Peruanos residentes em SP fazem fila para votar em colégio

Leia de novo. Agora pense no que esta notícia não diz.

Peruanos residentes em SP fazem fila para votar em colégio
Intermezzo — Opinião

Leia de novo. Agora pense no que esta notícia não diz.

O que está por trás

Peruanos residentes no Brasil fazem fila para votar em SP Peruanos residentes em São Paulo fizeram filas neste domingo (12) para votar nas eleições gerais que vão definir presidente da República, vice-presidentes, senadores, deputados e representantes para o Parlamento Andino. Na capital paulista, o local de votação era a Escola Estadual Rodrigues Alves, na Avenida Paulista, das 7h às 17h, e puderam participar peruanos com mais de 18 anos. Eleitores reclamaram das filas no perfil do consulado p

Não é sobre esta notícia especificamente. É sobre o acúmulo. Uma manchete dessas, há dez anos, pararia o país por uma semana. Hoje, divide espaço com memes e receitas de bacalhau. Isso não é evolução da sociedade — é erosão da capacidade crítica.

O Brasil tem uma relação peculiar com suas próprias crises. Oscilamos entre a indignação explosiva de 48 horas e a amnésia cívica completa. Nenhuma das duas reações serve. A indignação sem memória é teatro. A amnésia é cumplicidade.

Quando o absurdo vira rotina, o problema não é a notícia — é a nossa capacidade de reagir a ela.

O contexto institucional

Para entender essa manchete, é preciso olhar além dela. O Brasil vive um momento institucional em que três poderes disputam narrativa, enquanto o cidadão assiste da arquibancada sem entender as regras do jogo. O Executivo governa por medida provisória. O Legislativo negocia por emenda. O Judiciário legisla por decisão monocrática. E ninguém — absolutamente ninguém — pergunta ao contribuinte se ele concorda com a direção.

O que essa manchete revela é um sintoma de algo maior: o divórcio completo entre a agenda pública e as necessidades reais da população. Enquanto Brasília discute cargos, o supermercado reajusta preço. Enquanto o STF delibera, o ônibus não chega. A desconexão não é acidental — é estrutural.

A pergunta que ninguém faz

Quem se beneficia quando a gente para de se surpreender? Quem lucra com a nossa fadiga informativa? A resposta é sempre a mesma: quem está no poder. Não importa qual poder, não importa qual partido. A normalização do inaceitável é a ferramenta mais eficiente de manutenção do status quo.

E nós, cidadãos exaustos, somos cúmplices involuntários toda vez que passamos a manchete sem parar. Toda vez que dizemos "ah, mas sempre foi assim". Toda vez que confundimos cinismo com lucidez.

O cinismo político não é sofisticação — é rendição com verniz intelectual.

O que a história ensina

O Brasil já passou por isso antes. Nos anos que antecederam o AI-5, a sociedade também achava que o pior não ia acontecer. Nos anos 80, a inflação era "normal". Nos anos 2010, a polarização era "passageira". O Brasil tem um padrão: subestimamos crises até que elas se tornem irreversíveis, depois fingimos surpresa.

Não estou comparando contextos históricos — estou comparando comportamentos. A incapacidade de reconhecer padrões destrutivos enquanto eles se formam é o maior defeito político do brasileiro. E essa incapacidade é cultivada ativamente por quem se beneficia dela.

O preço da democracia é a vigilância constante. Não a vigilância paranoica — a vigilância informada, crítica e persistente.

O que fazer

Parar. Ler. Pensar. Não aceitar o resumo. Não confiar na indignação de 280 caracteres. O jornalismo existe para isso — para ser a pausa entre a manchete e a opinião formada.

A Xaplin não é isenta. Tem posição. E a posição é: preste atenção. Porque quem não presta atenção paga a conta depois. Sempre paga. A conta vem em forma de direito perdido, serviço precarizado, futuro hipotecado. E quando chega, não tem troco.

Exija mais. Da imprensa, dos políticos, de você mesmo. O nível do debate público é diretamente proporcional ao que a sociedade aceita como aceitável. Se aceitamos pouco, recebemos menos.

Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.