Irã alerta para risco de vazamento radiológico após ataques de EUA
A palavra "radiológico" num comunicado de guerra tem um peso que nenhuma análise geopolítica consegue diluir.
O Irã alertou para o risco de vazamento radiológico após os ataques americanos e israelenses atingirem áreas próximas a instalações nucleares. A palavra "radiológico" num comunicado de guerra tem um peso que nenhuma análise geopolítica consegue diluir. É a palavra que transforma um conflito regional em ameaça civilizatória.
O que aconteceu
Ataques aéreos atingiram a região de Isfahan, onde estão localizadas instalações nucleares iranianas. O Irã afirma que os bombardeios danificaram infraestrutura periférica e que há risco de contaminação radiológica. Os EUA negam ter atacado instalações nucleares diretamente. Israel não comenta.
A verdade, como em toda guerra, está em algum lugar entre as versões. O que é fato: bombardear uma região onde há material nuclear, mesmo sem atingir diretamente os reatores, cria riscos reais. Poeira radioativa, danos a sistemas de contenção, comprometimento de reservatórios de refrigeração. Chernobyl e Fukushima nos ensinaram que acidentes nucleares não precisam de bombas — bastam circunstâncias.
Não é preciso acertar um reator para causar um desastre nuclear. Basta acertar perto o suficiente para que os sistemas de segurança falhem. E sistemas de segurança não foram projetados para funcionar sob bombardeio.
A dimensão que ninguém quer discutir
Se houver vazamento radiológico — mesmo pequeno — as consequências cruzam fronteiras. Vento, água e correntes atmosféricas não respeitam geopolítica. Iraque, Afeganistão, Paquistão, países do Golfo — todos estariam na rota potencial de contaminação.
A Agência Internacional de Energia Atômica pediu "contenção máxima" a todos os lados. É o tipo de pedido que organizações internacionais fazem quando não têm poder para exigir. E neste caso, ninguém tem.
O precedente
Atacar ou ameaçar instalações nucleares em tempo de guerra cria um precedente que deveria aterrorizar qualquer pessoa racional. Se ataques próximos a usinas nucleares se tornam aceitáveis, estamos redefinindo os limites do conflito armado de uma forma que pode ser irreversível.
O Irã pode estar exagerando o risco para ganhar simpatia internacional. Os EUA podem estar minimizando para evitar pânico. A verdade importa menos que a consequência: estamos mais perto de um acidente nuclear provocado por guerra do que em qualquer momento desde a crise de Cuba em 1962.