A inflação americana é um problema brasileiro
A engrenagem invisível Quando a inflação sobe nos Estados Unidos, o Federal Reserve mantém (ou sobe) os juros.
A inflação americana de março não é apenas um problema americano. É um problema brasileiro — e a maioria dos brasileiros não sabe disso.
A engrenagem invisível
Quando a inflação sobe nos Estados Unidos, o Federal Reserve mantém (ou sobe) os juros. Juros altos nos EUA fazem o dólar se valorizar. Dólar forte encarece tudo o que o Brasil importa: petróleo, fertilizantes, trigo, eletrônicos. Ao mesmo tempo, investidores tiram dinheiro do Brasil (onde o risco é maior) e colocam em títulos americanos (risco zero). O resultado é uma dupla pressão: câmbio e fuga de capitais.
É por isso que o CPI americano de 5,1% deveria preocupar o brasileiro que nunca pisou nos EUA. A globalização financeira não pede passaporte.
O que o número realmente diz
O CPI de março rompeu uma sequência de cinco meses de desaceleração. Mais importante que o número em si é o que o compõe: a inflação de serviços (que exclui itens voláteis como energia e alimentos) subiu 0,5%, a maior alta mensal desde setembro de 2024. É essa inflação "núcleo" que o Fed observa — e ela está se mostrando mais persistente do que o esperado.
"A inflação de serviços é como gordura visceral: não aparece na superfície, mas é a mais perigosa. E é a mais difícil de eliminar." — Mohamed El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz
Os salários são o problema?
O mercado de trabalho americano permanece aquecido: desemprego de 3,8%, com criação de 280 mil vagas em março. Salários subiram 4,1% em 12 meses — acima da inflação, o que é bom para os trabalhadores, mas alimenta o ciclo inflacionário. Empresas repassam o aumento salarial para os preços; consumidores com mais renda aceitam pagar mais; a inflação se retroalimenta.
Essa dinâmica, chamada de "espiral salário-preço", é o pesadelo de todo banqueiro central. Foi exatamente o que aconteceu nos anos 1970, quando Paul Volcker precisou elevar os juros americanos a 20% para quebrar o ciclo. Ninguém espera juros de 20% em 2026 — mas 6% já é uma possibilidade que o mercado precifica.
O Brasil no olho do furacão
O Banco Central brasileiro, que vinha sinalizando cortes na Selic para o segundo semestre, agora enfrenta um dilema: cortar juros enquanto o Fed mantém os seus elevados poderia acelerar a desvalorização do real e importar inflação americana para o Brasil. O mercado já revisou as expectativas: a Selic deve encerrar 2026 em 13,25% (ante projeção anterior de 11,75%).
Na prática, isso significa crédito mais caro para empresas e consumidores brasileiros, menos investimento produtivo e crescimento econômico menor. A projeção do PIB brasileiro para 2026, que era de 2,5% em janeiro, já foi revisada para 1,8% pelo Focus do BC. A culpa não é só nossa — mas a conta é.