brasil enfrenta um cenário em que cada centavo conta. Anular um leilão que encareceria ainda mais o gás de cozinha faz sentido político e social. Mas precisa vir acompanhado de uma reforma estrutural, não apenas de um gesto.
O botijão de gás já é, para milhões de brasileiros, um luxo mensal. Que tipo de país permite que cozinhar seja um luxo?