Lula errou duas vezes
Análise Política Foto: Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0) A relação entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal sempre foi...
A relação entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal sempre foi um jogo de xadrez silencioso. Mas nos últimos meses, Lula cometeu dois erros estratégicos que comprometeram seu capital político — e os efeitos já aparecem nas pesquisas.
O primeiro erro: colar no STF nas vacas gordas
Quando o Supremo tomou decisões favoráveis ao governo — como a validação do marco temporal indígena reformulado e a manutenção de programas sociais questionados pela oposição — Lula foi rápido em celebrar. Em mais de uma ocasião, associou publicamente as decisões do tribunal à "harmonia entre os poderes".
O problema é que essa proximidade explícita criou a percepção de que o STF funciona como extensão do Executivo — narrativa que a oposição explorou com eficiência nas redes sociais. Pesquisa Datafolha de março mostrou que 58% dos brasileiros acreditam que o tribunal "favorece o governo", índice que era de 41% no início do mandato.
"Quando o presidente celebra decisões judiciais como vitórias políticas, ele transforma juízes em aliados na percepção pública — e aliados podem virar adversários." — Oscar Vilhena Vieira, professor de Direito Constitucional da FGV
O segundo erro: tentar se distanciar na crise
Quando o STF passou a enfrentar a maior crise de legitimidade dos últimos anos — com CPIs, pedidos de impeachment de ministros e manifestações de rua — Lula tentou se afastar. O silêncio do Planalto durou 11 dias, interrompido apenas quando a crise começou a afetar a tramitação da reforma tributária no Senado.
A tentativa de distanciamento tardio foi lida como oportunismo: na bonança, Lula estava junto; na tempestade, desapareceu. A oposição resumiu a estratégia em uma frase que viralizou: "Lula é amigo do STF quando convém".
Os números
A aprovação do governo caiu 6 pontos percentuais entre janeiro e março (de 37% para 31%, segundo o Datafolha), com a maior queda entre eleitores do Sudeste com renda de 2 a 5 salários mínimos — justamente a faixa que decide eleições. Não por coincidência, é o segmento mais exposto às narrativas de redes sociais sobre a relação Planalto-STF.
No Congresso, a consequência prática foi o atraso de 45 dias na votação da regulamentação tributária, com senadores usando a "crise institucional" como pretexto para renegociar emendas. O governo perdeu o timing legislativo — e tempo, em Brasília, é o recurso mais escasso.
O caminho possível
Analistas ouvidos pela Xaplin sugerem que Lula precisaria de um "reset institucional": reconhecer publicamente a independência do Judiciário sem celebrá-la como vitória própria, e ao mesmo tempo defender a estabilidade institucional sem parecer subserviente. É um equilíbrio difícil — mas é justamente para isso que se elege um presidente com 40 anos de vida pública.