Empresas de Vorcaro e parente fizeram ao menos 11 voos para ministros

Onze voos. Não onze reuniões em gabinetes oficiais, com atas, pautas e transparência.

Intermezzo — Opinião

Onze voos. Não onze reuniões em gabinetes oficiais, com atas, pautas e transparência. Onze voos particulares, de empresas ligadas ao empresário Vorcaro e a um parente, destinados a ministros do Supremo Tribunal Federal. O número, por si só, deveria acender todas as sirenes de uma república que se diz democrática.

O que sabemos

A investigação revelou que empresas do grupo econômico de Vorcaro e de um familiar realizaram ao menos 11 voos para magistrados do STF. Voos em jatos particulares, sem registro público de quem pagou, do que foi discutido e de quais interesses estavam na mesa — ou no ar.

A legislação brasileira não proíbe explicitamente que ministros do STF aceitem transporte privado de empresários. O que proíbe é que essas relações afetem decisões judiciais. Mas como saber se afetaram, se sequer sabemos o que foi conversado a 30 mil pés de altitude?

Onze voos. Zero transparência. Essa é a equação que corrói a confiança nas instituições brasileiras — não com escândalos espetaculares, mas com favores discretos.

A questão que não cala

Não se trata de provar corrupção. Pode ser que todos os voos tenham sido inocentes, que nenhuma decisão tenha sido influenciada, que tudo esteja dentro da legalidade estrita. Mas a percepção importa tanto quanto o fato. Quando a mais alta corte do país tem seus membros voando em jatos de empresários que têm processos nessa mesma corte, a mensagem que chega ao cidadão é devastadora.

O STF é guardião da Constituição. Mas quem guarda o guardião? Essa pergunta, que parece retórica, precisa de resposta concreta: mecanismos de controle externo, transparência obrigatória e regras claras sobre a relação entre magistrados e o setor privado.

O padrão

Não é a primeira vez. Não será a última. O Judiciário brasileiro opera com um nível de opacidade que seria inadmissível em qualquer outro poder. Juízes com auxílio-moradia morando em imóvel próprio. Ministros com férias de 60 dias. E agora, voos particulares sem prestação de contas.

Cada episódio, individualmente, é "explicável". Juntos, formam um retrato de uma elite estatal que se comporta como se as regras fossem para os outros. E enquanto isso, o cidadão que paga impostos sobre tudo — inclusive sobre o combustível desses jatos — assiste de baixo.

A redação da Intermezzo