A guerra no Oriente Médio e o fracasso da ordem internacional
A guerra no Oriente Médio não é apenas mais uma crise geopolítica.
A guerra no Oriente Médio não é apenas mais uma crise geopolítica. É o teste definitivo da ordem internacional construída após 1945 — e essa ordem está perdendo.
O fracasso da diplomacia preventiva
Desde o colapso do acordo nuclear de 2015 (JCPOA), rompido unilateralmente pelos EUA em 2018, o Irã foi sistematicamente empurrado para um canto. Sanções econômicas devastaram a classe média iraniana — a inflação atingiu 47% em 2025 — sem enfraquecer o regime. Pelo contrário: a ala mais radical dos Guardiões da Revolução ganhou poder justamente com o argumento de que "negociar com o Ocidente é inútil".
A diplomacia preventiva falhou porque confundiu punição com estratégia. Sancionar um país não é o mesmo que oferecer-lhe uma saída. E quando não há saída, o conflito se torna inevitável.
"Ninguém lembra mais que o Irã cumpriu o acordo nuclear durante três anos. A memória seletiva da política externa americana transformou um parceiro potencial em inimigo declarado." — Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute
Israel e a lógica da guerra permanente
Para Israel, a ameaça nuclear iraniana é existencial — e esse argumento tem fundamento. Mas a estratégia de ataques preventivos contra qualquer capacidade nuclear no Oriente Médio (bombardeio do reator iraquiano de Osirak em 1981, do reator sírio de Al-Kibar em 2007) cria um paradoxo: quanto mais Israel ataca, mais seus adversários se convencem de que precisam de armas nucleares para sobreviver.
A destruição de Natanz e Fordow eliminou a infraestrutura conhecida. Mas o conhecimento técnico permanece intacto — e o incentivo para reconstruir em segredo, em locais subterrâneos, é agora maior do que nunca.
O petróleo como arma
A ameaça ao Estreito de Hormuz revela a fragilidade do sistema energético global. Setenta anos após a primeira crise do petróleo, o mundo continua dependente de um gargalo geográfico de 33 quilômetros de largura. A transição energética, prometida em cúpulas climáticas desde 1997 (Kyoto), é lenta demais para oferecer alternativa em cenário de guerra.
O resultado: o petróleo acima de US$ 110 funciona como um imposto global sobre os pobres. Quem paga a conta da guerra não é Washington nem Teerã — são os motoristas de Uber no Brasil, os pescadores do Senegal e os agricultores da Índia.
O que o Brasil deveria fazer (e não faz)
O Brasil, na presidência do Conselho de Segurança da ONU em abril, tinha uma oportunidade histórica de liderar. O veto americano à resolução de cessar-fogo era previsível — mas a resolução em si era fraca, genérica, sem mecanismos de enforcement. Um país sério apresentaria um plano concreto: corredor humanitário com contribuição de tropas de países neutros, conferência de paz com prazo definido, sanções multilaterais contra qualquer parte que atacar civis.
Em vez disso, o Itamaraty emitiu uma nota de "profunda preocupação" — o equivalente diplomático de um emoji triste. O Brasil tem assento permanente na mesa dos grandes. Está na hora de usar a cadeira para algo além de sentar.