Professor: Guerra com o Irã passou a ser conflito de estratégia
O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Paulo Roberto de Almeida, afirma que a guerra entre Estados Unidos e Irã "deixou...
O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Paulo Roberto de Almeida, afirma que a guerra entre Estados Unidos e Irã "deixou de ser um conflito militar localizado e passou a ser um conflito de estratégia geopolítica global". Em entrevista à Xaplin, ele explica por que essa distinção importa — e o que o Brasil tem a ver com isso.
De guerra regional a tabuleiro global
A entrada da China como mediadora — oferecendo-se para hospedar negociações em Pequim — transformou o que era uma disputa bilateral em um teste de forças entre as três maiores potências do planeta. "Os EUA atacam o Irã, mas miram a influência chinesa no Golfo. A China defende o Irã, mas protege suas rotas de petróleo. Ninguém está lutando pelo que diz estar lutando", analisa Almeida.
"A guerra do Irã é o primeiro conflito do século XXI em que os três grandes — EUA, China e Rússia — estão diretamente envolvidos, ainda que por caminhos diferentes. Isso muda tudo." — Paulo Roberto de Almeida, UnB
O papel da Rússia
Moscou, que já fornece sistemas de defesa antiaérea S-300 ao Irã, intensificou o apoio logístico após o início dos bombardeios americanos. Satélites de inteligência russos estariam fornecendo dados de posicionamento de navios americanos no Golfo Pérsico, segundo reportagem do Financial Times — acusação que o Kremlin nega.
Para a Rússia, a guerra no Irã é uma oportunidade estratégica: enquanto Washington concentra recursos no Golfo, a pressão sobre a Ucrânia diminui. O Ministério da Defesa russo já anunciou "exercícios militares de rotina" na fronteira com a Finlândia — timing que analistas consideram provocativo.
O que o Brasil perde
O impacto econômico para o Brasil é duplo. Primeiro, o preço do petróleo: com o barril acima de US$ 110, a Petrobras lucra mais com exportações, mas o custo dos combustíveis internamente pressiona a inflação. A gasolina já subiu 8% em 2026, segundo a ANP.
Segundo, as exportações agrícolas: o Irã é o quarto maior comprador de milho brasileiro e o sexto de carne bovina. Com sanções financeiras mais rígidas, os pagamentos iranianos estão sendo processados com atrasos de 60 a 90 dias — situação que afeta diretamente produtores do Mato Grosso e Goiás.
A posição brasileira
O Itamaraty adotou a posição tradicional de "equidistância pragmática": condenou os ataques americanos sem apoiar explicitamente o Irã, e pediu "resolução pacífica através dos canais multilaterais". Na prática, o Brasil votou a favor de uma resolução na ONU pedindo cessar-fogo — vetada pelos EUA e pelo Reino Unido.
O professor Almeida considera a posição brasileira "correta em princípio, mas insuficiente em ambição": "O Brasil poderia liderar um bloco de países em desenvolvimento que ofereça mediação alternativa. Temos credibilidade com ambos os lados. Mas falta ousadia diplomática."
Cenários possíveis
Almeida trabalha com três cenários. O primeiro, "conflito controlado": ataques limitados seguidos de negociação mediada pela China — probabilidade de 40%. O segundo, "escalada regional": envolvimento do Hezbollah e fechamento do Estreito de Hormuz — probabilidade de 35%. O terceiro, "guerra prolongada": ocupação parcial do território iraniano, semelhante ao Iraque em 2003 — probabilidade de 25%.
"O cenário que ninguém quer considerar é o mais provável: um conflito que não termina, que se torna crônico, como o Afeganistão. O Irã é grande demais para ser conquistado e orgulhoso demais para se render."