Dorival não falhou no Corinthians. O Corinthians falhou com Dorival

A diferença importa — porque revela um problema que vai muito além de um treinador.

Banca de Jornal — Opinião
Campo de futebol visto de cima
Foto: Peter Glaser / Unsplash

Dorival Júnior não falhou no Corinthians. O Corinthians falhou com Dorival Júnior. A diferença importa — porque revela um problema que vai muito além de um treinador.

A contratação impossível

Quando Dorival aceitou o convite em janeiro, sabia que o elenco era inferior ao que teve no São Paulo e na Seleção. O que talvez não soubesse é o grau da limitação: o orçamento para reforços, prometido em R$ 80 milhões, foi reduzido para R$ 35 milhões após a revisão financeira do clube. Dos cinco jogadores pedidos por Dorival, apenas dois foram contratados — e nenhum dos dois como primeira opção.

Pedir a um chef que faça um banquete com metade dos ingredientes e depois demiti-lo porque o prato não ficou bom é, na melhor das hipóteses, injusto. Na pior, é desonestidade institucional.

"O Corinthians contratou Dorival pelo currículo e demitiu pelas condições que o próprio clube criou. Isso não é gestão — é sabotagem." — Mauro Cezar Pereira, em editorial no UOL

O problema é a cadeira, não quem senta nela

Nos últimos cinco anos, sete técnicos diferentes passaram pelo Corinthians. Todos fracassaram. A probabilidade de que sete profissionais experientes sejam igualmente incompetentes é zero. A variável constante não é o técnico — é o clube.

O Corinthians opera com três vícios estruturais:

1. Diretoria fragmentada: decisões esportivas são tomadas por comitê, com influência de conselheiros políticos que priorizam popularidade sobre competência.

2. Pressão midiática desproporcional: o maior contrato de TV do futebol brasileiro (R$ 420 milhões/ano com a Globo) gera visibilidade que amplifica cada crise.

3. Torcida impaciente: a combinação de grandeza histórica e frustrações recentes cria uma expectativa de resultados imediatos que nenhum projeto de médio prazo sobrevive.

O que funciona (e o Corinthians ignora)

O Palmeiras de Abel Ferreira é a prova viva de que o futebol brasileiro permite projetos de longo prazo. O segredo não é o dinheiro (o Flamengo gasta mais e ganha menos): é a blindagem do técnico contra a pressão externa. Abel sobreviveu a eliminações, derrotas em clássicos e até a uma sequência de sete jogos sem vitória em 2023 — porque a presidente Leila Pereira decidiu que não demitiria por resultados de curto prazo.

O Corinthians precisaria de uma liderança capaz de fazer o mesmo: escolher um técnico, dar-lhe três janelas de transferência e protegê-lo dos 100 mil opiniões diárias que chegam pelas redes sociais. Mas isso exige coragem política — e coragem política é a commodity mais rara no Parque São Jorge.

E agora?

O próximo técnico, seja quem for, herdará o mesmo elenco, o mesmo orçamento e a mesma pressão. Se não houver mudança estrutural na governança do clube, ele terá o mesmo destino de Dorival — e do antecessor, e do antecessor do antecessor. O padrão só se quebra quando alguém decide que o padrão é o problema.

Redação Banca de Jornal · Xaplin