"Portas do inferno se abrirão"

A declaração veio do aiatolá Ali Khamenei em pronunciamento televisionado na madrugada de sexta-feira: "As portas do inferno se abrirão para os...

Banca de Jornal — Geopolítica
Mapa do Oriente Médio
Foto: USGS / Unsplash

A declaração veio do aiatolá Ali Khamenei em pronunciamento televisionado na madrugada de sexta-feira: "As portas do inferno se abrirão para os Estados Unidos e Israel se os ataques continuarem." A frase, carregada de retórica apocalíptica, não é blefe — e tem lastro militar.

O arsenal iraniano

O Irã possui o maior estoque de mísseis balísticos do Oriente Médio, estimado em mais de 3.000 unidades pelo International Institute for Strategic Studies (IISS). Entre eles, o Shahab-3 (alcance de 2.000 km, capaz de atingir Israel) e o Khorramshahr-4 (alcance de 2.500 km, com capacidade para múltiplas ogivas convencionais).

Além do arsenal próprio, o Irã opera por meio de proxies: o Hezbollah no Líbano (estimados 150 mil foguetes), os Houthis no Iêmen (que já atacaram navios no Mar Vermelho) e milícias xiitas no Iraque e na Síria. A estratégia é clara: se atacado diretamente, o Irã pode responder de múltiplos vetores simultaneamente.

A doutrina da dissuasão assimétrica

Desde a década de 1980, a doutrina militar iraniana é construída sobre uma premissa: o Irã não pode vencer uma guerra convencional contra os Estados Unidos, mas pode torná-la insuportavelmente cara. Essa lógica explica o investimento em mísseis de cruzeiro (mais baratos que aviões de combate), drones kamikaze (como os Shahed-136, usados na Ucrânia) e guerra cibernética.

"O Irã não precisa vencer. Precisa apenas garantir que o custo da vitória americana seja politicamente inaceitável em ano eleitoral." — Vali Nasr, professor de Relações Internacionais na Johns Hopkins University

O fator nuclear

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) reportou em fevereiro que o Irã enriqueceu urânio a 60% — nível que, segundo especialistas, está a semanas de alcançar os 90% necessários para uma arma nuclear. A destruição das centrífugas de Natanz e Fordow é o objetivo declarado dos ataques americanos, mas analistas alertam que parte do programa pode estar em instalações subterrâneas ainda não mapeadas.

Impacto regional

Arábia Saudita, Emirados Árabes e Qatar já ativaram protocolos de emergência para suas infraestruturas petrolíferas. O preço do barril de Brent saltou 18% em uma semana. A Turquia, membro da OTAN com fronteira próxima ao teatro de operações, convocou reunião extraordinária do Conselho de Segurança Nacional.

Israel, que teria participado dos ataques com caças F-35 operando a partir de bases no Azerbaijão (segundo o Wall Street Journal), reforçou o sistema Iron Dome e ativou reservistas. O primeiro-ministro Netanyahu declarou que "Israel se defenderá com todos os meios disponíveis" — linguagem que, historicamente, inclui a opção nuclear.

O que está em jogo

A frase de Khamenei não é mera retórica religiosa. É uma mensagem calibrada para múltiplas audiências: internamente, sinaliza que o regime não recuará; regionalmente, ativa os proxies para prontidão; globalmente, adverte que uma escalada terá consequências econômicas (petróleo) e humanitárias (refugiados) que nenhum país será capaz de ignorar.

Redação Banca de Jornal · Xaplin